‘Vlado se fez brasileiro na luta pela verdade’
Nascido em Tanque d’Arca, em Alagoas, a poucos quilômetros de Quebrangulo, terra natal de Graciliano Ramos, Audálio Dantas conquistou seu primeiro prêmio jornalístico após ter negada uma entrevista com João Guimarães Rosa. Era década de 1950, e o jovem profissional postou-se, então, ao lado do escritor, que lançava "Grande sertão: veredas", em São Paulo, e anotou a conversa de Rosa com seus leitores. Havia ali, uma reportagem. O mesmo olhar serviu-lhe para perceber a grandeza de uma moradora da favela do Canindé, na capital paulista. Carolina Maria de Jesus e seu diário se transformaram no livro "Quarto de despejo", fundamental para a literatura negra brasileira, organizado por Dantas.
Após somar diversos prêmios, passagens por publicações prestigiadas, como as revistas "O Cruzeiro", "Quatro Rodas", "Realidade", "Manchete" e "Nova", além de reunir um histórico de atuação sindical em prol dos jornalistas brasileiros, tendo sido eleito deputado federal em 1978, ele não parou. Ostentando cabelos alvos e mais de oito décadas de vida, Dantas decidiu contar a história de um colega que se tornou símbolo da luta de resistência à ditadura militar. Em "As duas guerras de Vlado Herzog" (Editora Civilização Brasileira), estão presentes suas influências literárias, paixão que sempre perseguiu e o motivou a entrevistar Guimarães Rosa. Mas o que salta aos olhos é a serenidade, expressa em sua voz, ao lidar com um episódio que deixou feridas profundas na história nacional.
Em entrevista por telefone à Tribuna, o vencedor do Prêmio Jabuti desse ano na categoria reportagem e eleito livro do ano de não ficção, fala sobre seu ofício e suas muitas guerras. Hoje, às 9h, ele ministra a palestra "Jornalismo e direitos humanos" no anfiteatro da Faculdade de Comunicação da UFJF. "O aspecto mais importante do livro é a narração dos dias de tensão, medo e terror que vivemos em outubro de 1975", conta, certo de que, para um jornalista, as lutas são infindáveis.
Tribuna – O que "As duas guerras de Vlado Herzog" traz de novo que os outros livros ainda não haviam mostrado?
Audálio Dantas – Não era minha preocupação apresentar novidades para o caso e sim reconstituir os momentos que presenciei naqueles dias. Ao pesquisar, buscando informações que estavam fragmentadas por aí, terminei encontrando fatos novos. Muita coisa que havia me esquecido, deixado de lado por não achar importante, ao escrever fui lembrando como se estivesse armazenado em um canto especial da memória. Ao encontrar documentos e fazer entrevistas, me deparei, por exemplo, com documentos do Serviço Nacional de Informação (SNI) que revelavam o fato de que eles também omitiam, ao mesmo tempo em que produziam montanhas de inverdades e coisas capciosas em relação ao que acontecia no país. Essa omissão é reveladora do que vivemos na época. Eu, que assumi o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo (SJSP), em maio de 1975, e estive diretamente envolvido no episódio da morte do Vlado e na operação de caça empreendida contra os jornalistas paulistas, sob o pretexto de que a imprensa estava infiltrada pelos comunistas, vi que o SNI omitiu tudo o que dizia respeito ao "Caso Herzog" naquele período. Eles fizeram a autocensura. Não há nada escrito sobre o episódio. Só depois do assassinato é que se tem um relatório sobre o caso, no qual eles afirmam a questão do suicídio e dizem que o Herzog e a TV Cultura eram cabeça de ponte para o plano de tomada das redações pelos comunistas. Também descobri em minha pesquisa que inicialmente o regime me seguia desde minha candidatura ao sindicato, dizendo que eu era apenas um joguete na mão dos comunistas que desejavam tomar o sindicato. Ao longo de vários papéis, o SNI afirmou, irresponsavelmente, que fui membro de seis ou sete partidos e organizações terroristas. Eles me colocaram no PC, no PCB, no Val-Palmares e por aí afora.
– Resgatar essa história era uma obrigação para você?
– Apesar da grandeza daquele momento, da reação que se teve contra a ditadura, muita gente registrou faltando com a verdade. Ao mesmo tempo em que eu tinha o dever de contar a história, tive bloqueios muito fortes devido à situação de angústia que vivi. Temia que isso me levasse a produzir um panfleto. Esse livro é o pagamento de uma dívida.
