Hábitos missioneiros
Quando decidimos visitar as Missões, no Sul do nosso continente, era mês de novembro, e nós ainda não sabíamos que roteiro seguir. Éramos um grupo de familiares e amigos mineiros interessados em saber como aquelas imponentes construções, datadas dos séculos XVII e XVIII, haviam se materializado ali, pela liderança dos padres jesuítas, em uma região povoada pelos índios Guaranis. Conseguimos uma empresa para fazer o nosso roteiro de seis dias, tendo como base a cidade de Santo Ângelo, no Oeste do Rio Grande do Sul.
Optamos por sair de Porto Alegre rumo à região missioneira de carro, na companhia de nosso guia, e passamos por cidades como Lajeado, Cruz Alta e Ijuí, até chegar a Santo Ângelo, onde visitamos o Memorial da Coluna Prestes, na antiga Estação Ferroviária, o Museu Municipal e a Catedral Angelopolitana, junto ao sítio arqueológico. Rumamos à tarde para São Miguel das Missões, reconhecida pela Unesco como Patrimônio Cultural da Humanidade, um dos mais bonitos conjuntos de construções do lado brasileiro. À noite, no espetáculo de som e luz, pelas vozes de Fernanda Montenegro e Lima Duarte, conhecemos a saga dos que habitaram aquela região missioneira e vivenciamos o nascimento, desenvolvimento e a destruição de um povo. Há um conjunto arquitetônico projetado por Lúcio Costa, onde se podem ver belas esculturas em cedro.
Nosso próximo destino era a Argentina. Fomos para Porto Xavier/San Javier, atravessando de balsa o Rio Uruguai. No dia seguinte, atravessamos o Rio Paraná para chegar a Encarnación, no Paraguai, e visitar as missões de La Santíssima Trinidad. O sol forte de dezembro nos convidava a sentar embaixo de frondosas árvores, algumas delas com suas raízes incorporadas aos restos das construções. Em uma região que pertencia originalmente à Espanha, havia muitos povoados como esse. Segundo o guia, quando a população chegava a sete mil habitantes, outra aglomeração era criada, até a expulsão dos jesuítas, acontecida em meados do século XVIII.
Retornamos a Posadas, a caminho de San Ignácio Mini, uma das sete reduções que compõem hoje o Circuito Internacional das Missões Jesuíticas, considerado Patrimônio Cultural da Humanidade. Para fazer o trajeto de Santo Ângelo a Porto Alegre, tomamos um ônibus executivo muito diferente daqueles que vemos por aqui. Entre as boas lembranças que trouxemos, as gastronômicas têm um lugar especial. A carne por esses lados do Sul é muito boa, isso não é segredo para ninguém, mas dessa vez resolvemos aproveitar também os peixes. Em uma região que tem rios como o Uruguai e o Paraná, o surubim é servido de diferentes maneiras e foi sempre uma boa pedida.
Para nós, visitantes, ficaram as lembranças das belas paisagens e os mistérios da vida de um povo sensível às belas artes. Ficou também a emoção de viver alguns hábitos da cultura missioneira, que adotamos de forma natural. O de compartilhar a cuia de mate, por exemplo. Ora ao mate se acrescentava a água quente, ora a água supergelada para fazer o tererê paraguaio, que ajudava a espantar o calor. Quando vimos, a cuia passava naturalmente de mão em mão, como se fôssemos todos irmãos, como os missioneiros.
CARMELITA ELIAS VIDIGAL








