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Por Fernanda Sanglard

24/04/2011 às 07h00

Há algum tempo as artes têm abordado, de diferentes maneiras, a necessidade que as pessoas sentem de ter voz e a incapacidade de escutar. Seja por meio da representação de figuras mitológicas, nos filmes ou no teatro, o conflito entre ser ouvido e ter capacidade de escutar ganhou destaque na contemporaneidade. Aliás, na correria cotidiana, passou a ser rotina observar pessoas falando ao mesmo tempo, gente que atende ao telefone e imediatamente fala, em vez de ouvir, e aqueles que respondem à pergunta antes mesmo que o outro consiga concluir. A percepção, no entanto, não fica restrita à produção artística e tem sido estudada por profissionais de diversas áreas.

"Na mitologia grega, Tirésias e Cassandra profetizavam verdades que não eram ouvidas, e as consequências foram trágicas. Na peça ‘A cantora careca’, de Ionesco, é mostrada a comunicação em crise", exemplifica a doutora em comunicação e professora da UFJF, Márcia Falabella, que também é pós-doutora em estudos teatrais. Conforme a psicanalista e professora do Departamento de Psicologia da UFJF Bianca Faveret, que também estuda a vivência do tempo e os novos sintomas da contemporaneidade, estamos em uma sociedade exacerbadamente individualista, em que todos querem falar, muitos sentem que não são escutados e poucos se abrem para escutar o outro. "Vivemos uma espécie de ‘mito contemporâneo de Narciso’. Tão devotado à própria imagem, ele não deu a menor atenção à ninfa Eco, que acabou morrendo. Em outras proporções e circunstâncias, isso é o que ocorre com frequência entre nós", explica Bianca.

Ouvir e escutar

Tanto o psicólogo e grupoterapeuta Amaury Tadeu Rufatto, que integra o Núcleo de Estudos em Saúde Mental e Psicanálise das Configurações Vinculares (Nesme), de São Paulo, quanto a professora de comunicação e expressão oral da Faculdade de Comunicação da UFJF Márcia Falabella destacam que há diferenças entre ouvir e escutar.

O ouvir está relacionado à fisiologia, e o escutar, ao processo subjetivo que compreende a vivência social. "Para escutar, é preciso estar atento e elaborar um trabalho intelectual a partir do que se ouve", explica Márcia. Rufatto pondera ainda que escutar requer pré-disposição e compreensão. Entretanto, Márcia defende que ambos estão em crise. "Os barulhos urbanos e os fones de ouvido podem deixar as pessoas surdas mais cedo, o que compromete diretamente a noção do ouvir. E, ao se fechar na sua própria realidade, no seu casulo, não existe mais atitude ativa em receber e processar as informações sonoras do outro. Isso significa que vamos muito mal, não das pernas, mas dos ouvidos", brinca.

Bianca concorda e acrescenta que, para escutar o outro, é preciso estar aberto para a diferença. "Outro ponto envolve a velocidade com que o tempo é vivido na contemporaneidade. Neste cenário, torna-se cada vez mais difícil escutar." Ela acredita que essa nova maneira de viver na "bolha" pode acabar provocando angústia, tensão e até pânico.

 

Agir em grupo

As atividades em grupo e a busca pela reflexão e relaxamento foram as formas encontradas pela administradora de empresas Paula Fernandes, que atua como gestora de comunicação de um banco, para tentar amenizar esse mal contemporâneo. "Muitas vezes me peguei tão acelerada, preocupada e focada nas tantas entregas a cumprir que não prestei a devida atenção em alguém." Para ela, falar muito e não escutar os outros é resultado claro da ansiedade "provocada pela pressão enlouquecedora do mundo moderno", principalmente quando se está em uma cidade grande.

Conforme o psicólogo Amaury Tadeu Rufatto, esse é o grande ponto da dificuldade em escutar. "A característica é muito frequente atualmente, mas não ocorre com todas as pessoas e em todos os lugares. Normalmente, aqueles que levam a vida de forma mais agitada e vivem nos grandes centros urbanos estão mais propícios a desenvolver esse comportamento", que também seria resultado do imediatismo e da busca pelo fazer, mas sem reflexão.

A psicanalista Bianca Faveret esclarece que as atividades em grupo realmente podem ajudar, mas também é necessário fazer uma crítica cultural do momento em que vivemos e reaprender a viver coletivamente. "Mas a maior parte do tempo estamos em agrupamentos e não em grupos. Cada um faz a sua parte, sem trocar experiências", complementa Rufatto.

Aparentemente as pessoas nunca fizeram tantos laços sociais. Isso é o que acredita a psicanalista Bianca Faveret. Contudo, segundo ela, os avanços tecnológicos não foram suficientes para criar vínculos efetivos. "As pessoas têm mil amigos nas redes sociais e raríssimos de verdade." Para Rufatto, são ferramentas interessantes e com potencial, "mas ainda as usamos apenas para falar".

Se de um lado as novas mídias possibilitam que as pessoas tenham mais espaço para se comunicar e ter voz, por outro isso não quer dizer que sejam escutadas. "É paradoxal. Temos as redes sociais funcionando a todo vapor, e a troca de informações é vasta. Twitter, Facebook, e-mails,mensagem de celular. No entanto, esse contato é intermediado pela máquina. Falta a relação pessoal, olho no olho, tato, cheiro, audição. Enfim, é essa relação tribal e humana que está se perdendo", completa Márcia Falabella.