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Adicionar Tribuna de MinasA restauração de um dos edifícios mais representativos em estilo art déco da cidade, em plena Avenida Rio Branco, era iminente. Em 1987, a Casa D’Itália teve seu conjunto (fachada e interior) tombado, mas, como conta seu presidente, Paulo José Passarella M. de Barros, nenhum reparo significativo havia sido realizado no prédio, até o início deste ano. Em março, ocorreu o desabamento de parte da estrutura de gesso do teto do segundo andar, que, apesar de não ser original da construção, é anterior ao tombamento.
O que, a princípio, demonstrava ser um reparo pontual, acabou por apontar outras necessidades na edificação. Sob a fiscalização da Divisão de Patrimônio Cultural (Dipac), órgão da Prefeitura, o telhado foi inteiramente trocado, e o forro de outros ambientes, restaurado. Foram substituídas mais de sete mil telhas francesas, assim como a madeira da estrutura.
Outra substituição necessária foi a do palco do mesmo andar, inteiramente refeito, em madeira de lei, além da aquisição de novas cortinas. Paredes internas e externas ganharam cores da bandeira italiana, o chão do salão recebeu sinteco e polimento, os basculantes estão sendo trocados, e a cozinha foi revitalizada. O espaço vai abrigar a terceira escola do mundo de pizzaiolo nos moldes encontrados apenas em Nápoles (Itália) e Los Angeles (EUA). O curso, ministrado por Antero Fernandes, da pizzaria Artezannale, está previsto para começar em 2014.
De acordo com o diretor Passarella, foram gastos nas obras emergenciais, que devem ser finalizadas até o fim deste mês, cerca de R$ 350 mil, verba investida pela família Passarella, sem auxílio dos associados ou do Governo italiano (proprietário do conjunto). A ideia é que os investidores sejam ressarcidos com recursos arrecadados por meio da Lei Rouanet, como prevê a legislação. O projeto, que será encaminhado ao edital de incentivos fiscais federal, está sendo finalizado e propõe ainda outras etapas de restauração e revitalização do imóvel.
"Estamos cientes que é um projeto de risco, embora estejamos confiantes de que seremos contemplados. Se pudermos reaver o valor investido será ótimo. Caso contrário, que o legado fique para a posteridade, assim como pretendiam seus fundadores", diz o diretor, bisneto do respeitado comerciante Antônio Passarella.
Verdadeira força-tarefa
A necessidade de restauração da Casa D’Itália foi levantada em 2006. "A Divisão de Patrimônio Cultural solicitou a reforma, com a ressalva de que, caso contrário, poderíamos perder o benefício da isenção do IPTU", conta Pasarella. O benefício – único financeiro vigente na cidade – é concedido aos proprietários de imóveis tombados que mantenham o bem em perfeito estado de conservação.
Na época, foi iniciado o projeto de restauração e revitalização do espaço, assinado pelo escritório Falabella Arquitetura. O trabalho culminou em duas propostas – a da restauração da construção em si e a que sugere o aproveitamento do restante do terreno. Esta foi contemplada com o primeiro prêmio da 1ª Bienal de Arquitetura da Zona da Mata e Vertentes, em 2011, embora não integre os planos imediatos da casa, já que a Lei Rouanet não reverte verbas a projetos que preveem construção. "Um levantamento de um bem submetido à lei de incentivo fiscal é um projeto enorme, bastante complexo", avalia o arquiteto Luiz César Falabella.
Entre as alterações propostas pelo projeto, está a inclusão de um elevador no prédio. "É importante manter as características estipuladas pelos órgãos de proteção, mas atender também às demandas de uso adequado ao espaço", explica a arquiteta e professora da UFJF Fabiana Tavares, que participou da elaboração do trabalho. "Sem garantir acessibilidade, os projetos não são aprovados pelas leis de incentivo, que desejam, é claro, que o local seja usufruído pela comunidade."
