‘Lavô, tá novo’
Do outro lado da linha, Digão atende a reportagem como se estivesse aguardando alguém conhecido. "É que o Raimundos, hoje, está renovado. Cheio de energia e vontade de tocar para vocês", dispara o vocalista e guitarrista, intensificando a proximidade. "Gostamos muito de fazer o que fazemos em cima do palco, onde somos muito unidos", continua a divagar o músico, tudo para demonstrar o quanto, depois de 20 anos, a banda brasiliense quer continuar na ativa.
Embora o segundo item da tríade sexo, drogas e rock and roll já não faça tanto sentido (segundo o músico) na rotina de Digão, Canisso (baixo), Caio (bateria) e Marquim (guitarra), os juiz-foranos podem aguardar os conhecidos riffs e solos incendiários da trupe que parece conservar rock na veia o suficiente para manter antigos fãs e conquistar novos. Ainda que cercados por um mercado fonográfico ditado, sobretudo, pelo novo, os veteranos aportam no Cultural amanhã, trazendo a voracidade noventista do hardcore na bagagem.
Última aquisição do grupo em substituição a Fred, o baterista Caio, que também atua como dentista na Capital federal, assegura a versatilidade do Raimundos, que, ao contrário do que muitos ainda possam pensar, nunca se resumiu à imagem de um único integrante. "O Marquim está conosco desde 2001 e trouxe novos elementos ao processo criativo e à execução das músicas. O mestre dos baixos, Canisso, voltou após cinco anos afastado para resgatar a sonoridade original e dar o gás que faltava para colocar o Raimundos onde ele merece. E, por fim, convidamos o Caio. Baterista da cena underground de Brasília, com as bandas Deceivers e Sapatos Bicolores, ele entrou com a obrigação de carregar as baquetas e manter o peso no som, sem perder a originalidade. Conseguiu e ainda conquistou os fãs veteranos. Uma missão difícil que ele tirou de letra", elogia o frontmam Digão, antes de detalhar seu processo de composição. "Só faço o som que eu gosto, sempre nessa onda meio ‘old school’", ele diz. "Ainda ouço o que ouvia quando moleque", completa o músico, referindo-se a formações como Ramones, Anthrax, Metallica, Pantera e a última – porém não menos importante – influência, System of a Down. "Os caras (da System) têm uma levada que mistura ritmos diversos com metal, como faz o Raimundos", compara.
Mas se não pode faltar peso e velocidade na performance, Digão tem a receita para as futuras gerações do rock. "Temos que cantar o que a gente vive. Compor o que acontece. Não dá para inventar." Outro quesito nota máxima da banda são as letras repletas de sátiras e ironia. "Estamos sempre nos divertindo, e acredito que isso deverá ser mantido, inclusive, em um próximo disco, quem sabe todo de inéditas", anuncia Digão, sem detalhar qual novidade emplacará em 2012. "Pode ser um CD ou um single, o negócio é ir devagar, é preciso ter cautela."
Youtube, Facebook, Twitter etc.
Caminhos para estar em contato com o mundo não faltam. Plugados nas novidades dessas ferramentas midiáticas, os integrantes do Raimundos – todos – mantêm as redes sociais atualizadas, disponibilizando conteúdo de trabalho e bastidores, como o podcast encontrado no site oficial. Uma espécie de reality show, cenas de viagens dos músicos antes, durante e após as gravações do DVD "Roda viva" podem ser acompanhadas. "Acabou que ficou legal essa ideia, principalmente porque, com uma câmera na mão, falamos as besteiras que gostamos, sem roteiro", resume Digão.
No dia em que anunciaram o show em Juiz de Fora, por um acaso, cinco comentários pipocaram na página do grupo. Até um fã menor de idade teria elogiado a iniciativa, mas rechaçado a censura por não poder conferir a apresentação dos ídolos na cidade (exceto acompanhado dos pais).
O som pesado e malicioso é uma disciplina importante para quem está começando na escola do rock. Para os jovens da década de 1990, os Raimundos serviram de influência. O motivo? Um deles é a busca pela independência acima de qualquer coisa. "Nenhuma rádio toca nosso som. Não entendo o porquê de não veicularem nas rádios músicas ao vivo de rock. Mas eu não faço parte disso. Definitivamente, o mainstream brasileiro hoje me causa vergonha", polemiza o vocalista, indagando: "Se o rock é atitude, onde está a arte pela arte?"
Digão reconhece que tem gente nova fazendo música de qualidade, mas sempre faz questão de remontar o que viveu no início da carreira como artista. "Vi todas aquelas bandas dos anos 1980 tocando. Testemunhei uma (performance) do Legião Urbana em uma chácara, animando o aniversário de uma amiga. Era 1984 e acompanhei isso de perto, assim como outras formações musicais da capital", afirma. A vontade e certeza do que ele queria fazer pelo resto da vida vieram aos 10 anos. Ele conta que estava assistindo a um videoclipe do Iron Maiden e resolveu que queria fazer daquele jeito, da mesma forma. O tempo passou, Digão, hoje, toca bateria, baixo e guitarra, além do violão na hora de criar. Mas ao contrário de Steve Harris (baixista e "dono" do Iron Maiden), o músico brasileiro sempre fala de mulheres em suas composições. "É um assunto que faz parte do rock", arremata.
No final de 2010, o lançamento virtual do single intitulado "Jaws", composto por Digão em parceria com Denis Porto, reacendeu a chama da antiga e profícua amizade entre ambos. Produtor musical e executivo do DVD "Roda viva", Porto foi "um reforço e tanto nesta fase comemorativa dos Raimundos". "O cara é meu irmão, sócio da banda no escritório. Somos parceiros, confidentes", atesta Digão. O resultado da cumplicidade veio em pouco mais de uma semana, quando "Jaws" foi baixada 40 mil vezes, segundo o guitarrista, sem contar o videoclipe, campeão de comentários e acessos no site da Multishow. "Era a grande novidade. Bateu na veia da galera, e obtivemos diferentes retornos, como ‘cara, essa é a música que eu gosto do Raimundos’." Ultrapassando a marca de 20 mil cópias vendidas, "Roda viva" é um presente para os fãs.
Sobre as possíveis marcas deixadas pela saída do ex-líder da banda Rodolfo Abrantes – hoje evangélico membro da Igreja Bola de Neve -, Digão, em tom amistoso, revela que o grupo se mantém de portas abertas. A despeito de qualquer entrevero de bastidores, o atual vocalista garante que teria tomado todos os cuidados necessários para salvaguardar os direitos autorais do antigo parceiro. "Pagamos a parte dele. Agora é deixar rolar."
Lançada em maio de 2011, primeiramente em Porto Alegre – "No Sul, o pessoal gosta bastante de rock", justifica Digão -, a nova turnê dos Raimundos chegou a grandes festivais, como o SWU (em novembro) e o Planeta Atlântida (há uma semana, em Santa Catarina), trazendo aos brasilienses o desafio de se adaptar ao gosto eclético das massas. "Tudo tem um preço. Tem que tomar cuidado para tocar o que todos querem curtir, afinal, o tempo é curto e há muita história para contar", conclui o músico, informando ainda a participação do grupo na versão do Planeta Atlântida no Balneário de Atlântida (RS), no próximo dia 3. Pelo visto, se alguém chegou a pensar que o fim esteve próximo para os Raimundos, eles estão aí para provar o contrário.
RAIMUNDOS
Neste sábado, às 23h
Cultural
(Av. Deusdedit Salgado 3.955)
32 3231-3388
Abertura e fechamento com Tráfico de Rock








