Do grito às escolhas ousadas: atriz Gilda Nomacce moldou carreira no cinema nacional
Uma das musas do terror nacional e do cinema independente revela o que pautou construção de suas personagens; papel em ‘Dolores’ foi presente de Chico Teixeira

O grito. Não a série de pinturas de Edvard Munch, mas o improviso de Gilda Nomacce, em pleno noticiário de TV, enquanto divulgava o filme de terror “Enterre seus mortos”. Foi por esse momento, no final de 2025, que ela ficou conhecida por grande parte do público brasileiro. Mas, por trás da performance que viralizou nas redes sociais e fez com que ela “virasse meme”, como conta, há uma carreira de 40 anos e um dos nomes mais disputados de atriz do cinema brasileiro independente. Em filmes como “Trabalhar cansa” (2014), “As boas maneiras” (2017), “Meu nome é Bagdá” (2020) e “Prédio vazio” (2025), ela interpreta personagens que incluem mulheres sensuais, feiticeiras, donas de casa contidas e até figuras misteriosas que vão se desvelando aos poucos. Estrelando o filme “Dolores”, dos diretores Maria Clara Escobar e Marcelo Gomes, na Mostra de Cinema de Tiradentes deste ano, ela contou que sua trajetória é pautada em escolhas ousadas e no amor pela sétima arte.
Gilda sonhava em ser atriz de cinema desde muito nova. Mas, quando foi buscar a sua trajetória na área, se viu diante de um cenário com poucas oportunidades: a Embrafilme estava fechada e havia pouquíssimo recurso para a área. Foi assim que ela foi para o teatro, onde revela que aprendeu muito mais recursos sobre atuação, e se deparou com textos como os de Lourenço Mutarelli. E também foi assim que, em 2009, fez Residência Artística em Moscou, no teatro de Tabakov, e continuou sua formação com trabalhos como o que desenvolve no Centro de Pesquisa Teatral de Antunes Filho. Nesse sentido, como ela lembra, um ponto importante de virada foi o curta “Um ramo”, de Juliana Rojas e Marco Dutra.
Esse trabalho já começa a mostrar a sua predileção por produções ousadas e que flertam com o terror feito em solo brasileiro. “A minha escolha é o que eu sou, o que eu penso e como eu vejo o mundo. E acho que é o que atraiu essa carreira pra mim. Por isso que eu amo tanto o cinema: é uma arte comunitária, em que ninguém faz nada sozinho, porque eu preciso muito das outras pessoas”, conta ela. Nomes como o desses diretores, ou ainda de cineastas como Julia Katharine, João Marco de Almeida, Caetano Gotardo e Gustavo Vinagre, estão entre os que ela destaca como aqueles que moldaram sua carreira. “Apesar da minha idade, eu sou dessa geração do novíssimo cinema brasileiro, porque quando eu era muito jovem não conseguíamos fazer filmes”, relembra.
Investir nesse gênero que foi considerado durante muitos anos como “menor”, no entanto, já trouxe muitos prazeres: ela entende que trata-se de um tipo de cinema que os jovens amam e que vem crescendo com muita força. E que, também, tem permitido às mulheres explorarem lugares que considera especialmente interessantes: “Cheguei a um terror que não é só das mulheres que vão ser exploradas pelo universo masculino, mas aquela que vai dar a facada, que vai fazer sangrar. É ela! Me orgulho de ter crescido no terror dessa forma”, diz. Seja em qual for o gênero, ela acredita que os bons atores precisam conhecer suas possibilidades. “Eu sou uma atriz que tem muitas ferramentas, não porque nasci boa. Mas porque entendi o que era um organismo de ator, e fui aprendendo”, diz. E que, assim, se sente “um corpo que se permite ser tocado” e que dá vida a esse ciclo de organicidade em cena.
Construção de Marlene
O trabalho no filme “Dolores” (2026), que também foi para o festival de Rotterdam, segue a mesma lógica das escolhas que Gilda já fez: trabalhos com quem ela gosta de colaborar e criar. A narrativa se volta para a personagem que dá nome à trama, vivida por Carla Ribas, quando ela tem um sonho que sua vida irá mudar e terá um cassino de sucesso. Toda a trama é centrada nela, em sua filha Deborah (Naruna Costa), que não mantém contato com a mãe, e na neta Duda (Ariane Aparecida), que busca mudar a própria realidade. Gilda interpreta a vizinha da protagonista, de nome Marlene, que quase faz parte dessa família. “Ela faz de tudo para ajudar todo mundo, mas troca os pés pelas mãos às vezes, porque é um pouco fofoqueira”, define.
Neste caso, porém, o filme tem um sentido maior até do que aquele que pode ser assistido pelo público. É um filme escrito por Chico Teixeira e que seria realizado por ele, antes de morrer. “Ele queria muito que esse filme fosse feito. O Marcelo Gomes ‘herdou’ esse filme, porque o Chico quis que ele fizesse e eles eram grandes parceiros de vida e de cinema”, relembra Gilda. O projeto foi retomado cinco anos após a morte do roteirista e diretor, com os papéis que já tinham sido deixados para colaboradores em outros projetos — como é o caso de Gilda, em “Ausência”, e Carla Ribas, em “A casa de Alice”.
Além de melhor amiga de Dolores, Marlene vende docinhos na frente de uma prisão e se apaixona por uma detenta. A construção da personagem, para Gilda, surgiu de perceber como ela tem uma vida completamente comum, mas gosta de se aproximar de pessoas aventureiras. E também da impossibilidade de perguntar o que esse interesse romântico teria feito para ser encarcerada. “Para mim, o importante da Marlene era construir em cima de tantas vidas que vão ficando sozinhas. Eu mesma já não tenho mãe e nem pai. Parti dessa solidão que levava a esse desejo enorme de ter uma companheira”, conta. No processo de pesquisa, ela explica que foi importante se dar conta de como os presídios masculinos estão cheios de mulheres para fazer visitas, mas os presídios femininos são vazios, porque elas ficam abandonadas por seus parceiros.
A ausência masculina na vida dessas mulheres é outra marca do filme, que entende que essas configurações de família são muito comuns. E criam outras possibilidades de afeto: “Estamos falando sobre uma mulher de quase 70 anos com todos os seus sonhos que está arriscando a vida, vivendo. São três gerações atravessadas pela necessidade de existir. Ninguém ali está com tempo morto. Nem eu, que estou com 50 e tantos anos”. O que mais gostou nessa criação, que envolveu muito do carinho que também sentia por Chico Teixeira, é perceber a delicadeza em Marlene. “Apesar da vida ser tão árida para ela, sempre continua”, diz.
Tópicos: Mostra de Cinema de Tiradentes