Outro aspecto fundamental, destacado por Fabiana, é o caráter autossustentável. "Por isso o projeto inclui a criação de seis lojas laterais, que têm como objetivo colaborar com a renda da casa", diz a professora, empenhada em participar da "força-tarefa" mobilizada pela revitalização do espaço. "Frequentei aulas de italiano na casa, conheci as pessoas que trabalham por lá e fiquei muito contente quando recebi o convite para me juntar à equipe, que já contou com pelo menos 15 pessoas", relata ela, citando ainda a contribuição na elaboração de um histórico de referência, desenvolvido por integrantes do Departamento de História da UFJF, além da equipe de restauração de Valtencir Almeida. "Embora móveis, quadros, acervo documental e outros objetos não possuam uma proteção específica, fazem parte do patrimônio e precisam estar em perfeito estado."
Também está sendo finalizado o projeto hidráulico e elétrico requerido pela lei – realizado por membros da Faculdade de Arquitetura da UFJF, em permuta pela ocupação do espaço durante seminários agendados para este ano.
Restauração completa é desafio
Mais que a importância arquitetônica, a preservação da Casa D’Itália desperta atenção e agrega esforços por seu valor histórico e afetivo. "A atual gestão é corajosa em enfrentar esse desafio", dispara a professora universitária Alice Arcuri, neta de Pantaleone Arcuri, que injetou o recurso necessário à finalização da construção. "Não são poucas as pessoas que simplesmente deixam seu patrimônio ser destruído pelo tempo, para chegar ao ponto em que não haja mais volta. É claro que dá trabalho correr atrás, elaborar um projeto, levantar os custos, mas é preciso lutar para dar novas luzes a esses bens", acredita Alice, criticando a ideia do destombamento da antiga sede social do Sport Club, assunto em pauta na cidade.
Apesar das dificuldades normalmente citadas por proprietários e gestores de prédios tombados, o diretor Paulo José Passarella vê a proteção como um aspecto positivo no caso da Casa D’Itália. "Tanto pela preservação das características originais do patrimônio, quanto pelo fato de dificultar o interesse de compradores. Embora o tombamento desvalorize em cerca de 40% o imóvel, a impossibilidade de alterações é um empecilho a investidores", observa o diretor, ressaltando, entretanto, que a isenção do IPTU não é suficiente para a manutenção.
Os motivos de assumir a empreitada, segundo Luiz César Falabella, não diferem daqueles citados pelo bisneto de Passarella. "Temos uma ligação estreita com o espaço. Somos italianos de origem e, agora, de direito", enfatiza Falabella, referindo-se à obtenção de passaportes italianos pela família. "É preciso conciliar o uso mais moderno às características de construção formidáveis do prédio, para mantê-lo vivo na cidade", ressalta ele, destacando as linhas puras de art déco da Casa d’Itália. "É uma joia com a qual o próprio Governo italiano nunca se importou. Talvez, na fase de captação, empresas italianas que se firmaram no país possam contribuir, já que não é necessária uma restauração tão complicada, e a visibilidade do espaço pode ser uma excelente contrapartida."
Espaço aberto para a cultura
Idealizada para atender às demandas dos italianos e seus descendentes que decidiram firmar morada na Juiz de Fora do início do século XX, a Casa D’Itália é, hoje, um espaço aberto à população, abrigando aulas e encontros artísticos, esportivos e culturais, além de espaços comerciais, como estacionamento e restaurante. O local cumpre ainda papel descrito em seu registro de território diplomático e sedia o vice-consulado da Itália, chefiado por Pietro Ventoso.
Construído entre 1936 e 1939, o imóvel tem marcado em sua história os nomes do industrial Caio Pantaleone Arcuri e do comerciante Antônio Passarella, além do então vice-cônsul Amatore di Giácomo, como compradores do terreno onde foi erguido. A verba para a construção foi levantada pelos italianos residentes na cidade, sendo doada ao Governo italiano. Mais de 200 associados fazem hoje parte do espaço, que tem a Associação Ítalo-Brasileira San Francesco di Paola como gestora.









