Entrevista exclusiva: grafiteira juiz-forana Pekena Lumen é premiada em edital de trajetórias artísticas

Artista visual Fernanda Toledo, conhecida como Pekena Lumen, investe na área desde os seus 16 anos


Por Mafê Braga*

19/10/2025 às 07h00

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Artista vê o grafite e o hip-hop como instrumentos de mudança social (Foto: Arquivo Pessoal)

Fernanda Toledo, conhecida como Pekena Lumen, venceu edital aberto pela Secretaria de Estado de Cultura e Turismo (Secult-MG), dentro da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB). A ganhadora, que atua no grafite desde os 16 anos, foi selecionada na categoria “Raízes de Minas: Premiação às Trajetórias Artísticas Culturais e Tradicionais”. Ela foi reconhecida por seu percurso e trabalho como agente cultural na cidade, fazendo do grafite um veículo para a promoção de manifestações culturais populares e tradicionais mineiras. Os critérios de avaliação foram tempo de caminhada artística, comprovações materiais através de reportagens, ações sociais e a relevância para a comunidade através da inserção nos territórios ao longo da trajetória.

Tribuna: Como foi receber a notícia de que você foi premiada no edital da Secult-MG, dentro da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), na categoria Raízes de Minas?

Fernanda Toledo: Receber essa notícia foi muito bom, por vários motivos. Um motivo é, obviamente, o fato de ter uma premiação envolvida. Então, é um edital que envolve uma premiação financeira, e isso ajuda muito a gente como artista, porque, dentro da nossa caminhada, muitas vezes a gente gasta mais do que ganha, e nós trabalhamos muito em prol da cultura, no meu caso, do grafite e da cultura hip-hop. 

O que esse reconhecimento representa na sua trajetória como artista visual e agente cultural?

É muito bom a gente ter esse reconhecimento, porque é uma espécie de validação. Você vê sua caminhada toda sendo validada por um órgão, por um edital, que necessita de comprovações, então tem um foco muito grande na sua trajetória mesmo, no que você já fez. Eu já fiz muito sem esperar coisas em troca. Já dei muitas oficinas de graça, fiz muitos grafites gastando dinheiro do meu próprio bolso, eu já fui até em outros estados, com a pessoa dando somente as tintas. Eu não preciso disso pra me entender como artista, mas é legal se sentir valorizado. Além disso, os agentes da cultura hip-hop, fazem ela acontecer por conta das pessoas. Então, tem um amor muito grande nisso, muita gente faz evento de graça, colocando uma galera e desenvolvendo muitas habilidades artísticas de outras pessoas, porque você acredita que é um movimento que tem que acontecer e tem que continuar acontecendo. 

O grafite é sua principal linguagem. Como ele se tornou um veículo para promover manifestações culturais populares e tradicionais?

O grafite se tornou a minha principal linguagem, porque eu comecei na dança de rua, tive uma breve passagem pelo break dance, mas o grafite foi o que realmente fez eu me apaixonar e dedicar mais tempo dentro da cultura hip-hop. O grafite, a princípio, não era essa expressão de algo para mudança social, já que eu comecei como diversão ali na minha adolescência, porque eu queria achar uma válvula de escape para os meus problemas, para as minhas tristezas, e ele se tornou esse lugar de expressão rebelde. Aí, a cultura hip-hop me trouxe muito conhecimento sobre o mundo, de que eu faço parte de um mundo desigual, em que as pessoas são testadas o tempo todo. Foi a partir disso que eu trouxe esse viés, depois de uns seis anos fazendo o grafite, levando na brincadeira, eu comecei realmente a pensar nessa parte social, a dar aula, a fazer oficina… Eu acho que o grafite é uma expressão extremamente popular e democrática, porque uma vez que você a coloca na rua, você faz com que as pessoas tenham contato com isso. Independente da forma que ele está na rua, ele vai causar alguma coisa nas pessoas, mesmo que seja um incômodo ou estranhamento. 

Que referências da cultura mineira ou das tradições locais mais influenciam o seu trabalho?

