Talento é pouco ou quer mais?
Tiradentes – "Fique famosa, menina!" Sem pudores, o diretor Gustavo Pizzi costuma fazer essa pedido à esposa, a atriz Karine Teles. Exibido na edição do ano passado da Mostra de Tiradentes, o primeiro longa de ficção de Pizzi, "Riscado", conta a história da atriz Bianca, que se vê diante de uma possível grande chance profissional. Mesmo depois de inúmeros prêmios e festivais, Karine, protagonista do filme, não foi a escolhida para uma entrevista no "Programa do Jô". "Preferiram o Otávio Müller, que está ótimo, mas faz uma participação especial", disse a artista carioca durante o primeiro debate da 15ª Mostra de Cinema de Tiradentes, com as tendas erguidas até o próximo domingo. A Tribuna esteve na pequena cidade histórica no último final de semana e acompanhou de perto as discussões que rodearam o tema do evento: o ator em expansão.
A frase imperativa de Pizzi, lançada no início da matéria, justifica-se. Segundo Karine, as portas ainda se abrem com mais facilidade no Brasil para um rosto conhecido. "Comecei no teatro muito nova. Mesmo assim, quando as pessoas leem ‘Riscado, com Karine Teles’, perguntam-se ‘com quem’?", comentou, ressaltando que nunca buscou fazer TV, embora não tenha aversão à linguagem. As observações da carioca dizem respeito ao primeiro sentido de "expansão" levantado pelo professor e pesquisador Pedro Maciel Guimarães, mediador do seminário. "Percebo uma independência do intérprete de cinema em relação ao meio televisivo", constatou Guimarães.
Para o paulista Marat Descartes, que está no longa "2 coelhos", de Afonso Poyart, realmente não é necessário ter passado pela telinha para fazer bons filmes, embora, para o mercado, essa ainda seja uma questão crucial. Se ela não direcionar a escolha do elenco, completa Descartes, acabará mostrando sua força um pouco mais adiante. No caso do paulista, o fato ficou claro quando percebeu a ausência de sua foto no cartaz de divulgação da obra de Poyart. "Outros personagens menores, feitos por famosos, estavam lá. Questionei o diretor, e ele explicou que foi uma imposição do distribuidor, afinal, eu não ‘vendo’." Marat atua no teatro há 20 anos e, recentemente, aceitou seu primeiro papel em novela, como Lui, de "A vida da gente".
Na opinião de Karine Teles, o talento não é o único responsável pela decolagem de uma carreira. De acordo com ela, essa foi a reflexão que "Riscado" pretendeu lançar ao mundo. Sobre o assunto, o ator pernambucano Irandhir Santos afirmou não ver problema em perder espaço para uma figura conhecida, desde que ela traga qualidade em seu trabalho. Por outro lado, Karine deixou clara sua indignação pela preferência de não-atores em determinados projetos. "Por que ‘torturá-los’? Não seria mais fácil chamar um ator? Existem tantos precisando de emprego por aí", dispara, referindo-se à típica atuação de um profissional recorrente hoje: o preparador de elenco.
Marat questiona a necessidade dessa ponte entre intérprete e cineasta. "Será que não falamos a mesma língua?" Selton Mello, homenageado desta edição da mostra, bate na mesma tecla durante o seminário "A política do ator no percurso de Selton Mello", o segundo ocorrido no sábado. Conforme salienta o mineiro, pode-se contar nos dedos das mãos os diretores nacionais que sabem comandar seu elenco. "O ator é a alma de um trabalho. Lide com ele, não com intermediários", convocou.
Pedro Maciel Guimarães também trouxe para a conversa a noção estética de "expansão" ao interrogar como um ator pode impor ritmo a uma obra, mesmo sem assiná-la. Segundo Irandhir Santos, o artista criador é aquele que possui completo domínio de sua arte. "Desde o início do século XX, muitos teóricos abordam a autonomia do intérprete." Em "Viajo porque preciso, volto porque te amo", de Marcelo Gomes e Karim Aïnouz, o pernambucano utiliza apenas a voz em uma experiência que define como incrível. "Descobri outro instrumento de trabalho", destacou, refletindo sobre a ausência do corpo do personagem nos enquadramentos do cinema. Na visão de Irandhir, a prioridade oferecida ao rosto é uma consequência da mediação da máquina. "O artista expansivo, porém, quebra um pouco essa hierarquia."
Conforme assegura Marat Descartes, quando a escolha do elenco não é determinada pelo mercado, não é apenas o tipo físico que influi no processo. De acordo com ele, muitos diretores o convidam pelo que ele pode contribuir para a proposta. Em "Trabalhar cansa", de Juliana Rojas e Marco Dutra, Marat opta por um registro de interpretação pouco naturalista. "As pessoas estranham isso, pois estão acostumadas aos códigos da TV", opina Karine Teles, que corroteiriza "Riscado", em cartaz atualmente nos Estados Unidos. "Acho que os atores brasileiros estão cada vez melhores no cinema exatamente por estarem menos televisivos."
Sobre o papel do artista colaborativo, José Eduardo Belmonte menciona que não esperava contar apenas com Selton Mello ao chamá-lo para o protagonista de "Billi Pig" (que teve sua pré-estreia mundial na abertura da 15º Mostra de Tiradentes). "Ao trazer o Selton, trouxe também todos os outros cineastas com os quais ele atuou."