– A passagem do tempo em relação a esse episódio contribui para o resultado do livro?
– Em alguns momentos, dentro dos últimos dias, tenho meditado sobre isso e concluído que esse livro foi escrito no tempo certo. Se ele fosse escrito logo depois dos acontecimentos poderia, sim, ser influenciado pela emoção e pelo calor de tudo. Eu tinha, em muitos casos, fatos ocorridos em que eu guardava deles, apenas, raiva. Ao escrever, consegui, até, achar engraçado.
– Hoje já é aceito que Vladimir Herzog, na verdade, foi assassinado. Como você encara essa correção na história?
– Essa correção houve porque foi tomada por órgãos oficiais, ainda que tardiamente. Desde a primeira hora, eu e os companheiros do sindicato não aceitamos a versão do suicídio. Esse momento, quando a Comissão Nacional da Verdade recomenda a retificação do atestado de óbito do Vlado Herzog, é significativo. Essa não é uma vitória da família do Herzog ou dos que lutaram pela verdade nesses anos todos. É uma vitória de todos aqueles que têm pessoas na família que foram assassinadas e constam como suicidas, atropelados, mortos em confronto ou simplesmente desaparecidos. E a Comissão Nacional da Verdade veio tardiamente por que não houve, antes, por parte de todos os governos democráticos que vieram depois da queda da ditadura, a devida coragem de começar a discutir essa questão. Faltou coragem em tratar a questão dos documentos também. Como verifiquei no Arquivo Nacional, muitos foram subtraídos e já não existem.
– Ainda hoje você trabalha e viu a política ganhar nova cara. Um jornalista nunca se aposenta?
– Não. Ao escolher a profissão, o jornalista, aquele que tem verdadeira vocação, fica imbuído de um compromisso social e nunca mais deixa de se preocupar com a busca pela verdade. Continuo em uma redação. Sou diretor de uma revista. A gente não desiste.
– Na sua opinião, de que forma o jornalismo contribui, hoje, para avanços ou retrocessos dos direitos humanos?
– Desde que surgiu a possibilidade da ampliação da informação com o Gutenberg, o jornalismo tem um papel fundamental na discussão dos problemas, dos assuntos de interesse da sociedade. O jornal contribui historicamente para o avanço da democracia. Aqui no Brasil ele colabora para a democracia, mesmo com atitudes e comportamentos reprováveis, como foi o caso da maioria dos grande veículos, que apoiou o regime militar. Muitas vezes contrariamente aos interesses dos donos dos meios, os jornalistas aproveitaram brechas e falaram coisas que contribuíram para a queda do regime militar. A censura começou a sair da cabeça das pessoas nas redações – muitos não tinham censores, mas tinham medo e omitiam informações – a partir da morte do Vlado, que foi o primeiro a ser discutido nas páginas dos jornais. Hoje temos uma situação estranha. Muitas vezes se faz jornalismo de campanha e jornalismo partidário. Agora nesse caso das prisões dos envolvidos no mensalão, muitos jornais escrevem como se estivessem em um ato de vingança. Isso desmerece o papel da imprensa.
– Você acredita que o Vlado serve, ainda hoje, como um ícone para os jornalistas resistentes?
– Sem dúvida. Inclusive, ele foi incluído no rol de comunistas que deveriam ser investigados e presos, como foram vários deles, sem ser um ativista. Ele só foi um ativista no exercício da profissão dele. Acreditava, às vezes até com exagero, no papel da imprensa como instrumento no esclarecimento da opinião pública. Homem de cultura, um intelectual, ele se filiou ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) por achar que, naquele momento, havia ali um campo para discussão e para que se exercitasse o direito de a sociedade se manifestar. Ele foi para a TV Cultura com a certeza de que não deveria fazer proselitismo, mas fazer com que aquela televisão pública noticiasse as coisas. Costumo dizer que o Vlado se fez brasileiro, sendo iugoslavo judeu, nessa luta pela verdade da informação.
– Qual a importância de se resgatar histórias assim, de tanta dor, passadas décadas?
– O grande valor que conquistamos com a instituição da Comissão Nacional da Verdade é trazer de volta o debate sobre o período que esse país viveu e que muita gente, principalmente a nova geração, desconhece. Por exemplo, pouca gente sabe que antes do Vladimir Herzog foram mortos ou desaparecidos muitos jornalistas. Esses assassinatos, feitos em centenas, não podem ser esquecidos.









