Patrimônios entrelaçados de memória, trens e artistas
Segundo episódio do “Cabaret dos seres da ribalta” será lançado neste sábado (23), às 20h, no YouTube

Um projeto cinematográfico sobre várias coisas. Costurado pelo olhar do diretor Rodrigo Mangal para as memórias afetivas que circulam nos principais prédios de Juiz de Fora. O som deles: o trem, “que transcende qualquer despertar de memória”, diz ele. Ao mesmo tempo, é esse o transporte que une tantas artes que, apesar de próximas, possuem diferentes formas de expressar. O segundo episódio do “Cabaret dos seres da ribalta”, que vai ser lançado sábado (23), às 20h, no YouTube do Movimento Artístico Evolucionário (Mare), tem como cenário o Museu Ferroviário e o prédio habitado pela Sociedade Antonio Parreiras, construções que integram o complexo da antiga Estação Ferroviária da Estrada de Ferro Central do Brasil. Os patrimônios, juntos com os personagens, contam suas próprias histórias e as da cidade.
Como uma série de curtas reunidos em um filme só, “Cabaret dos seres da ribalta” pode ser definida como “arte pura”, como sugere Mangal. Isso porque não tem qualquer indicação do que, afinal, seriam as cenas. Isso fica a critério do espectador, que mistura as suas ideias com as que são apresentadas. No filme, o trem está presente, seja diretamente ou indiretamente, em todas as cenas: como está nas Minas Gerais e em Juiz de Fora. Na primeira delas, ele é o transporte que traz à cidade os palhaços que se apresentam na Praça da Estação. Com referências ao cinema mudo, a Palhaça Magrella (Deborah Lisboa), o Palhaço ArfrÂnio (Revelino Mattos) e o Palhaço Senhor.M (Marcos Marinho) apresentam um humor quase infantil, mas histórico.
Na cena seguinte, a música “O luar”, de José Amaro, músico de Juiz de Fora, cantada no filme por Sil Andrade, é pano de fundo para suas próprias memórias, que se juntam às da cidade e ao espaço onde eles estão, com quadros que ocupam toda a parede. Logo depois, Marcus Amaral, aos pés do relógio ícone da Praça da Estação, apresenta uma versão do também clássico monólogo de Charles Chaplin, em uma cena dramática e com um visual que sobressai às frases e à própria câmera – conseguimos percorrer cada fragmento de imagem.
Depois, Alexandre Gutierrez traz para a cena o teatro de bonecos em uma encenação inusitada de Dom Quixote. Christine Sílmor dança sobre sua própria história no prédio-sede do Museu Ferroviário. Lá, morava sua tia “Filhinha”. Suas memórias são reverenciadas com a presença de uma personagem mais jovem, que a apresenta quando criança. Ao seu lado, além do prédio, mais uma vez, o trem. Por fim, no mesmo lugar, Gilbértto Costta (arranjo e violão), Flávia Lima (percussão), Daniel Santos (flauta transversa), Sil Andrade e Marcus Amaral nos vocais tocam “Fragmentos”, de autoria de Driano Barboza. Essa música, inclusive, marca um momento na vida da cantora e do compositor.

Entrelaçar histórias e cenas
Todas essas cenas, além do roteiro de Rodrigo que unifica as histórias, são separadas pelos desenhos de Ramón Brandão. De acordo com o diretor, seu trabalho foi exatamente o de pensar em uma ligação que fizesse sentido, uma vez que o filme trata de muitas artes. Ele conta que cada artista apresentou sua ideia. Depois de muita conversa, os caminhos foram sendo encontrados. Ter “cabaret” no nome faz referência à ausência de apresentação. É só no final que cada nome ou personagem são apresentados.
Esses novos recursos foram sendo descobertos com o passar do tempo. O primeiro episódio parece só ter artistas e a cidade de similar com o segundo. No “Cabaret” de estreia, a memória também está presente, e o Cine-Theatro Central é um grande estúdio para seu desenrolar. De parecido, tem também a vontade de apresentar um espetáculo com qualidade cinematográfica, que remete ao clássico e que divulgue o interior dos prédios que circulam os olhares dos passantes. Os que virão, como revela o diretor, também terão essas situações como tema – apesar de serem mostrados de formas diferentes.
‘Impulso de união muito forte’
Esses trabalhos só foram, e ainda são, possíveis pelo encontro proporcionado pelo Mare. No começo da pandemia, artistas de vários setores se uniram para discutir os caminhos que poderiam ser tomados com a suspensão das atividades. “Ele (Mare) surgiu por causa de um impulso de união muito forte”, fala Rodrigo. Assim como o movimento, “Cabaret dos seres da ribalta” é fruto da pandemia e um desdobramento dessa união. Além do filme, outras discussões são levantadas pelo grupo para idealizar novas formas de atuação, tanto cultural quanto política. E isso não deve parar. Até porque, como toda evolução, como o nome propõe, é lenta, e isso Mangal já expõe.
O segundo episódio de “Cabaret dos seres da ribalta” continuará disponível mesmo depois de sua exibição. Para o dia, atores que fizeram parte do filme conversarão com o público presente, mesmo que, ainda, nas telas do YouTube, pelo chat. A primeira edição ainda pode ser vista no mesmo endereço.









