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O macaco e a estatueta


Por RAPHAELA RAMOS

23/02/2012 às 07h00

Sequência mostra transformação do ator em Caesar

Sequência mostra transformação do ator em Caesar

O rosto, os olhos, os cabelos e a pele de Andy Serkis não podem ser reconhecidos em Caesar, o chimpanzé humanizado de "Planeta dos macacos: a origem". Mas o ator está ali. Usando uma roupa especial, cheia de sensores, ele contracenou com o protagonista James Franco e o restante do elenco, inclusive, em tomadas externas. A Fox bem que tentou, mas não conseguiu convencer a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood de que Serkis deveria ser indicado como melhor ator coadjuvante. Surge, então, a pergunta: existem tipos de atuação mais e menos reconhecidos no Oscar e fora dele?

O professor da Escola de Comunicação da UFRJ Denilson Lopes acredita que as polêmicas sobre a mescla de tecnologia e interpretação estejam apenas começando. "O desafio será indicar um artista que não existe. E não estamos longe disso", sentencia. Na opinião de Lopes, o trabalho de Serkis se destaca conforme os padrões de Hollywood, que, aliás, sempre aprovou personagens cunhados com o auxílio de próteses e maquiagem. Que o digam Nicole Kidman, por "As horas", e Brad Pitt, por "O curioso caso de Benjamin Button". O problema, de acordo com o acadêmico, é que "Planeta dos macacos: a origem", de Rupert Wyatt, trata-se de um filme de ação, um lugar não muito apropriado para as grandes atuações. "A Academia é composta, em sua maioria, por atores e atrizes. Por isso, a intensidade dramática tem tanta importância para ela." Lopes explica que, normalmente, são valorizados diálogos intensos e papéis centrais na narrativa.

Na visão do diretor de cena Rômulo Veiga, se Andy Serkis ganhasse um Oscar, a equipe técnica também deveria colocar as mãos na estatueta. "Embora ele seja ótimo, não sabemos até que ponto foi ajudado pela tecnologia, já que ela pode corrigir imperfeições, como, por exemplo, reduzir uma expressão de medo exagerada." Segundo Rômulo, a criação de uma categoria específica seria uma possível solução. "Até porque essas ferramentas vão ser cada vez mais utilizadas", lembra, acrescentando que uma atuação estupenda talvez não fosse ressaltada se o trabalho de computação gráfica não tivesse qualidade. Especialista nesse tipo de interpretação, Serkis foi o Gollum, da série "O senhor dos anéis"; o King Kong, do longa de 2005; e, mais recentemente, o capitão Haddock, de "As aventuras de Tintin". O inglês possui uma parceria de dez anos com a Weta Digital, estúdio neozelandês responsável pelos efeitos.

Em "Viajo porque preciso, volto porque te amo", de Marcelo Gomes e Karim Aïnouz, o pernambucano Irandhir Santos lançou mão apenas da própria voz. Considerando incrível a experiência, ele afirma ter afiado sua aparelhagem cênica. Para Irandhir, diante da tecnologia, todo intérprete deve se esforçar para ultrapassá-la e humanizá-la. O juiz-forano José Eduardo Arcuri também contracenou apenas com o microfone na montagem "Meu dia perfeito", de Marcos Marinho. Depois de acompanhar os ensaios, ele foi para o estúdio viver o vizinho que narra o cotidiano de Senhor M., sempre comandado pelo diretor Ricardo Martins. "Tudo pode ser fácil ou difícil. Depende do quanto de envolvimento há com a ideia." No início do ano, o ator fez a mesma locução em espanhol, para uma turnê da peça no Chile.

Para a atriz carioca Karine Teles, protagonista do longa "Riscado", essencial em qualquer mídia e gênero é o alcance da verdade. De acordo com ela, cinema, TV e teatro são formas diferentes de se fazer a mesma coisa. O importante, completa ela, é que o público seja convencido. "Acho Andy Serkis um grande ator. E Hollywood deveria sim valorizar esse tipo de atuação."

 

Lógica do Oscar

Rômulo Veiga cita outro artista que merecia fazer discurso no Oscar: Doug Jones, de "O labirinto do fauno". "Ele faz três papéis no mesmo filme." Segundo o diretor de cena, além da "performance capture" – usada em "Planeta dos macacos" -, existem vários tipos de maquiagem digital. No Brasil, conforme Veiga, um exemplo de aplicação de tecnologia seria o longa "Chico Xavier", que aproximou a aparência do intérprete à do personagem. De acordo com Denilson Lopes, o cinema brasileiro costuma seguir os padrões naturalistas de Hollywood. "A valorização de um outro registro de representação pode ser mais difícil", analisa ele, salientando, porém, que a lógica do Oscar não é a única. O mesmo é lembrado por José Eduardo Arcuri, que aponta "as análises chapadas dos americanos".

Sobre as diferenças entre drama e comédia, Karine Teles garante que a segunda é mais difícil e meticulosa que a primeira. "Costumo me emocionar profundamente com grandes interpretações cômicas." Lívia Gomes também ressalta os desafios do humor, embora encare sem ressalvas qualquer personagem rico de nuances e viradas. Na edição de 2011 do Festival de Cenas Curtas, o solo da atriz "Como descascar cebolas sem chorar" ficou com o segundo lugar. Nele, Lívia vai do riso à tensão. "Embora a plateia pareça gostar mais de comédias, ela sabe identificar uma boa atuação em qualquer gênero." E, agora, com e sem efeitos de computador.