Outras Ideias com Normanio Luiz Thiago

Normando Luiz, como ficou conhecido no rádio, gravou em CD 12 faixas que falam de amor (Leonardo Costa/17-09-2015)
Bem ao lado, mora o senhor de veludo na voz. A alguns metros de onde passei minha juventude e onde hoje mora minha avó, na Rua Cruzador Bahia, no Bairro Dom Bosco, reside o homem que, nos desencontros dos dias, nunca havia ouvido. Já havia cumprimentado, acenado, mas nunca escutado. Até que me chega às mãos “No tempo do rádio”, e conheço, então, uma voz bastante ouvida nos anos áureos do rádio em Juiz de Fora. Nascido Normanio Luiz Thiago, há 78 anos, tornou-se Normando ao decidir, num horário de almoço da Companhia Têxtil Bernardo Mascarenhas, inscrever-se para se apresentar no palco que embalava suas noites.
“Trabalhava na fábrica de tecidos e, à noite, ouvia os programas da PRB-3. Quando escutava os programas de calouros, pensava: se esses caras estão cantando, também posso. No meu horário de almoço, corria para a Rua São João, onde era a rádio, e me inscrevia para ser calouro. Cantei uma temporada até que eles acharam que eu já estava bem e seria, então, convidado”, conta Normando, na época, com apenas 14 anos. “Quando comecei, o apresentador José Céu Azul Soares falou que não ia me apresentar como Normanio. Ele disse: ‘Vou te chamar de Normando’, porque ele achava mais fácil, melhor.”
Revelação
Na adolescência, o homem de interpretação passional, indiscutivelmente influenciado por Orlando Silva, passou de calouro a convidado e, em seguida, contratado. Normando lembra-se do dia em que um radialista amigo lhe contou que ele integraria o casting da PRB-3. “Vim dando saltos, muito feliz”, sorri. “Cantei na Rádio Tiradentes, como convidado, e fui ao ‘Juventude no ar’ do Edson Pavel Bastos. O Céu Azul Soares tinha dois programas, um na quarta, que chamava ‘A cidade se diverte’, com um carrasco mascarado pegando quem errasse, e outro no sábado. Quando ele foi embora para a Rádio Inconfidência, em Belo Horizonte, convidou uma turma daqui, e eu fui como a revelação masculina”, recorda-se. “Como era programa de auditório, a gente era visto por muitas pessoas. A rádio chegou a ter programas ao vivo de segunda a segunda, com a plateia sempre cheia”, diz. Ainda que fosse reconhecido nas ruas, Normando nunca conseguiu ter no microfone seu único ganha pão. “Meu último serviço foi como segurança da Imbel, mas já trabalhei na Fábrica São Vicente e como fiandeiro na Ferreira Guimarães, onde fiquei por 14 anos. Depois me tornei segurança.”
Família, a raiz
Com temas de amor na ponta da língua, Normando cantava com orquestra, sempre sorrindo, como ainda hoje faz. “Sou um cantor mais romântico. Samba tipo carnaval nunca fui muito de cantar, mas topo todos os ritmos. Naquele tempo, um cantor do Rio chamado Roberto Silva falava do samba sincopado, que não é nem muito agressivo nem muito lento. É um samba meio termo”, comenta. A carreira ascendente, porém, exigiu-lhe escolhas. “Naquela época, éramos muito mais ligados à família. A ocasião em que tive um pouquinho mais de oportunidade, quando fui a São Paulo e comecei a me entrosar, minha irmã adoeceu e, ao falecer, retornei e nunca mais saí daqui”, conta o pai de seis filhos, com sete netos e dois bisnetos, frutos de um casamento que no último sábado completou cinco décadas (o romantismo, de fato, sempre esteve na voz e na casa). Filho de um auxiliar de enfermagem do Hospital Militar e de uma dona de casa, Normando escolheu permanecer na cidade, na casa onde nasceu (construída em 1927, hoje ela encontra-se no meio do quintal, atrás da residência que ele mesmo construiu para sua família), ao lado da mina que matou a sede de todos os seus.
No tempo do CD
Chamado pelo radialista Céu Azul Soares como o “cantor da voz de veludo”, Normando viu seu espaço diminuir nos anos 1960, com o encerramento das programações ao vivo e a extinção dos auditórios das rádios. Mas nunca parou de cantar. “Fui cantar em bares, e, às vezes, ganhava um trocadinho. Sou um dos únicos da cidade que conseguiram a comprovação, em carteira, do tempo em que fui contratado pela PRB-3. Ganhei mais de quatro anos na carteira”, orgulha-se ele. Num estúdio, entrou apenas em 1982, para gravar uma faixa de uma coletânea da Prefeitura sobre a canção popular de Juiz de Fora. Do rádio para o CD, Normando concluiu um sonho antigo, ao tornar registro um repertório (com composições de Alfredo Toschi, Nilton Cocada, Felisberto Alonso, dentre outros) que tomava as casas da cidade nos idos da década de 1950. Financiado pela Lei Murilo Mendes de incentivo à cultura e produzido e dirigido por Márcio Gomes, “No tempo do rádio” é mais que uma reverência à memória. É a prova concreta de um passado que, de tão robusto, permanece vigoroso no presente, como a voz e o sorriso de Normando.









