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Arte pela fresta


Por Raphaela Ramos

22/01/2012 às 07h00

Para o feitiço da arte, não há escudo ou antídoto. Ele se esgueira por frestas, janelas, lonas e cortinas, até alcançar os profissionais dos bastidores. Por lá, no mínimo, engenha mais um espectador. Às vezes, faz das suas vítimas novos artistas. Dercy Gonçalves, que recentemente teve a vida recontada pela minissérie global "Dercy de verdade", apaixonou-se pela atuação enquanto trabalhava em uma bilheteria de cinema. Da mesma forma, o pequeno Totó, do clássico "Cinema Paradiso", espiava os filmes ao lado do projecionista Alfredo, fato que o ajudou a se transformar em um grande cineasta.

O fazer artístico envolve o homem, e a bilheteira Imaculada Dias Lima sabe disso muito bem. Antes de se lançar na profissão, há 15 anos, ela nunca havia entrado em um teatro. Hoje, depois de trabalhar para incontáveis atores da cidade e de fora, não consegue deixar de acompanhar os espetáculos. "Impossível viver sem", confessa Imaculada, que começou no Pró-Música e seguiu para outras casas teatrais. Desde a estreia da Campanha de Popularização do Teatro e da Dança, em 2001, a bilheteira comanda o trailer de vendas. Tornou-se cada vez mais exigente. "Se não gosto da peça, não comento, por conta da minha posição. Além disso, sei que outro espectador pode gostar." Foi em uma das edições da campanha que ela se encantou pela dança. "Até penso em praticá-la. Quem sabe?", diz, deixando a resposta no ar.

Assim como Imaculada, porteiros de estabelecimentos culturais costumam mergulhar no universo da criação. Diante da TV, Ricardo Dantas, recepcionista do Museu de Arte Murilo Mendes (Mamm), orgulha-se ao identificar o nome de Cândido Portinari. Faz questão de relatar alguns detalhes sobre ele para a esposa. "Aprendi muito com as visitas guiadas e com o próprio público", conta. Passou a frequentar todos os museus locais depois de ingressar na instituição, há quatro anos. Antes, sequer havia visto um quadro de perto. Nos dias de folga, volta ao Mamm – onde divide o posto com Antônio da Conceição – para conferir melhor as obras e, claro, tirar fotos.

Alvan Silvério, porteiro do Forum da Cultura, também registra as exposições do lugar com sua câmera fotográfica. Para a tarefa, dedica algumas horas do almoço. Foi assim que começou a entender a história da cidade. "Sou de Recife (PE) e muito ligado à cultura de lá. Para perceber melhor Juiz de Fora, procuro conhecer suas atrações." Alvan, que atuou ainda na Casa de Cultura da UFJF, considera um golpe da sorte ser escalado para esses prédios. Embora já tivesse o hábito de ir a eventos artísticos, atesta que sua profissão intensificou interesse e conhecimentos.

 

Abaixo a cara de mau

Quando o profissional das coxias admira o artista em cena, a tietagem pode escapar. Certo? "Não temos nem tempo de pensar nisso", dispara Júlio Tadeu Paiva, segurança contratado pela Funalfa para alguns projetos, como o carnaval e o Corredor da Folia. Se não está usando seu terno preto, foge para a arquibancada e assiste aos desfiles das escolas locais. "Adoro." Quando assume seu papel, porém, não dispensa a concentração. "As pessoas estão despreocupadas, então, nós temos que nos preocupar", comenta, assegurando não fazer cara de mau.

Ricardo Dantas – acompanhado de seu inseparável rádio – também afirma estar sempre atento a qualquer movimentação estranha. Certa vez, flagrou visitantes brincado de pique-pega em uma das galerias do Mamm. Para não constranger os espectadores, fica distante, mas não os perde de vista. Por outro lado, procura atendê-los com simpatia. "Quero garantir que voltem. Gosto quando fica cheio." O sorriso no rosto de Imaculada Dias também costuma fazer efeito. "Sei que o sucesso do espetáculo começa comigo."

Mesmo com a função de permanecer desconfiado e depois de passar 12 horas em pé, Alvan Silvério não abre mão do bom humor – ainda que as circunstâncias sejam as mais estranhas. "Uma vez, um espectador apareceu bêbado. Com a conversa, vi que ele queria mesmo conhecer o Forum. Então, o levei para a visita guiada", relembra o porteiro, que aprecia observar a postura das pessoas entrando e saindo do centro cultural. "Elas chegam em silêncio, ansiosas, e vão embora encantadas, falando muito."

 

Os olhos de Gilberto Cunha e Marcos Debortoli não buscam outra direção, a não ser a do palco. Responsáveis pela iluminação e pelo som do Centro Cultural Bernardo Mascarenhas (CCBM), eles sabem que são parte do trabalho. Por conta disso, acabam se envolvendo com as propostas, mesmo com as que vêm de fora e são montadas em apenas um dia. "O legal é quando o artista reconhece isso e agradece pela nossa participação", menciona Cunha. Questionado sobre qualquer falha causada pelo interesse na cena, o técnico confessa que ela já ocorreu. "Mas é algo raro. Existe uma tensão que não nos deixa embarcar tanto na história ou no ritmo da música." Isso, enquanto o espetáculo acontece. Logo depois, o feitiço faz efeito. E aí, já era.