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Cenário de cinema


Por Leonardo Toledo

22/01/2012 às 07h00

O Quatrilho levou turistas à gaúcha Antônio Prado

O Quatrilho levou turistas à gaúcha Antônio Prado

Com seu majestoso conjunto de esculturas em mármore, a Fontana de Trevi, na Itália, sempre foi uma visão de sonho. Mas foi depois de o mundo assistir Anita Ekberg convidando Marcello Mastroianni a se banhar em suas águas, em uma das cenas mais famosas da história do cinema, que o monumento passou a constar no topo da lista de desejos de viajantes dos quatro cantos da Terra. O clássico "La dolce vitta", de Federico Fellini, fez pela fonte romana o que outros tantos filmes fizeram por atrativos turísticos de cidades como Paris, Barcelona e Nova York; tornou-os ainda mais interessantes do que já são, a partir do toque de Midas da ficção.

Essa mistura de realidade, fantasia e muita curiosidade vem despertando o segmento para a importância do cinema como agente divulgador de destinos. Há rumores de que Woody Allen escreveu e filmou "Vicky Cristina Barcelona" por encomenda da prefeitura de Barcelona. Verdade ou não, o fato é que o cineasta passou a ser assediado por vários países (incluindo Brasil) interessados em receber suas futuras produções. Depois de Londres ("Match point"), Barcelona e Paris ("Meia-noite em Paris"), a turnê europeia do diretor continuará por Roma ("Nero fiddled", em fase de pós-produção).

Bem distante da atmosfera poética de "La dolce vitta", o blockbuster "Anjos e demônios" tem feito a cabeça de milhares de visitantes que passam pela capital italiana anualmente. O percurso, que passa por pontos como a Praça de São Pedro e o Castelo de Santo Ângelo, é oferecido por diversas agências da cidade a pessoas interessadas em seguir os passos do professor Robert Langdon (Tom Hanks).

Outro hit do país é o roteiro "Comer, rezar, amar", filme (e também o best seller homônimo) é responsável pelas filas constantes na porta de locais como a sorveteria San Crispino, em Roma, e a pizzaria Da Michele, em Nápoles, local em que Julia Roberts disserta sobre o prazer frugal de degustar uma fatia de marguerita. Durante viagem pela Itália em abril, a administradora de empresas Beatriz Freitas foi conferir a iguaria e descobriu que outras centenas de pessoas haviam tido a mesma ideia no mesmo dia em que ela. A explicação para a enorme fila de turistas estava explícita na parede do estabelecimento, decorada com uma foto da atriz americana comendo a pizza no filme. "Adoro massas e fiquei louca quando vi aquela cena. A espera foi longa e o espaço era apertado, mas o sabor fez jus à fama", relata.

Em Paris, são muitos os turistas que buscam no bairro de Montmartre cenários de "O fabuloso destino de Amélie Poulain". Muitos dos locais mostrados no longa de Jean-Pierre Jeunet existem de verdade, como o café em que Amélie trabalhava e a banca de frutas de seu vizinho mal humorado, sem falar na colina da igreja de Sacre Coeur, onde a personagem espalha pistas para seu pretendente. "Como sempre gostei muito do filme, fiz questão de ir até lá. É possível sentir a atmosfera do filme assim que se chega ao local", conta a bancária Mônica Mourão, que esteve em Paris em outubro de 2010.

Animações também podem se tornar poderosos atrativos. Algumas agências parisienses oferecem o roteiro "Ratatouille", que combina gastronomia a cenários representados no filme. Embora ainda não existam itinerários semelhantes baseados no filme "Rio", a produção de Carlos Saldanha cria uma expectativa positiva em relação ao turismo na capital fluminense.

