Espetáculo juiz-forano ‘Café com leite’ recebe indicações a prêmio de teatro nacional
Produção da Trupe Qualquer foi indicada nas categorias de ‘Melhor elenco’ e ‘Melhores canções originais’

O espetáculo infantojuvenil “Café com leite” recebeu indicações em duas categorias do Prêmio Centro Brasileiro de Teatro para a Infância e Juventude (CBTIJ), de destaque nacional. A premiação reconheceu o trabalho realizado pela Trupe Qualquer no que diz respeito ao elenco e às canções originais utilizadas na apresentação, levando o trabalho produzido em Juiz de Fora para o centro das artes cênicas brasileiras. A produção dirigida por Rafael Coutinho tem como premissa imaginar o que acontece quando uma criança decide ser “café com leite” na vida real, e teve inspirações shakespearianas para a criação. O reconhecimento, para o diretor, destaca o “modo de fazer artesanal” do espetáculo e a dramaturgia da brincadeira utilizada para preparar os atores.

Desde 2023, o espetáculo “caiu na estrada” e passou por diferentes cidades brasileiras — mas Rafael Coutinho não imaginava que poderiam receber essas indicações. “Apesar de termos feito uma quantidade de apresentações que nos credenciava para o prêmio, o mercado no RJ e em SP dos espetáculos infantis envolve muito financiamento e circuitos específicos”, conta. O prêmio é realizado pela instituição que representa o Brasil na Associação Internacional de Teatro para a Infância e Juventude, e tem chancela global no teatro para infâncias, validando espetáculos com padrões técnicos e artísticos internacionais.
Mas a produção já era especial para ele por outros motivos: foi o que fez nascer a companhia Trupe Qualquer, no momento de retorno das atividades presenciais após a pandemia de Covid-19 e contando com a demanda que ele teve de trabalhar com a educação. “Eu notei essa lacuna que tinha de muitas crianças e adolescentes que nunca tinham ido ao teatro por conta do isolamento, e que estavam vivendo uma vida em ambientes enclausurados que contrastava muito com a minha infância”, relembra. Também foi assim que percebeu que muitas crianças eram tão ou mais atarefadas que os adultos, e que tinham suas infâncias tratadas como um “cursinho de vida adulta”. Para a criação da peça, aproveitou de elementos de Macbeth, peça celebrada de Shakespeare, mas também optou, junto com Jean Cavallieri (responsável pela trilha sonora), por adotar elementos da viola mineira e da batalha de rima para a criação.
A simplicidade do espetáculo, em termos de produção, fez a diferença para que chegasse a mais pessoas: “É um espetáculo que cabe dentro de uma mala, e isso proporcionou que a gente rodasse bastante. Levamos apenas os instrumentos e brinquedos que usamos”. Outra qualidade, como percebe, é justamente preencher uma lacuna de referências nas produções voltadas para o público juvenil, de uma forma que fosse uma peça que pudesse ser “assistida em camadas” por toda a família. “Às vezes tem adultos que assistem e dizem: ‘tem certeza que é para criança?’. E a criança super se divertiu. Mas eu fico com a impressão que o adulto que pergunta isso é porque algo nele questiona como pode algo que uma criança também gosta ter falado à própria subjetividade”, reflete. Isso, em sua percepção, é tanto o desafio quanto a possibilidade enriquecedora de espetáculos assim.
Feito de forma artesanal
Depois de ter passado por cidades como Belo Horizonte, São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília, o diretor também entendeu mais sobre como o teatro voltado para as infâncias é feito e o que “Café com leite” tem de diferente. “Não dá para competir com a máquina de marketing dos grandes centros. Então ficamos muito felizes, principalmente por estarmos nessas categorias que revelam muito do que o espetáculo é, que é um espetáculo feito com muito cuidado em cada detalhe, e feito para chegar ao público como uma grande brincadeira que fica na memória, que as músicas são capazes de transmitir”, diz.
Também por isso, ele entende que o reconhecimento é muito importante para que o público da cidade também reconheça a qualidade desse tipo de produção “feita de forma artesanal e autoral”. “Fizemos o espetáculo com o envolvimento de profissionais da educação, da escrita e da música. E que têm muita coisa para dialogar com o público de agora”, diz ele, argumentando que muito do que ganha destaque voltado para esse público é a recriação de grandes espetáculos ou mesmo de filmes. E que não precisa sempre ser assim: “Temos um teatro pulsante, que roda e se destaca, mas que na cidade é difícil de captar essa atenção”.
Dramaturgia da brincadeira e participação do público

Sobre o que fez o espetáculo se destacar, ele entende que essas duas categorias que receberam indicações foram de aspectos em relação aos quais a produção teve cuidados especiais. No que diz respeito ao elenco, por exemplo, eles adotaram a “dramaturgia da brincadeira”. “A gente brincava e depois revisitava a brincadeira que a gente fez captando a história que surgia dali. Para se brincar, é preciso muita sintonia, estar jogando junto e dentro. Isso trouxe uma sintonia e uma sinergia para o elenco. Esse jogo está presente na cena”, conta. Já na trilha sonora, entende que os arranjos que traziam a participação do público também deixaram o espetáculo mais interativo e fizeram com que tudo ficasse na cabeça do público depois.
Coutinho também entende que a grande mensagem da peça é uma conciliação entre a vida adulta e a infância, algo que urge na vida moderna. “A vida real é uma brincadeira na qual você não pode ser café com leite”, destaca. Por tratar desse aspecto e da preservação dessa infância única, também acredita que a temática tenha chamado a atenção do prêmio.
O resultado dos vencedores será em 29 de abril, no teatro da Eco Villa Ri Happy, no Rio de Janeiro.