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Entrevista / Rogério Pereira, diretor da Biblioteca Pública do Paraná

O jornalista fez palestra em Juiz de Fora na última semana e lança seu primeiro livro em novembro O mesmo motivo que roubou a razão do protagonista de "Dom Quixote de La Mancha" foi o responsável por fazer o jornalista e cronista Rogério Pereira iniciar, há 27 anos, sua "vingança literária". Filho de uma empregada […]

Por MARISA LOURES

23/06/2013 às 07h00

O jornalista fez palestra em Juiz de Fora na última semana e lança seu primeiro livro em novembro

O jornalista fez palestra em Juiz de Fora na última semana e lança seu primeiro livro em novembro

O mesmo motivo que roubou a razão do protagonista de "Dom Quixote de La Mancha" foi o responsável por fazer o jornalista e cronista Rogério Pereira iniciar, há 27 anos, sua "vingança literária". Filho de uma empregada doméstica e de um motorista, o catarinense, amante dos livros, traçou um caminho não muito comum para quem tem pais analfabetos. Depois de trabalhar, aos 13 anos de idade, como office boy na sucursal da "Gazeta Mercantil", cursou faculdade, fez pós-graduação e hoje é diretor da Biblioteca Pública do Paraná. A instituição possui um acervo com cerca de 630 mil títulos, chegando a emprestar uma média de 1.500 exemplares por dia.

"Tentamos fazer da biblioteca um local de convivência e extremamente atrativo, com atividades como oficina de criação literária com grandes escritores, contação de histórias o dia todo e publicação do jornal ‘Cândido’. Mas ela também tem uma série de dificuldades igual a qualquer outra. O importante é fazer com que os funcionários defendam esse projeto de espaço cultural. Com uma equipe coesa e capacitada, a chance de dar certo é maior", defende ele, que, apesar de ser taxado de Dom Quixote por causa da aparência física, não chegou à loucura como o personagem de Cervantes, mas deixou o cargo de editor-chefe da "Gazeta do Povo", de Curitiba, para realizar um sonho e se dedicar ao "Rascunho"- jornal fundado em 2000 inteiramente voltado à literatura (rascunho.gazetadopovo.com.br). A empreitada, que conta com colaboradores de peso, como Afonso Romano de Sant’Anna, Luiz Ruffato, Carola Saavedra, entre outros, chega a deixá-lo endividado. Para levar os cinco mil exemplares impressos à casa de seus assinantes, às vezes tira dinheiro do próprio bolso. Atualmente, está com um rombo de R$ 70 mil.

"O ‘Rascunho’ é minha forma de tentar mostrar que é possível refletir o livro e a leitura numa situação extremamente precária. Ele não era para existir, não era para eu ser diretor da biblioteca pública, se fosse levar em consideração a trajetória de vida da minha família. Ele é uma forma de resistência e contribuição, já que durante a minha vida estudei em escola pública, tive bons professores, bons bibliotecários, muita gente que me ajudou a chegar até aqui. Não cheguei aqui à toa. Não sou um super-herói", fala em entrevista à Tribuna na última terça-feira, quando esteve em Juiz de Fora para participar do 6º encontro de Bibliotecas Públicas e Escolares. Como se tudo isso não bastasse, seu próximo passo é debutar no mercado editorial aos 40 anos. A novela "Na escuridão, amanhã", com selo da editora Cosac Naify, ganha as prateleiras em novembro. A expectativa é que ele retorne à cidade para uma noite de autógrafos.

 

Tribuna – Dá para depender só do dinheiro público para fortalecer uma biblioteca?

Rogério Pereira – Fazemos muita parceria com a iniciativa privada. Vamos pintar a biblioteca num projeto das tintas Coral, por exemplo. Também buscamos recursos via Lei Rouanet, através da associação de amigos da biblioteca pública. Hoje, há rede wireless para todos os usuários, e estamos com uma reforma em andamento no valor de R$ 8 milhões, sendo R$ 4 mi financiados via Rouanet, e o restante, pelos cofres públicos. Também vamos investir R$ 1 milhão só em compra de livros e estamos preparando a biblioteca para encarar o mundo digital. Não dá para você sentar e achar que o estado vai arcar com tudo, até porque a biblioteca, muitas vezes, não é prioridade dele. O que a gente tem que fazer é pressionar a secretaria, a qual a biblioteca está ligada, para que tenha um aporte financeiro para acervo, preservação.

