Benemérito das artes
Há 40 dias internado na Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) do Hospital Militar, em Juiz de Fora, o jornalista e crítico de arte Décio Lopes morreu por volta das 20h45 da última segunda e foi sepultado ontem, às 14h, no Cemitério Parque da Saudade. Segundo Jerônimo Lopes, filho mais novo do primeiro casamento, Décio não resistiu a um enfisema pulmonar e foi, ainda, vítima de infecção generalizada. "Nos últimos tempos, ele estava muito agradecido por ter se reaproximado da família", comenta Jerônimo. "Além de ter concluído tudo o que precisava sem deixar nada pendente para trás", completa o filho, informando que Décio encontrava-se também em tratamento por doença de Parkinson. De acordo com o laudo médico da instituição, a série de infecções levou o jornalista à morte, aliada a complicações renais.
Nascido no Bairro Santa Rita, em Juiz de Fora, Décio viveu os últimos anos de sua vida no Bairu, próximo da ex-esposa Neusa Dutra Pereira, com quem, durante 12 anos de casamento, teve quatro filhos. "Era um poeta que não fazia mais poesia", ressalta Jerônimo Lopes, ao sublinhar a grandiosidade do pai, cujo título de Cidadão Benemérito de Juiz de Fora foi-lhe outorgado em 2006 pela Câmara de Vereadores local. A despeito da importância para a crítica das artes locais, Neusa lamenta o fato de não haver um depoimento de Décio no Museu da Imagem e do Som (MIS), afixado na Divisão de Memória da Funalfa. "Sendo ele um dos criadores do MIS, essa é uma falha da cidade, pois parte da memória das artes plásticas e da crítica de cinema foi embora com ele", ela diz, sugerindo uma cópia dos filmes de João Carriço em homenagem ao ex-marido.
Décio Lopes foi jornalista de diversos periódicos, entre eles o "Diário Mercantil", sempre atuante na área cultural, além de ter mantido compromisso com o estudo e a pesquisa do cinema. Membro do Centro de Estudos Cinematográficos (CEC) e do Movimento Cineclubista Brasileiro entre as décadas de 1960 e 1980, Décio Lopes é lembrado, sobretudo, por sua intensa luta pele recuperação e preservação da obra de João Gonçalves Carriço, um dos pioneiros do país a guardar expressiva produção de cinejornais. "Ele exibia filmes na praça, carregava parte do acervo do João Carriço embaixo do braço. Chegou a recuperar latas e latas de filme que haviam sido jogadas fora no Rio Paraibuna", lembra a jornalista Maria Aparecida Barral, estagiária da Prefeitura na época em que Décio Lopes contribuíra para a criação da Funalfa, em 1978, durante o governo do então prefeito Mello Reis.
Na transição dos anos 60 para os 70, porém, Décio, então funcionário dos "Diários Associados", já demonstrava seu apreço pela sétima arte, como fora testemunhado por Ismair Zaghetto, primeiro superintendente da Funalfa. "Na época, contratamos o Décio para o trabalho de assessoria relativo ao acervo do (João) Carriço, pelo qual ele sempre fora apaixonado. Só que o acervo estava correndo sério risco, pois as pessoas tinham dificuldade para lidar com isso, muito por desconhecimento. Buscamos, então, o apoio da Fundação Cinemateca Brasileira, em São Paulo, e levamos esses filme para lá", conta Zaghetto. "Cinéfilo extremo, Décio era perito no assunto, por isso foi de uma utilidade grande, além, é claro, de saber conviver com todos ao seu redor, muito graças à sua alma nobre."
Junto à pesquisadora Martha Sirimarco, Décio Lopes chamou a atenção da opinião pública local para o descaso com o acervo de Carriço, levando a questão aos quatro cantos da cidade por meio das reportagens que assinava pelo "Diário Mercantil". "Matrizes negativas de acetato foram lançadas no Paraibuna nos idos de 1970, pois o poder público tinha medo de que aquilo sofresse uma autocombustão, uma vez que o tipo de material, película dos anos 20 e 30 de acetato, não apresentava estabilidade quando submetido a diferentes condições de umidade e temperatura", detalha o cineasta e professor Franco Groia, sobre o acervo que, por conta do esforço e da admiração de Décio Lopes, sobreviveu à efemeridade e se encontra disponível a todos.
Em 1978, Décio Lopes resolveu fazer o I Festival de Cinema Super/8 de Juiz de Fora. Nos anos 70, o formato super/8 estava no auge. Já em 1983, Décio integrava a lista de 800 artistas e interessados no manifesto que transformaria a velha fábrica de tecidos de Bernardo Mascarenhas em espaço cultural. "No tempo em que convivi com ele, ainda repórter, percebi sua capacidade enquanto profissional versátil. Ninguém era tão apaixonado por cinema como Décio Lopes", declara o dramaturgo Natálio Luz.
Plural, Décio Lopes era tido por Natálio como um apreciador e crítico, não um artista, mas o indivíduo que sabia falar de arte e conduzir o pensamento em direção ao que queria como resultado. "Era uma figura enigmática, espiritualizada, um espírito evoluído, mas não o da religião, e sim o do ser inteligente, que compreende, é humilde, generoso e que sabia criticar", conclui o dramaturgo, fazendo coro às palavras de outro amigo do crítico. "Será impossível falar sobre memória cultural de Juiz de Fora sem citar o nome do Décio. Ele foi um guerreiro assumindo posições de luta nos mais diversos campo de batalha", define Vanderlei Tomaz, a quem Décio sempre tratou como o (co)criador da Lei Murilo Mendes de incentivo à Cultura.