 

No Brasil, nenhuma cidade foi mais impactada por um filme do que a gaúcha Antônio Prado. Pouco conhecido até meados da década de 1990, o município passou a ser uma das estrelas da Serra Gaúcha por ter ambientado as cenas de "O quatrilho". O impacto da produção, aliás, superou a divulgação turística, ajudando a convencer os moradores de que o tombamento dos bens históricos da região poderia ser um bom negócio para todos. Até então, o procedimento era visto com severas reservas pelos habitantes locais. "O cinema pode ser um meio de comunicação eficiente para o destino, pois o espectador associa a história da ficção à imagem da locação. Esse processo resulta em familiaridade e identificação, despertando o desejo de reproduzir a experiência da fantasia", comenta a turismóloga Patrícia Castello Bucioli, que pesquisou a experiência de Antônio Prado em seu trabalho de graduação na Universidade Federal de São Carlos.

 

Nem Casablanca, nem Paris. Humphrey Bogart e Ingrid Bergman não colocaram os pés no Norte da África ou na Europa durante as filmagens de "Casablanca". Rodado durante a Segunda Guerra Mundial, a produção foi inteiramente realizada nos estúdios de Hollywood. Ironicamente, foi responsável por colocar a cidade marroquina no mapa de muitos espectadores e por alimentar a aura romântica da capital francesa, cunhando a frase: "Sempre teremos Paris".

Mesmo em tempos de paz, o cinema contabiliza histórias em que gato foi vendido por lebre. Apesar da localização sugerida pelo título do filme, as dunas de "Lawrence da Arábia" são marroquinas, na realidade. Aliás, o Marrocos é uma das locações favoritas das produções hollywoodianas, por se tratar de um país muçulmano pacífico e receptivo aos estrangeiros. Assim, transformou-se na charmosa Abu Dhabi de "Sex and the city 2", no Egito de "A múmia", na Jerusalém de "A última tentação de Cristo" e na Pérsia de "Príncipe da Pérsia – Areias do tempo".

As pessoas que tiverem curiosidade pelas verdadeiras locações do cinema podem recorrer ao site Movie Locations (www.movie-locations.com). Na página, é possível consultar onde foram filmadas cenas célebres, como a corrida escada acima de Rocky Balboa em "Rocky" (filmada em frente ao Museu de Arte da Filadélfia, nos Estados Unidos).

 

O efeito inverso também é comum no cinema. Os cenários da saga "Harry Potter" parecem pertencer unicamente à realidade dos bruxos, mas muitos dos sets utilizados no filme existem de verdade. No Norte da Inglaterra, o castelo de Alnwick aproveitou a fama do filme para receber turistas. A construção medieval, que serviu como a escola de Hogwarts em várias sequências do filme (como as cenas do jogo de quadribol), passou a oferecer aos visitantes simulações de aulas de magia e de voo em vassoura.

Em Londres, a suposta entrada para o Beco Diagonal, na Rua Charing Cross, passou a ser muito procurada por fãs dos personagens, assim como a estação de Kings Cross – onde Harry pega o trem para a escola de bruxos pela primeira vez. Obviamente, a plataforma 9 3/4 do longa não existe, mas mereceu uma homenagem com um muro de tijolos como a que aparece no filme e uma placa identificativa.

Nem sempre, entretanto, a publicidade dos filmes é positiva para o destino. Para muitos espectadores, o nome de "Cartagena de las Índias", na Colômbia, remete a uma cena de "Tudo por uma esmeralda", em que a personagem de Kathleen Turner tenta chegar à cidade a bordo de um ônibus precário, cheio de galinhas e porcos. Em 2010, o filme "Lope", de Andrucha Waddington, foi rejeitado na Espanha por retratar a Madri do século XVI como uma cidade imunda e perigosa.

De reputação duvidosa também é a indicação feita nos passeios de barco pelo Rio Negro, nos arredores de Manaus. Ninguém (ou quase ninguém) pode ter ido até ali com esse objetivo, mas é difícil não tirar uma foto quando o guia aponta para a entrada do igarapé onde foram filmadas cenas de "Anaconda". Pode não ser a melhor das referências, mas o que vale é a fantasia.

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