André Pavam transforma Miss Brasil Gay em concurso profissional, com investimentos a partir de R$ 50 mil por candidata
Diretor artístico do concurso compartilha bastidores e conta processo para fazer com que certame chegasse ao patamar que está em seus 50 anos

Quando André Pavam assumiu a direção artística do Miss Brasil Gay, a missão era dar continuidade ao legado de Chiquinho Mota e manter o coração do concurso pulsando. Foi isso que o amigo que o escolheu como sucessor viu como capacidade nele. Ao assumir a gestão, percebeu que era preciso revolucionar o trabalho que estava sendo feito: em 2007, implementou um regulamento para o concurso, registrado em cartório, além de uma setorização na organização do evento.
No mesmo ano em que o concurso chegou ao patamar de patrimônio imaterial de Juiz de Fora, foi esse processo que o fez se profissionalizar como nunca. E, juntamente com isso, as misses também se tornaram cada vez mais preparadas: os investimentos para participar do concurso aumentaram, e hoje incluem procedimentos estéticos, mentorias e a escolha dos melhores estilistas, entre muitos outros gastos — em valores que começam em R$ 50 mil por candidata, quando chegam à cidade, após meses de expectativa. Para o cabeleireiro, o trabalho acontece o ano inteiro.
Em agosto, o WhatsApp de André não para por um só minuto. São chamadas para participar de entrevistas, correria dos bastidores, fechamento do cronograma e, além disso, o atendimento normal em seu salão. Ele, que aos 63 anos já acompanha o concurso nos bastidores por mais da metade da vida, já se acostumou com a rotina, mas ainda se impressiona com o resultado.
“Com 30 anos de estrada, eu ainda me surpreendo. Vejo aquele menino na passarela e no dia seguinte me surpreendo com aquela mulher linda. Você esquece que são homens”, conta. Quando o criador do concurso, Chiquinho Mota, adoeceu e precisou se afastar do concurso, e ele assumiu a direção artística, a realidade era diferente: a profissionalização foi essencial para que o concurso alcançasse outro nível.
Além disso, nos últimos anos, o concurso passou a valorizar a oratória. Isso trouxe outra demanda para as participantes: elas passaram a procurar profissionais para cursos de oratória e até psicólogos para ficarem mais confiantes no palco. Em 2025, por exemplo, a coroada Jade Hwskaier conta que teve como diferencial já ter trabalhado diretamente com o público, pois já foi hostess e DJ, mas mesmo assim fez investimentos extras nesse setor.
Ela, que também já tinha participado do concurso uma vez antes de ganhar, indica que as candidatas precisam ser financeiramente independentes para participar do processo. “Fazer aulas de oratória, de passarela e postura também são importantes. Ser engajada com as nossas causas é fundamental”, diz. Mas também considera que há sorte nesse processo. “Há algo que nós, do mundo dos concursos, sempre falamos: ‘No dia a estrela da pessoa tem que brilhar’. Já vimos muitas favoritas ao título em diversos outros concursos não se tornarem a ganhadora da noite por falta desse ‘brilho’”, diz.
Um homem dos bastidores

Com todo esse investimento e a vontade de ganhar com que as candidatas chegam, os bastidores nem sempre são fáceis. E o trabalho também não. Inclusive, há muito que as pessoas nem imaginam que acontece. André conta: “Eu converso com todas as misses, não só as eleitas, mas as candidatas que têm pretensão de chegar a Juiz de Fora. Essa é a minha função como coordenador nacional”.
Ele não só procura os talentos, mas também aconselha as candidatas sobre o melhor momento para voltarem ao concurso, já que só podem participar três vezes. Muitas vezes, explica que aconselha a “guardar a boneca” para outro ano e voltar mais preparada para representar outro estado, ou apenas assistir ao concurso para entender melhor os processos.
Para trabalhar nos bastidores, ele conta que é mesmo preciso estar por vezes invisível. Inclusive, durante as edições do concurso, conta que costuma usar calça jeans e blusa preta, ao contrário do amigo, que ia caracterizado como a personagem Mademoiselle Debret de Le Blanc. “Este ano, até vou estar com uma roupa mais bonitinha, porque vai ter um momento que vou estar no palco, já que são 50 anos. Mas minha função é fazer a engrenagem funcionar, não estou ali pra aparecer”, diz. Alguns amigos até o comparam com o Boninho, ex-diretor criativo do Big Brother Brasil, “um cabeça de bacalhau” que ninguém vê, mas está ali.
Quando foi escolhido por Chiquinho Mota para apresentar o concurso, André conta que tinha por volta dos 20 anos. Hoje, atribui à “ousadia” do amigo aquela aposta em um menino que não tinha experiência para dar continuidade ao legado. “Eu tento fazer isso com os outros também. Este ano tô trazendo um artista chamado Italo Saturnino, do interior de São Paulo, que nunca tinha andado de avião antes. E o Miss Gay pode abrir essas portas, porque esse palco é icônico”, diz.
Continuidade do legado

André também conta que os amigos ficam impressionados como ele é “cascudo” para enfrentar os problemas que muitas vezes surgem nos bastidores do concurso: sejam candidatas insatisfeitas com o resultado (como vê que acontece em todo concurso de beleza), sejam as dificuldades financeiras que persistem para realizar o concurso. Mas ele afirma que aprendeu com o pai ter uma postura firme e moral inabalável diante das dificuldades. Isso, inclusive, foi fundamental desde sua infância, como um homem gay. “Na minha adolescência, comecei a jogar voleibol e era ovacionado pelas pessoas me chamando de ‘bicha’. O que as pessoas chamam de bullying hoje, que é real, eu nunca senti. Porque em casa tinha o apoio dos meus pais”, conta.
Na época, diz que seu pai tinha conversas muito francas com ele. “Meu pai falava comigo: ‘Tem homens que gostam de morenas ou de loiras, gordas ou magras, altas ou baixas, e tem homens que gostam de homens’. Ele respeitava a gente”, conta. Em uma família de oito filhos, são três irmãos gays assumidos. E hoje, reconhecido na cidade pelo seu trabalho tanto no concurso quanto como cabelereiro, atribui a esse tipo de postura o orgulho que o evento também inspira para outras pessoas LGBTQIA+. O que começa dentro de si mesmo, também leva para os outros: “A gente ensina mais pelo exemplo do que por falar. Falar é importante, passamos mensagens.(…) Hoje, já procuro em outros o que o Chiquinho viu em mim. Quero um futuro para o concurso”.









