Visita guiada mostra a cidade que conta as histórias apagadas
“Nosso povo, nossa vila” é promovido pela Funalfa no Mês da Consciência Negra e circula por espaços físicos de memória


Dez pessoas, paradas no Parque Halfeld, formam um círculo quase perfeito. Ele só se desfaz quando um ou outro olha para a fachada do Paço Municipal de Juiz de Fora. Nele, no campo da visão do grupo, uma faixa está estendida com uma lista de pessoas negras que ajudaram a construir a história cultural, educacional e popular da cidade. Sob os olhares dos curiosos, que não entendiam o motivo dessa reunião, o historiador e integrante do Departamento de Memória e Patrimônio Cultural (DMPAC) da Funalfa Fabrício Fernandes começa a apresentar a atividade: “Hoje, vamos passear mais por memórias que por espaços físicos”. Começa, assim, o circuito cultural “Nosso povo, nossa vila”, promovido pelo DMPAC para o Mês da Consciência Negra.
O grupo sai do Parque Halfeld em direção à Avenida Getúlio Vargas. Um bando andando pelo Calçadão da cidade, às 15h de uma terça-feira pós-feriado, é o suficiente para que outros transeuntes comecem a interpelar qual é o motivo disso. Inesperadamente, ainda andando sobre esse espaço, uma das pessoas que integra o grupo pega um caderno com pauta e começa a anotar, ainda enquanto anda. Nesse momento, ainda tímidos, nenhum dos outros estabelecem contato entre si, além de um casal e uma dupla de amigas. A mulher do caderno, andando sozinha por enquanto, observa os outros prédios que não fazem parte do circuito sob a vista de um óculos escuro.
Olhos voltados para o que não foi registrado
Fabrício indica para parar em frente ao prédio do Museu do Crédito Real, na esquina da Rua Halfeld com a Avenida Getúlio Vargas. Essa parada o historiador nomeou como “Os promotores da Vila”. Ele explica que quem idealizou esse prédio foram Bernardo Mascarenhas e Batista de Oliveira. No entanto, assim como de costume no Brasil Império, um outro possível idealizador foi apagado dessa história. Mas ele tem nome: Barão de Guaraciaba, proprietário rural e banqueiro, que viveu entre 1826 e 1901.


Vez ou outra, essa mulher que tudo anota olha para o prédio. Olha nos olhos de Fabrício. Cara a cara com o papel. Até então, não sabia o som da sua voz, mas a letra já conhecia. O historiador começa a falar sobre resistência e a importância dos bares para além da diversão. Na parte histórica da cidade, comumente chamada de “parte baixa”, existia um bar com o nome “Elite”, no número 405. Hoje, o prédio continua nesse espaço, apesar de não ser mais um bar. Lá, Fabrício conta que era um lugar de militância e encontro, “muito mais que diversão”.


Neste mesmo momento, ele aponta também para um recorte geográfico que a própria rua produz, como uma fronteira entre os costumes e as pessoas. O motivo para ser chamada de “parte histórica” e não “parte baixa” é que, de acordo com ele, 80% dos patrimônios se concentram nesse território. O complexo ferroviário foi o ponto de partida para o início da cidade. Essa história acabou sendo esquecida ou ignorada com outros feitos que, ao mesmo tempo, excluem a história da população negra de Juiz de Fora. O próprio contexto da cidade dita transformações. Mas sem esse povo, não existiria essa vila.
Ninguém sabe, mas já foi e ainda é
Agora, o caminho é pela Getúlio. A voz da mulher começa a aparecer. Ela e Fabrício começam a perceber histórias em comum enquanto caminham para o próximo ponto. A mulher conta que faz parte do Laboratório de História Oral e Imagem/Afrikas e eles conhecem muitas pessoas em comum. Já quase 15h30, pessoas cortam o grupo, pedem licença para circular. Ela, agora, conversa sobre a Pequena África no Rio de Janeiro, que também tem visita guiada, com outra integrante do “bando”. Em outros momentos, faz questionamentos que aparecem ao olhar para outros pontos e ouvir o que Fabrício tem a dizer. Ela pergunta e, sempre, anota.
A próxima parada é no Largo 13 de Maio. Poucas pessoas sabem, mas a encruzilhada das ruas Getúlio Vargas, Batista de Oliveira e Marechal Deodoro leva esse nome, apesar de nenhuma indicação haver no local. Fabrício mesmo, por exemplo, só foi descobrir na nota do McDonalds. Ele ainda questiona: “Qual é o símbolo de não ter um símbolo?”. Enquanto fala o motivo de essa parada receber o nome de “Comemoração ou protesto?”, trabalhadores do mercado atrás divulgam a promoção. Entre gritos e barulho de trânsito, entende-se: o nome faz referência aos mitos que giram em torno da abolição da escravatura.


Ele conta que Juiz de Fora foi a primeira cidade a ter um monumento da Princesa Isabel. E problematiza o fato de várias ruas e lugares vangloriarem nomes questionáveis ao invés dos negros que lutaram pela liberdade. A Rua Floriano Peixoto, inclusive, um dia foi chamada de Rua da Liberdade. Nela também existia um outro bar importante para a militância do povo negro em Juiz de Fora, era o “Fogão”. Não se sabe em qual altura exatamente ele existia. As fotos antigas só registram seu interior que, contam, realmente era quente.


