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Da família para a cidade


Por RAPHAELA RAMOS

20/12/2011 às 07h00

Aos olhares externos, a cena era, no mínimo, inusitada. O que um piano de meia-cauda fazia sobre uma carroça pelas ruas da cidade? A lembrança, trazida por Hermínio de Sousa Santos, simboliza a primeira fase do Centro Cultural Pró-Música, fundado há 40 anos. No princípio, a iniciativa, que surgiu como uma associação, não possuía espaço para apresentações, tampouco instrumentos. Assim o piano cedido pela Igreja Metodista foi parar na tal carroça e chegou ao local do concerto. Alguns meses antes, o famoso pianista Arnaldo Estrella havia lançado a faísca do projeto, convocando sua aluna Maria Isabel de Sousa Santos a ampliar o público local. "Ele fez um espetáculo por aqui, e pouquíssimas pessoas foram conferir", justifica a diretora.

No dia 5 dezembro de 1971, a Banda Sinfônica do Corpo de Bombeiros Militar do Estado do Rio de Janeiro inaugurou, no Cine-Theatro Central, a proposta capitaneada pela família Sousa Santos. O trabalho, entretanto, tinha começado bem antes. "Percorremos a sociedade garimpando sócios", conta Hermínio. O objetivo era promover um concerto por mês, com os principais artistas brasileiros. A programação tinha direção artística de Arnaldo Estrella e acontecia em vários auditórios, como o da Sociedade de Medicina e o do Palace Hotel. "Ao longo de 40 anos, são raros os grandes nomes que não passaram pelo Pró-Música", avalia Maria Isabel, professora do Conservatório Estadual de Música Haidée França Americano por 42 anos. Na opinião do vice-presidente Júlio César de Souza Santos, a empreitada, além de formar plateia, pretendia oferecer oportunidade aos músicos locais.

Logo em seu primeiro ano, o Pró-Música importou um piano da Alemanha. O instrumento existe ainda hoje e está em ótimo estado. "Tivemos que hipotecar nosso apartamento. Essa história já faz parte do imaginário local", menciona Maria Isabel. Nessa segunda fase, os desafios foram crescendo. De tanto transportar o aparelho musical de uma lado para outro, a instituição decidiu fundar uma sede, em 1974. De acordo com Júlio César, nesse momento, o paradigma de uma apresentação mensal caiu por terra. "Passamos a ter receita, além de grupos estáveis", conta o economista e músico, que desde os 12 acompanha essa trajetória. "Minha primeira função foi cobrar os sócios e lembrá-los do dia dos espetáculos."

A cidade estranhou os 500 lugares da nova sala de concertos. O tempo, porém, mostrou que não se tratava de exagero. Segundo o vice-presidente, nos primeiros cinco anos, já existiam o coral, a orquestra de câmara e o conjunto de música antiga. Foi então que surgiu a segunda obsessão do Pró-música, como define Júlio César: a formação de músicos. "Nesse ponto, contamos muito com o incentivo do maestro Nelson Nilo Hack." Hoje, dez grupos estão ligados ao centro cultural.

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De acordo com Maria Isabel, foram trazidas metodologias inovadoras voltadas para os pequenos. Antes disso, conforme complementa ela, o violino era tido como uma opção careta e elitizada. "Quisemos desconstruir essa ideia por meio das crianças." Os primeiros mini-instrumentos encomendados de uma empresa nacional foram feitos a partir da fórmula de uma professora norte-americana, cedida pelo próprio Pró-Música. "Hoje, a fábrica vende para todos os cantos", comenta a diretora. Ela ressalta ainda a constante gratuidade das aulas de música e o empréstimo dos instrumentos aos alunos, por meio do projeto "Ação social através da música".

Ao lado de sua irmã Beatriz de Sousa Santos, Júlio César fundou o conjunto Pro Musica Antiqua, em 1978. Assim teve início a relação da instituição com a música antiga. Nesse mesmo ano, o espaço adquiriu um cravo, o primeiro de Juiz de Fora, assumido pela pianista Maria Isabel e já emprestado para o Palácio das Artes em BH. Em paralelo, Beatriz e Júlio aprofundaram-se na flauta doce. "Até então, as pessoas viam o instrumento como coisa de hippie", lembra ele. O pioneirismo desaguou no surgimento do Festival Internacional de Música Colonial Brasileira e Música Antiga, que, em 2012, terá sua 23ª edição.

Segundo Júlio César, o Pró-Música sempre valorizou a constância e o planejamento das ações, buscando um calendário fixo (quatro projetos municipais, dois concursos nacionais e dois festivais, um deles internacional), além do apoio de leis de incentivo. "A virtude está na continuidade", diz o vice-presidente. Entre os frutos dessa caminhada ininterrupta, estão 25 CDs, um DVD, um LP e nove publicações. Em 40 anos, quatro milhões de espectadores conferiram 3.800 eventos gratuitos.

Incontáveis talentos também foram exportados, como o violinista barroco Luis Otavio Santos, eleito uma das cem personalidades mais influentes de 2011 no Brasil pela "Revista Época". Os cinco filhos do casal Sousa Santos, aliás, sempre estiveram, de alguma forma, ligados à música e ao sonho dos pais. "Eles nos poluíram positivamente. Motivo para desistir, já houve, mas eles nunca desistem", elogia Júlio César.

Em 1997, o teatro da instituição passou por uma reforma, com auxílio do Ministério da Cultura. De acordo com Maria Isabel, o fato intensificou a integração da proposta com outras áreas artísticas. No caso das artes visuais, isso sempre aconteceu por meio da Galeria Renato de Almeida. A propósito, os editais para exposições no espaço estão abertos até 3 de fevereiro (www.promusica.org.br).

Outro momento de destaque aconteceu no dia 9 de junho de 2011, quando o Pró-Música passou a ser órgão suplementar da UFJF. Conforme atesta Maria Isabel, a parceria é uma maneira de eternizar o trabalho. "Em 2012, faremos a transição. Em seguida, tudo será conduzido pela universidade, com auxílio dos diretores." No próximo festival, deve ter retorno o Encontro de Musicologia, com perfil acadêmico.

Da carroça que chegou ao auditório com um piano emprestado, restam recordações e, talvez, alguma foto. Juiz de Fora não imaginava o trajeto que a cultura local faria depois disso. "Há muito, o Pró-Música não é de uma família. É de toda uma cidade", encerra Júlio.