Uma aula muriliana
Eles queriam a revolução e a vanguarda, se identificavam como formalistas e marxistas. No distante 1947, o grupo Forma, composto por artistas italianos, publicou um engajado manifesto artístico e também político. Diziam “não se acomodar num realismo esgotado e conformista que nas mais recentes experiências em pintura e escultura já se revelou um caminho limitado e estreito”. No mesmo ano, o italiano Alberto Magnelli agitava a cena parisiense com uma exposição comparável a de Picasso em relevância. Anos mais tarde, nas décadas de 1960 e 1970, o movimento abstrato faria com que a Itália, por definitivo, escrevesse um importante capítulo da história da arte mundial.
Ainda assim, com artistas em livre trânsito pela Europa, a vanguarda italiana foi sendo, pouco a pouco, negligenciada pelo correr dos anos. Murilo Mendes saiu de Juiz de Fora, passou pelo Rio de Janeiro e escolheu fincar raízes em Roma – “a cidade que vive sob o signo do juízo universal”, escreveu. Do lado de lá, ajudou a preservar um período de intensa e essencial produção. O poeta não apenas viveu entre pintores e escultores, como também gravou nas páginas dos livros seu olhar para as obras que o cercavam.
No número 6 da lendária Via del Consolato, Murilo escrevia rodeado por quadros que hoje ilustram a exposição “L’occhio del poeta”, no museu que leva seu nome. Em uma reprodução plana, numa das paredes da mostra que segue em cartaz até o final de março, o poeta está sobre uma escrivaninha e, acima, obras como as de Magnelli, um dos artistas de quem mais falou. Reproduzindo textos presentes nos livros “Retratos-relâmpago” (1973), “A invenção do infinito” (1960-1970) e “Poesia completa e prosa” (1995), a exposição revela a faceta de crítico do autor de versos.
De acordo com o pesquisador e professor da USP Lorenzo Mammí, Murilo adere ideias já estabelecidas em Roma e filia-se à mesma prática do historiador Giulio Carlo Argan, um dos maiores críticos do mundo. “Seus escritos críticos são exercícios de leitura e se apoiam explicitamente, inclusive por citações, a uma escola crítica determinada. Desenvolvem-se como notas à margem que, no entanto, são muitas vezes precisas e preciosas”, pontua Mammí, em ensaio para a “Remate de Males”, revista da Unicamp que em 2012 homenageou o escritor juiz-forano.
Didática, reunindo 26 expoentes do movimento abstrato desde a influência surrealista até a abertura para a op-art, “L’occhio del poeta” resulta numa aula. Para o supervisor do Museu de Arte Murilo Mendes, José Alberto Pinho Neves, voltar-se ao próprio acervo do museu é uma estratégia possível e criativa num momento de contas difíceis. Segundo o arte educador do espaço, Vinicius Steinbach, “os textos e as obras se completam na mostra, abordando vários movimentos e várias escolas paralelas ao abstracionismo”, o que auxilia na compreensão de um momento artístico e de um país. “Talvez por te dado aula, Murilo com seu texto ajuda muito no didatismo da leitura”, afirma. Pelas palavras do poeta, a Tribuna estabeleceu um recorte do olhar exposto, como convite à contemplação e ao estudo que Murilo pintou com cores ainda mais fortes em seus textos.