Encontros culturais são resistência também
“Resistimos! Formas de solidariedade/sociabilidade de nosso povo” é o nome do próximo ponto. Em frente ao Santa Cruz Shopping, Fabrício explica que na região da Rua Benjamin Constant começou a primeira feira livre da cidade, majoritariamente feita pelos escravos, que vendiam de tudo. Neste lugar onde o grupo parou, antigamente havia um jardim de infância. De lá, Fabrício destaca Dona Almerinda. Ele conta que ela, além de ser líder comunitária, era cantineira na escola e conseguia vagas para as crianças da periferia estudarem nesse lugar, totalmente central. Ali por perto, no Largo do Riachuelo, era onde o carnaval acontecia: manifestação cultural originária dos negros. O questionamento para o apagamento dessa origem é feito por outro tema pensado pelo Fabrício: “O samba, uma tentativa de apropriação cultural?”.
Descendo em direção ao clube Tupi, a mulher fala da importância desse tipo de atividade com o guia. Ela quer que mais desse tipo sejam feitas e, quando houver, quer ir prestigiar. Caminhando lentamente, todos os outros já falaram alguma coisa com ela. Além de perguntar, ela opina sobre as questões e os porquês dos apagamentos. E anota. Vez ou outra, fala sobre ser historiadora e ter alunos. O anotar já faz mais sentido.


Debaixo do Viaduto Arquiteto Helio Fádel Araújo, o grupo se reúne na sombra, em círculo mais uma vez – agora com espaço – e tece comentários sobre o grafite de Stain: plano de fundo da conversa. Ali, Fabrício fala da importância dos clubes na formação cultural da população. O Clube Turunas, por exemplo, é o primeiro clube de Minas Gerais. Hoje, ele se transformou em um estacionamento. Só nesse momento é que a mulher deixa de anotar para tirar uma foto, espantada.


Por perto, tem o Tupi e o Olímpico. Quem viveu na época em que os clubes ainda tinham muita adesão diz que o Tupi tinha resistência em aceitar pessoas negras. Por outro lado, o Olímpico recebeu constantemente. Do seu lado, o Bar Olodum, também importante na época, está abandonado, assim como o clube. O Tupi, por sua vez, vendeu grande parte do seu terreno para a construção de um prédio comercial.
Nessa exclusão das histórias, a discriminação também existe. “Ela está em todos os processos”, diz Fabrício. Além do samba, o funk recebeu o mesmo tipo de tratamento. Esses mesmos lugares promoviam bailes frequentados pela periferia. Na mesma rua do Olodum, do Olímpico e do Turunas existia o Sindicato Textil, “lugar para encontrar e fazer política”. Aos poucos, tudo isso foi sendo extinto, alterando a importância, o movimento e o sentido. As próprias ruas são outras, agora cheias de terra para as novas construções.


Passeio nas memórias
Até então, o grupo perambulava em um dos lados que o Rio Paraibuna demarca. Agora, é guiado para o outro lado, no Bairro Belmiro Braga. Fabrício explica que, nesse trajeto, visitaremos mais memórias que espaços físicos. “Nas origens, encontramos os fundamentos daquilo que hoje somos” é o nome das duas próximas paradas. Na Praça Negro Theóphilo, o historiador conta a história. Theóphilo foi um escravo que lutou contra a opressão. Ele fugiu, foi capturado tempos depois, brutalmente castigado. No dia seguinte, morreu. Poucas pessoas sabem dessa história. Fabrício questiona sobre a transformação do entendimento do que deve ser lembrado e o que deve ser esquecido, mesmo que sem propósito. Na praça, apenas uma placa sinaliza o lugar. Ela está destruída. Mal dá para ler o que ali está registrado. Na frente, outra placa marca que ali também é um dos pontos da Estrada Real. Intacta. Mesmo que uma placa não atenue todo o resto, o grupo como um todo percebe a importância da sinalização. Bater o olho, ver e reconhecer. Nesse caso, as diferenças dizem também.


A mulher pergunta quantos patrimônios imateriais de Juiz de Fora fazem parte da cultura do povo negro. Contando nos dedos, ele conclui que apenas um: o Batuque Afro-Brasileiro de Nelson Silva. Ela fica incrédula. Reconta, inclusive. Fabrício ainda pontua sobre quantas memórias vão sendo apagadas, datas não registradas e acontecimentos esquecidos. “Não é restrito. Nada disso tem divulgação.” Já no caminho, a mulher do caderno se reafirma como professora e diz que sempre pergunta aos alunos qual é a história da cidade. A história local não está nos livros didáticos, muito menos do povo negro. Como professora, ela quer reverter isso.
Já no Largo Rosa Cambinda tem uma placa. No alto. É preciso esforço para ler letras miúdas e tão distantes. Mas o grupo já conhece a história da escrava do comendador Henrique Halfeld, o qual Rosa enfrentou. Mas os espaços são outros. O Parque Halfeld, assim como a rua, ocupa a região central da cidade. Para Fabrício, o nome dela ser usado nesse lugar tem sentido, também, por ser porta de entrada para uma região renegada de Juiz de Fora. “Isso também conta história. É isso”, pontua a mulher. Fabrício completa que deve-se “colocar a verdade como ela merece”. Por ali, debaixo do ponto de ônibus, com os olhos entre a placa, a rua e a luz do sol, termina o trajeto.




Ela tem nome: Vanessa
Grande parte do grupo volta para onde tudo começou, no Paço Municipal, junto. Nesse momento que as conversas gerais começam. A mulher passa a ter nome: Vanessa Lopes. Ela conta que dá aula em um cursinho popular da cidade e faz mestrado em história na UFJF. Sua pesquisa é exatamente sobre a história contemporânea do povo negro de Juiz de Fora. Vanessa é de Três Rios e, quando veio para a cidade, achou interessante o movimento negro ser dominado por pessoas de cabelos brancos. Ela queria conhecer as histórias deles e, de certa forma, contar, porque, ainda hoje, elas permanecem nas memórias. Para saber como tudo começou, ela se inscreveu na visita guiada “Nosso povo, nossa vila”.










