Em nome do pai

Roger Waters em uma das cenas do show
Durante a “Zoo TV”, turnê de divulgação do álbum “Achtung Baby” (1991), o U2 disparava diversas frases irônicas e conflitantes nos incontáveis telões do palco: “rock and roll é entretenimento”, “acredite em tudo”, “assista mais televisão”, “tudo o que você conhece está errado”. Em determinado momento do show, o vocalista Bono sentenciava: “isto é um show de rock and roll” – e os Trabants (aqueles carrinhos da antiga Alemanha Oriental) pendurados sobre o palco, Bono esfregando uma câmera na virilha e vestindo-se como “MacPhisto” deixavam isso explícito. Ao mesmo tempo, porém, o U2 homenageava Martin Luther King em “Pride”, denunciava o intervencionismo americano em “Bullet the blue sky” e celebrava a libertação do polonês Lech Walesa em “New year’s day”. Era o entretenimento de mãos dadas com a preocupação por um mundo melhor.
Pouco menos de dois anos antes, em 21 de julho de 1990, Roger Waters se reuniu com inúmeros artistas para celebrar a queda do Muro de Berlim, ocorrida em 1989, a convite da prefeitura da futura capital da Alemanha unificada – o que aconteceria ainda naquele ano. Ao lado de Scorpions, Sinead O’Connor, Van Morrison, Cindy Lauper e tantos outros, a reprodução do clássico “The Wall”, do Pink Floyd, ficou famosa pela construção de um imenso muro durante a apresentação – posteriormente “derrubado” – para delírio das mais de 300 mil pessoas que estiveram presentes no terreno entre a Potsdamer Platz e o Portão de Brandemburgo, além dos milhões de pessoas que assistiram pela TV, ao vivo, ao redor do mundo – Brasil incluído. O evento ficou marcado, desde então, como uma celebração musical pela paz e contra a guerra e o autoritarismo que até hoje persistem em nosso planeta.
Mesmo sabendo que, assim como no caso do U2, muitos poderiam ir pelo entretenimento (“eles constroem um muro!”, “tem um porco voador!”) ou para dizer que foram assistir ao “show do disco do Pink Floyd”, Roger Waters resolveu encarar o desafio de fazer em pleno século XXI uma nova versão para o histórico show de Berlim, rodando 219 cidades ao redor do mundo e reunindo mais de quatro milhões de pessoas nessa turnê de três anos (2010 a 2013), que chega nesta terça-feira aos cinemas como o documentário “Roger Waters The Wall”. Dirigido pelo próprio Waters e por Sean Evans, o longa-metragem passa a milhas e milhas de distância de ser apenas um apanhado de músicas clássicas envernizadas por efeitos especiais e cênicos de tirar o fôlego, desviando o foco do assunto principal.
“Roger Waters The Wall” apresenta as clássicas composições do álbum de 1979 em um show visual e tecnicamente impecável, mas que amplia o conceito imaginado pelo cantor, compositor e baixista há quase quatro décadas. A história do astro de rock, cujo pai morreu na Segunda Guerra Mundial, de relação conturbada com a mãe e vítima do repressor sistema educacional inglês – e que por isso deseja construir um muro para se isolar de tudo e todos, tudo inspirado na vida do artista – ainda está lá, mas agora “The Wall” é um libelo contra a guerra, a opressão, as ditaduras, guerras, e por todos aqueles que perderam suas vidas devido à estupidez humana.
Contra a guerra
Ainda no início da apresentação, no encerramento da primeira parte de “Another brick in the wall”, Waters dedica o show ao brasileiro Jean Charles de Menezes, morto na Inglaterra, em 2005, no auge da paranoia inglesa após os ataques terroristas ocorridos em Londres meses antes. Outros tantos nomes são lembrados, sejam eles soldados americanos mortos no Iraque e Afeganistão, muçulmanos assassinados pela “guerra ao terror” ou na Palestina, vítimas do 11 de setembro e outras atrocidades cometidas em nome de Deus, Alá, da cor da pele de certos grupos ou por petróleo e outras riquezas naturais.
Em mais de duas horas de exibição, “Roger Waters The Wall” mistura o engajamento político e pacifista do artista a um espetáculo visualmente arrebatador, como a construção do muro entre o público e a excepcional banda que acompanha Waters, além de efeitos visuais projetados na imensa estrutura. O porco voador, claro, está lá, assim como o avião que “explode” o muro logo na música de abertura, a marcha dos martelos gigantes e Roger Waters posando como o ditador fruto do delírio do personagem principal de “The Wall”, empunhando sua metralhadora e atirando para todos os lados. Todo esse deslumbramento teatral, óbvio, de nada serviria se o cantor inglês não entregasse ao público clássicos do porte de “Comfortably numb”, “Mother”, “Run like hell” e as três partes de “Another brick in the wall”.
A ‘lembrança’ do pai
O show, em si, tem vários momentos inesquecíveis, em que o público se emociona e divide com Waters uma sensação de catarse coletiva. Mas a definição de “documentário” dada ao longa-metragem se justifica nos momentos em que acompanhamos Roger Waters fora do palco. Sentindo que precisava de algo mais para o projeto, o artista inglês resolveu documentar vários momentos do seu ajuste de contas com o passado, que fazem todo o conceito tanto do álbum quanto do show fazerem sentido.
O ex-integrante do Pink Floyd é uma das milhões de pessoas ao redor do mundo marcadas pelas tragédias da guerra. Nascido na Inglaterra em setembro de 1943, ele sequer conheceu o pai, Eric Fletcher Waters, morto cinco meses depois enquanto lutava pelos Aliados na Itália, repetindo o drama familiar – seu avô, George, morreu em 1916, na I Guerra Mundial, quando Eric tinha 2 anos de idade. Ele visita, então, um monumento aos mortos da II Guerra na Inglaterra, o cemitério aonde seu avô foi enterrado na França, e finalmente vai à Itália conhecer o memorial feito para as vítimas do conflito na região de Monte Castelo, onde seu pai morreu – e nunca teve o corpo encontrado. Um dos momentos mais emocionantes do documentário é quando Roger, sozinho, lê a carta que sua mãe recebeu com a notícia da morte do marido. O mesmo sentimento é capaz de invadir o coração dos espectadores quando Waters, ao lado de seus três filhos, visita o túmulo do avô.
Roger Waters, óbvio, não é perfeito, posto que é humano, mas soube usar todas as tragédias que enfrentou, a dor de nunca ter tido um pai, para criar um trabalho único em sua concepção que, ainda por cima, serve de lembrança sobre todo o mal que podemos cometer aos nossos semelhantes. Em um mundo em que a mesquinharia, o individualismo, o consumismo, a guerra, todas as formas de preconceito, o ódio e o fanatismo nos levam diariamente à beira do abismo, a mensagem transmitida por “Roger Waters The Wall” deveria ser conhecida por todos.
ROGER WATERS
THE WALL
UCI: 29/9 (20h), 3/10 (21h30) e 04/10 (20h30)
Classificação:
12 anos









