Documentário sobre Humberto Mauro é lançado em streaming
Sobrinho-neto do famoso cineasta, André Di Mauro contou à Tribuna sobre os bastidores desta produção familiar
“Tem uma frase muito famosa do Humberto Mauro, que é insuperável: ele falava que cinema é cachoeira”, cita André Di Mauro, sobrinho-neto de um dos maiores cineastas que o Brasil já teve. Nesta sexta-feira (24), estreia no Polo Audiovisual TV (poloaudiovisual.tv) o documentário homônimo que homenageia o lendário realizador, dirigido pelo próprio André Di Mauro e lançado em 2018. Nascido em Volta Grande, município distante cerca de 60km de Cataguases, Humberto Mauro (1897-1983) teve mais de cinco décadas de produção audiovisual. O diretor, que soma ao menos 300 filmes, entre curtas e longas-metragens, deixou também como herança gerações de talentos, com filhos e sobrinhos destacados no mundo das artes. Entre eles, o filho e fotógrafo José (Zeca) Mauro, coautor de diversas obras do pai, além de ter feito a direção de fotografia do documentário.

“Geralmente, quando alguém quer seguir a carreira artística, tem uma resistência nas famílias, mas no nosso caso era uma coisa normal”, comenta André, que chegou a conhecer Humberto Mauro. “Ele era irmão mais velho do meu avô, Aroldo Mauro, que sempre teve uma grande admiração por ele, colecionando tudo que saía, e passou isso para a gente”, relembra. Quando começou no teatro, aos 13 anos, André ainda não tinha noção da figura artística que fazia parte de sua família. Ele passou sua fase colegial assistindo a filmes de Humberto Mauro, mas só após uma grande mostra em Cataguases, na década de 1980, foi se atentar para a obra do tio-avô, fascinado. “A partir daí comecei a desenvolver uma pesquisa, com a intenção de fazer um filme. Foram muitos anos de pesquisa e escrevi um livro sobre a vida dele, em seu centenário. Ele era inspirador pela luta, pelo pioneirismo e pela força de vontade.”
Em poucas palavras, o diretor define Humberto Mauro como uma figura marcante no cinema mundial e, provavelmente, um dos diretores com o maior número de filmes na história. “Na era do cinema mudo, ele foi considerado um dos mais importantes cineastas do período, e tudo isso é por causa da originalidade dele e a brasilidade. Ele coloca o elemento humano o tempo todo, destacando a região onde viveu na Zona da Mata mineira. Seu primeiro ciclo foi em Cataguases, um dos mais importantes ciclos do Brasil”, destaca.

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O presente repetindo o passado
A princípio, a intenção de André era fazer uma dramatização da biografia de Humberto Mauro, mas, por ser um projeto muito caro, a melhor alternativa foi fazer um documentário através de arquivos. “Escolhemos fazer um filme a partir de sua obra, com mais de cem filmes dele. É uma narrativa sensorial, que foge aos padrões, com trilha sonora do Villa-Lobos e sonorização de filmes mudos. Consegui uma entrevista do Humberto Mauro ao Museu do Som, que é quase uma cápsula do tempo, onde ele previu muitas coisas do futuro. Em uma das previsões, com a qual ainda arrepio, ele fala: ‘Tem algum parente meu em 2020?’. Essa entrevista é o fio condutor do documentário. A gente não queria o Humberto Mauro como uma peça de museu sendo analisada, queríamos ele vivo, em cena com seus filmes”, conta o diretor, que pretende fazer um novo filme, dramatizado, no futuro.
O documentário foi selecionado para representar o Brasil no Festival de Cinema de Veneza – indicado ao Leão de Bronze -, um dos mais importantes do mundo, ao lado de Cannes e Berlim. O curioso é que este é o mesmo festival em que Humberto Mauro esteve representando o país, em 1938, com “A descoberta do Brasil”, naquela que foi a estreia internacional do cinema brasileiro. A coincidência completa a honra da obra, que teve carreira internacional e nacional, recebendo diversos prêmios, além de concorrer com outros 12 títulos para representar o Brasil no Oscar. “Foi um filme com baixíssimo orçamento e conseguimos ter toda essa exposição. Acho que conseguimos fazer a imagem que o Humberto Mauro merecia”, se emociona André.









