Intimidade engavetada
No quarto, um dos lados é vermelho, a cortina tem notas musicais, e quadros se espalham pendurados pela parede, dividindo espaço com um vestido no cabide. No mesmo quarto, uma lâmpada pendendo do teto cedeu espaço, na fiação exposta, ao ninho de um pássaro. Em outro cômodo, o interruptor reserva a gordura cotidiana de um uso contínuo. Numa das janelas do imóvel, pequenas garrafas dividem lugar com ramos e uma paisagem entre a confusão de outras construções e a calmaria do céu. Na casa de Paula Duarte, convivem seis moradores – uma irmã, uma sobrinha, um irmão, uma cunhada, os pais e ela – além de três pássaros, um cachorro e uma galinha. O dito e o não dito se escondem nas dez gavetas da cômoda que expõe De casa, estreia da fotógrafa em individuais, em cartaz até o próximo dia 14, no Espaço Experimental Nina Mello. Uma das quatro vencedoras do III Prêmio Funalfa de Fotografia, Paula começa sua trajetória despindo-se e investigando os meandros de uma intimidade profundamente poética.
Fazia essas fotos desde 2011. Tinha um arquivo muito grande. Havia um ímpeto pessoal, de coisas que me incomodavam ou que eu contemplava, conta a artista. Se em algumas imagens, Paula dá pistas de seu cotidiano, mostrando uma cama de casal com vestígios da passagem de alguém, em outras, ela se coloca presente na cena, como o registro do reflexo de seu torso nu nos azulejos do banheiro. Por vários momentos, pensei se era esse o caminho. Precisava me entregar. Pensei se valeria a pena e se era isso. Acho que é bem justo me entregar para quem vê meu trabalho, que é muito importante para mim. Não é fácil para ninguém falar de si, diz ela, que fala também da própria família e de uma casa entre a desordem e a harmonia.
Fiel a seu tempo
Ao voltar sua lente para a vida íntima, a fotógrafa juiz-forana se alinha a uma das tendências da fotografia contemporânea, que atinge seu ápice no trabalho da norte-americana Nan Goldin e seus registros de um cotidiano underground e sensual. Pode até ser uma receita, mas é o momento que estou vivendo. Acho difícil fugir a meu tempo, é complicado traí-lo. Considero que estou sendo fiel a ele, mas ao mesmo tempo que digo isso, também faço algo bem próprio, único, comenta Paula Duarte. Essa sou eu, essa é a minha casa, completa.
Dispostas em gavetas de uma cômoda produzida com parte dos R$ 4 mil oferecidos pelo prêmio, as fotografias também servem como um convite à revisão da própria memória do espectador, afinal a bicicleta Ceci retratada em uma das imagens, encostada em uma parede carcomida pelo tempo, também faz parte de outras lembranças. Só não tem o mesmo significado que tem para a artista. A parede era plástica, e a bicicleta estava nesse lugar, mas o que era mais forte é que não sei andar de bicicleta. Isso é muito grande em mim, conta.
Da mesma forma, causava-lhe desconforto observar o álbum de fotografias da família e encontrar registros rabiscados pela mãe (quando jovem), que compõem uma das cenas de sua exposição. É uma foto de rompimento. Ela rompe com um tempo que passou e que ela não gostou. Isso era muito incômodo para mim. No diálogo que a jovem Paula estabelece com o próprio tempo de vida, com o tempo da fotografia e com o tempo subjetivo, suas revelações servem como impulso para uma carreira a se descobrir. O primeiro movimento que a fotógrafa faz é o do autoconhecimento, tanto pessoal quanto artístico. Não queria moldura, queria fugir disso, por isso pensei na cômoda, que era doméstica e remetia a um ambiente que eu queria criar. Tinha essa possibilidade de falar do íntimo, de guardar na gaveta e poder abrir ou fechar. É uma proposta que entreguei, dá para negar se quiser.
DE CASA
de Paula Duarte
Visitação de segunda a sexta, das 14h às 18h, sábados, das 10h às 13h
Espaço Experimental Nina Mello
(Rua 21 de Abril 25 – São Mateus)