 

– Você disse em recente entrevista que há um descompasso entre a Secretaria de Cultura e a Secretaria de Educação. Poderia explicar melhor essa questão?

– Isso acontece na maioria dos estados e municípios. Não há uma sinergia entre as secretarias de educação e cultura. É preciso que haja um trabalho em conjunto. É preciso preparar o público para ir à biblioteca, porque ela não salva ninguém. Quem forma o leitor é a escola. A biblioteca é o passo seguinte. É claro que muita gente acaba se formando leitor dentro dela, mas ela é um espaço-meio entre a escola e a família. Como você vai ajudar na formação do usuário que chega lá sem a base da leitura? O que não podemos deixar de fazer é ter acervo atualizado, atrações dentro de seu espaço, fortalecer o vínculo amoroso com o usuário e mostrar a importância da leitura na melhora da vida das pessoas. Isso é papel do bibliotecário.

 

– Você disse também que o mercado editorial brasileiro vive um descompasso com o índice de leitura. Saberia apontar as causas e soluções?

– Você tem um mercado editorial superaquecido, com várias editoras, grupos editorias chegando, e ainda tem um grande comprador de livros, que se chama Governo federal. O que os governos fazem é muito mais fácil. É mais fácil trabalhar na capacitação do professor, na capacitação de bibliotecário ou comprar livros? Claro que é comprar livros. Você pega o dinheiro e fala ‘me vê cinco mil exemplares’, fortalece o mercado, o que é importante, e gera milhões. Porém, lá na ponta, quando você faz uma pesquisa de leitura, constata que as pessoas não estão lendo. Quer dizer que esses livros viraram meros objetos de decoração. O processo de formação e consolidação do leitor passa primeiro por questões óbvias, como a formação e a construção de um professor capacitado. Muitas vezes, o docente não é apto, o leitor não tem um amparo em casa, porque as famílias também não são leitoras, e isso acaba fragilizando toda uma corrente. Só comprar livros não resolve. É a mesma coisa de só colocar computador nas escolas. As pessoas precisam saber acessar essas tecnologias e buscar nelas a leitura. Não adianta dar um iPad a quem nunca leu, pois não vai ler "Dom Casmurro" ou outro bom livro só porque está naquela tecnologia.

 

– Qual o impacto das novas tecnologias sobre o empréstimo de livros?

– A gente não vai ouvir falar em fim de empréstimos de livros no Brasil por muitos anos. Não há biblioteca pública física em todos os municípios do Brasil. Minas Gerais, por exemplo, tem 853 cidades. Qual a situação das bibliotecas públicas municipais no interior do estado? Como pode se falar da substituição do livro impresso pelas novas mídias se as pessoas não estão lendo os livros de papel? Ler um livro na mídia impressa predispõe a formação de um novo leitor. A não ser que se forme milhões de leitores somente para mídia digital, o que também não sei se está acontecendo. Você acha que no interior do Paraná as prefeituras estão equipadas para levar às escolas a mídia digital? É uma discussão pertinente, mas muito mais pertinente é refletir sobre como fazer o índice de leitura do Brasil aumentar. Assim, quando chegar a patamares, como na Alemanha, haverá possibilidade de se discutir a questão das novas tecnologias. Todo mundo que acessa o Facebook e o Twitter é leitor? As pessoas discutem leitura nessas ferramentas? Há exceções, mas a maioria não. Sou taxativo: a substituição não vai acontecer no Brasil num longuíssimo prazo, porque a situação brasileira é precária.

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– Em 2006, você deixou o cargo de editor da "Gazeta do Povo", de Curitiba, para abrir o "Rascunho" , jornal 100% literário. Você o financia com seus próprios recursos?

– Financio boa parte. Depende do mês. Estou muito endividado este ano. Já são 13 anos de jornal. Faço isso porque acredito na leitura, no livro, na discussão literária, nas bibliotecas e no potencial de transformar a vida das pessoas por meio deles. Hoje não sou só diretor da biblioteca pública, sou editor do "Rascunho", curador de bienais, escrevo crônicas e lançarei um livro em novembro. Tudo vem a partir do "Rascunho". É uma vingança que deu certo. Se acabasse com o jornal, seria como me desligar da energia que me alimenta. É uma aposta que faço todo mês. Esse ano está bem ruim, já tive de emprestar R$ 70 mil para arcar com várias despesas, mas sempre dá certo. Às vezes, tenho algum retorno financeiro, porque tenho assinantes e anunciantes.

 

– Na capa do "Rascunho" está escrito que vocês não seguem o novo acordo ortográfico. Faz parte da sua vingança?

