Ingoma lança primeira música autoral

Depois de 13 anos de atividade, grupo inicia trilha de registros independentes com música “La negra”


Por Cecília Itaborahy, estagiária sob supervisão de Wendell Guiducci

21/11/2021 às 07h00

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(Foto: Brenda Marques)

O Ingoma é feito por muitas mãos. Não só aquelas que tocam os tambores pelas ruas. Mas também as que levantam o grupo. As que produzem as oficinas. As que sobem ao palco para tocar. Fernando Augusto, Ana Souza, Priscila Marques, Virgínia Queiroz, Táscia Souza, Gabi Lacet, Geison Vargas, Adalberto Silva e Lucas Soares formam o grupo de apresentação. A partir de segunda-feira (22) vai ser possível ouví-los para além dos shows e cortejos. “La negra” será a primeira música autoral a ser lançada pelo grupo nas plataformas digitais.

“A gente usa a arte para englobar as finalidades que a gente quer fazer”, diz Lucas, coordenador do Ingoma. Ele explica que o trabalho é de pesquisa, sendo também um grupo artístico e, de certa forma, educacional, que recupera e universaliza o acesso à cultura popular mineira. Nesse caminhar de mais de 13 anos, o grupo foi se permitindo receber influências de muitos, para além dos mestres dos congados. A América Latina como um todo molda o Ingoma.

“La negra” fala sobre Mercedes Sosa. A melodia foi composta por Lucas. Ele conta que, de início, ela tinha marcas bem mineiras, mas com traços que chamou de andinos. Depois de pronta, ele mandou para Kadu Mauad, parceiro de muitas outras músicas. Kadu, com esses elementos, foi guiado até Mercedes Sosa.

Ingoma
(Foto: Brenda Marques/ Arte: Juliana Stanzani)

“La negra” é canto de levante

Lucas fala que o Ingoma já tem paralelos com Sosa, por ser latino-americana, mas, também, pelas questões sociais que ela, constantemente, aborda. Por isso lançá-la neste momento. Ela dizia que “não é possível fazer uma revolução sem cantar”. Como um todo, o grupo também acredita nisso. A música é um canto de levante: “Mas dentro da garganta a própria voz/ a voz que ecoou/num canto se levanta/ Que um povo se levante em todos nós/ ao som de um tambor/ de dentro da garganta”. Ela já era tocada nas apresentações. Mas gravar é um outro processo. Lucas também arranjou “La negra”. “Arranjar é como orquestrar. O que eu fiz no violão me determinou várias coisas. Eu fui imaginando a atmosfera e levei pro grupo. Com eles já foi um teste prático. Eu fui aprimorando nos ensaios até chegar à gravação.”

É inegável a referência aos reinados de Minas Gerais. Mas o lugar do Ingoma é outro. Aprendendo constantemente, indo aos cortejos nas outras cidades, o intuito, na verdade, é o alimento dessa cultura popular. A partir disso existe a digestão. Logo depois, o processo, de acordo com Lucas, é transpirar todas essas coisas. “A gente é um grupo artístico, com responsabilidades, mas com liberdade para criar. Em um universo de instrumentos, a gente vai selecionando o que faz sentido e dá mais liberdade.” Lançar a música é habitar um novo espaço que sempre foi percorrido, mas, agora, começa a ser registrado.