Espetáculo ‘OUTRA’ leva corpos, vozes e resistência ao palco em Juiz de Fora

Montagem que une teatro, dança e performance para discutir feminismos e ancestralidade estreia no Teatro Paschoal Carlos Magno


Por Maria Luiza Guimarães*

24/06/2025 às 07h00

Teatro, performance e dança se entrelaçam para colocar em cena as vivências de oito mulheres. É dessa expressão que nasce “OUTRA”, espetáculo que estreia nesta quarta-feira (25), às 20h, no Teatro Paschoal Carlos Magno, em Juiz de Fora, com entrada gratuita. A montagem é resultado de uma criação coletiva que parte das experiências de branquitude e negritude das intérpretes para pensar os conceitos do feminismo, da ancestralidade e da resistência.

Dirigida por Letícia Nabuco, artista formada em dança que, mais tarde, se aproximou do teatro, a peça investe no corpo como lugar central para externalizar a criação. “O que eu vejo em comum entre essas chamadas artes cênicas (teatro, performance e dança) é que todas elas se expressam a partir do corpo. Meu olhar é muito corporal. Eu entendo as emoções com o corpo, a voz como corpo e as palavras como corpo. Algumas cenas pedem palavras, outras pedem silêncio e, mesmo dentro dessa teatral, o gesto, a expressão, a energia que colocamos na interpretação são essenciais, independente do texto”, explica.

Mais do que representar personagens, o espetáculo “OUTRA” propõe um espaço de escuta e troca de vivências. Desde o início dos ensaios, em fevereiro, o processo tem colocado em diálogo memórias, dores e formas de resistência que, muitas vezes, permanecem silenciadas.

A diretora destaca que, mesmo entre mulheres que reivindicam o feminismo, as noções de empoderamento partem de realidades diferentes. “O feminismo foi construído a partir da experiência de mulheres brancas que buscavam independência, trabalho e reconhecimento. Mas as mulheres negras sempre trabalharam e nunca foram vistas como frágeis. Suas lutas eram outras. Ainda assim, há dores comuns, como o enfrentamento ao machismo, que atravessa todas”, afirma.

Além da estreia nesta quarta-feira, o espetáculo contará com outras três apresentações gratuitas. As sessões acontecerão nos dias 26 de junho, 1º e 2 de julho, sempre às 20h, no mesmo local. Os ingressos são gratuitos e podem ser retirados antecipadamente pela plataforma Sympla.

OUTRA Marcella Calixto Divulgacao
Espetáculo é uma criação coletiva que parte das experiências de branquitude e negritude das intérpretes para pensar os conceitos do feminismo, da ancestralidade e da resistência (Foto: Marcella Calixto / Divulgação)

Referências, inspiração e fomento

A ideia para “OUTRA” surgiu de leituras, trocas e referências que ajudaram a moldar a pesquisa do grupo. Entre as influências, Letícia destaca o livro ‘Sou sua irmã’, da escritora e ativista norte-americana Audre Lorde. Na obra, ela aborda a interseccionalidade, conceito essencial para o espetáculo.

“Ela mostra que não existe um tipo de opressão isolado. Uma mulher preta, por exemplo, enfrenta o machismo de forma diferente por ser preta, e o racismo de forma diferente por ser mulher. Audre ainda traz a questão da orientação sexual. Foi uma leitura que ajudou muito a pensar como cada corpo carrega essas marcas”, explica Letícia.

Para viabilizar o projeto, o grupo contou com recursos da Lei Paulo Gustavo, que financia produções culturais em todo o país. Segundo a diretora, o incentivo público é indispensável para manter projetos artísticos que não seguem a lógica do grande entretenimento.

“Sem editais como a Lei Paulo Gustavo, a Lei Aldir Blanc e a Lei Murilo Mendes, não seria possível manter esse tipo de arte. A bilheteria sozinha, infelizmente, não sustenta a criação desse nicho ainda. É um apoio essencial para que a arte continue cumprindo seu papel social”, avalia.

Cena para todos

Pensado desde o início como um espetáculo acessível, “OUTRA” traz a proposta de audiodescrição como parte da dramaturgia. A narração, voltada para pessoas com deficiência visual, não é apenas um recurso técnico, mas integra o próprio tecido poético da obra.

“Eu e a equipe já tínhamos a vontade de ter audiodescrição ao vivo em todas as apresentações, mas durante o processo criativo, esse recurso virou parte do texto do espetáculo”, relembra Letícia. “Muita gente que assistiu aos ensaios chegou a comentar que dá vontade de fechar os olhos e imaginar tudo que está acontecendo. Isso diz muito sobre como essa linguagem está costurada à cena.”

A audiodescrição utilizada foge do formato técnico e objetivo comum. Letícia aposta em uma abordagem mais sensível, que convida o público a completar os sentidos com a imaginação. “É uma audiodescrição poética, que dialoga com o jeito como eu crio meus espetáculos — cenas que só se completam no encontro com o público. Cada pessoa vê algo diferente, interpreta de um jeito. E é nessa troca que a obra ganha vida”, finaliza. 

Serviço

Espetáculo: OUTRA

Datas: 25 e 26 de junho; 1º  e 2 de julho

Horário: 20h

Local: Teatro Paschoal Carlos Magno (Rua Gilberto Alencar 1 – Centro)

Ingressos: Gratuitos, com retirada antecipada pelo Sympla

Classificação indicativa: Livre

Todas as sessões contam com audiodescrição

 

*Estagiária sob supervisão da editora Gracielle Nocelli