– Sou contra a forma como ele foi imposto. Acho desnecessário. Tenho uma paixão pelo trema. É aquela coisa de brasileiro: fez o acordo, e todo mundo tem que estar usando. Em Portugal não estão nem aí e não vão aderir, isso já está mais do que definido. Já prorrogaram, mas não quiseram saber. O "Rascunho" sempre teve aquela coisa da resistência, foi uma brincadeira séria, e manteremos não sei por quanto tempo, mas faz diferença? Acho a palavra ideia mais legal com acento. A gente corrige o texto, põe o acento. Às vezes vira uma confusão.

 

– Você tem uma lista de 50 colaboradores de peso trabalhando gratuitamente. Como consegue isso?

– Temos um problema hoje no "Rascunho" para abrigar tantos colaboradores de qualidade e sem cobrar nada. Fecho a pauta todo mês, há todo um critério editorial, levo a coisa meio a ferro e fogo. Os colunistas têm o espaço deles e escrevem sobre o que quiserem. Às vezes, dialogamos para não ter temas similares numa mesma edição.

 

– Uma das marcas do "Rascunho" é a forte crítica literária. Isso já gerou algum problema para o jornal?

– Quando demos uma capa para o Sebastião Uchoa Leite, teve um movimento na internet, amparado pelo "Jornal do Brasil", para fechar o "Rascunho". Eles acharam a crítica muito pesada. Nos três primeiros anos do jornal, fazíamos uma crítica pesada mesmo, éramos meio guerrilheiros. É uma boa marca, mas, às vezes, erramos a mão. Há três edições, publicamos uma crítica forte contra o Leminski (Paulo Leminski). Foi tudo discutido dentro do jornal. As pessoas não entendem que não é isso que vai fazer ou desfazer o autor. O que fazemos é colocá-lo em evidência, em discussão. Sempre quis que o ‘Rascunho’ fosse um espaço livre. Para se ter uma ideia, publicamos textos contra o próprio jornal. Claro que tem gente que brigou com a gente pelo resto da vida, não quer saber, e é inimigo declarado. Já outras pessoas voltam. O Fabrício Carpinejar, por exemplo, não é mais colaborador, mas é uma pessoa próxima, que sempre participa dos projetos, como o "Paiol literário" (encontro de escritores de Curitiba).

 

– Certa vez, o ator Antônio Abujamra te chamou de Dom Quixote. Você concorda?

– Ficou essa marca, porque sou magro e porque o Dom Quixote é um personagem que eu adoro, mas isso seria uma pretensão absurda. Sou um sonhador sim, porque acho que a literatura é muito importante, levando em conta minha história de vida. Não gosto dessa coisa do coitadinho, do pobre que deu certo. Acho isso uma bobagem. Acredito em transformação social a partir da leitura, que potencializa várias coisas. Nesse sentido, sou um sonhador, mas com um pé bem no chão. Faço um jornal há 158 meses, há quase 14 anos, tenho uma dimensão do custo, da administração e uma dimensão do artista. Não acho que sou nada demais, é uma escolha. Como trabalho desde criança, sempre fiz minha própria contabilidade. Sei buscar recurso, sei vender o anúncio, vender assinatura. Às vezes, a pessoa tem um projeto interessante, mas não sabe executá-lo.

 

– Você acompanha a literatura contemporânea? O que acha do que está sendo produzido?

– Leio e gosto da literatura contemporânea brasileira, internacional e também dos clássicos. A literatura brasileira contemporânea é boa ou ruim tanto quanto a inglesa contemporânea ou norte-americana. Acho que há um preconceito com ela, assim como acontece com o cinema brasileiro. Temos grandes autores contemporâneos, posso citar uns 20 que apresentam preocupação estética e em ter uma obra interessante: Milton Hatoum, Bernardo Carvalho, Luiz Rufatto e o Cristóvão Tezza, que é da minha cidade, por exemplo. O que acontece é que, às vezes, há um ufanismo em relação à literatura brasileira contemporânea, porque tem muita gente escrevendo, publicando, porque há muitas editoras, muita compra de governo, muito site, e há facilidades de imprimir sob demanda. Há um excesso de autores e muitas coisas que realmente não gosto. Aqui em Juiz de Fora, há um grande poeta que é o Iacyr Anderson Freitas. Ele é importante e bom, mas não é reconhecido nacionalmente, e poucas pessoas o leem. Vai ser um clássico da literatura? Acho que não, mas é um poeta importante.

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