Eu trago muitas referências daqui da região. Nos últimos trabalhos que eu tive, principalmente ligados à Prefeitura. Eu parei para pensar sobre as questões da cultura mineira, da cultura brasileira. Então, eu passei a trazer mais referências também por conta disso, mas por viver aqui em Juiz de Fora, numa cidade que é cercada de mata. Eu tenho um elemento que hoje em dia eu faço muito, eu gosto de representar a onça, porque é um felino muito bonito, é muito forte, e também porque a cidade tem uma história com o animal, e eu achava isso muito divertido e interessante. Eu tenho muita relação com a natureza, mas ao mesmo tempo eu sou muito ligada ao urbano por conta do grafite, então tento equilibrar esses lados. Eu gosto também que a onça tem muito contato com a água e ela traz uma profundidade, a própria representação imagética mesmo é muito bonita. Eu acho que Minas Gerais é muito rica, muito incrível, tem diversas partes que são muito ricas culturalmente pra gente se inspirar.

Seu percurso artístico também envolve ações sociais. Que experiências ou projetos você destacaria como mais marcantes nessa relação com a comunidade?

O meu percurso artístico realmente envolve muita ação social. Nesse sentido, o hip-hop traz essa consciência social de quem você é, você consegue ver outras camadas, ele te põe para pensar que existem as questões raciais, as questões de classe que perpassam os problemas da nossa sociedade, por exemplo. A partir disso, você começa a entender o que pode fazer através da arte para atingir as pessoas. Dessa maneira, o hip-hop e o grafite estão muito conectados às escolas públicas e de periferia. Assim, eu fui construindo o meu currículo para poder, por exemplo, ser contratada para dar aula no projeto “Gente em Primeiro Lugar” a partir de 2012. Eu dei aula lá por muitos anos. Foi onde eu tive também uma formação pedagógica muito importante, um momento que me formou também como ser humano. 

Como o território, especialmente Juiz de Fora e outras cidades onde atua, influencia sua criação e sua presença como artista?

Eu ressignifico muito a minha cidade. Eu já pensei em sair de Juiz de Fora inúmeras vezes, porque bons artistas deixam a cidade e os que acabam ficando sofrem muito para encontrar o seu caminho. Apesar disso, Juiz de Fora tem sido muito gentil comigo ultimamente. Eu tenho conseguido viver, sobreviver, trabalhar, ser reconhecida, valorizada. Eu sou uma pessoa que ama viajar e aí, eu tento ressignificar a cidade enquanto estou aqui, mas ao mesmo tempo eu busco outros locais para inspiração. Eu busco uma característica muito única daquele ambiente, daquela região e a incorporo. Mas, sem dúvida, Juiz de Fora é a minha inspiração principal.

Você sente que a presença feminina no grafite tem ganhado mais visibilidade e respeito nos últimos anos?

Eu sinto que a gente tem muito mais respeito hoje, mais aceitação. Eu acho que eu demorei a entender como é que funcionava o machismo dentro da cultura do grafite. É uma coisa muito mais intrínseca, muito mais difícil, às vezes, até de perceber. Eu tive que criar meu espaço, eu tive que criar um respeito para, assim, começar a ser mais agregada. Eu fiz um primeiro evento de grafite feminino aqui na cidade, justamente para se criar um espaço mais confortável para as meninas. Porque, muitas vezes, por mais que os ‘caras’ estejam ali incentivando, tem aquela barreira de estar ali com vários homens, que, às vezes, já tem uma experiência vasta, e você fica com vergonha, porque você está começando agora. (…) Mas, assim, de uma forma geral, o grafite, hoje em dia, aceita muito mais as mulheres, tem mais eventos direcionados e há mais espaço para as meninas, apesar de ainda não ser satisfatório.

Quais são seus próximos passos depois dessa conquista e quais caminhos você quer seguir na arte e na cultura?

A premiação me deu um gás muito grande. Uma parte do valor da premiação eu já quero separar para investir em fazer mais grafite. A minha ideia também é continuar fazendo eventos, promover o grafite feminino, promover a cultura. Eu amo dar oficina e se eu ‘tiver’ com agenda, eu vou dar oficina, mesmo que de graça, porque eu amo fazer isso. As vezes a gente fica se sentindo apagado ao longo dos anos, muitas vezes porque a gente continua fazendo o que a gente ama, mas sentimos que não tem essa valorização. Aí, quando a gente recebe uma premiação assim, é como se a gente pensasse ‘opa, eu tenho valor sim, eu tenho valor para conseguir isso’. É uma reafirmação de que a partir de muita história e muita luta eu consegui chegar aqui. Isso não é nada comparado à história de muitas outras pessoas, que já fazem um corre aí de muitos anos, de muitas transformações, mas pra mim em si é algo muito importante.  

*Estagiária sob supervisão da editora Gracielle Nocelli

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(Foto: Arquivo Pessoal)