‘Não quero ficar famosa nem rica produzindo os livros’

Maria Helena Sleutjes é autora e organizadora da antologia “Juiz de Fora ao luar”
A ideia que Maria Helena Sleutjes trouxe para Juiz de Fora, em 2014, é de uma editora de projetos coparticipativos. Na Gryphon é assim: “Os autores contribuem com seus trabalhos, mas também custeiam parte da obra”, diz a escritora, bibliotecária, documentalista e também responsável por reunir autores que querem “publicar livros especiais para pessoas especiais”. É na noite de hoje, às 19h, que mais uma obra entra para uma lista de 13 livros editados. Reunindo 35 escritores juiz-foranos, “Juiz de Fora ao luar” apresenta uma coletânea de contos, contos infantojuvenis, crônicas e poesias. E não foi difícil juntar todo esse time, que inclui nomes como Leila Barbosa, Marisa Timponi, Magda Trece, Rosângela Rossi, Tiago Adão Lara e Fernando Abritta.
“Há uns seis anos, comecei a formar um grupo chamado ‘Café com poesia e arte’. Queria reunir artistas e escritores para viver uma troca de conhecimentos e informações, para falar de literatura, poesia e arte muito descontraidamente. Foram eles que corresponderam rapidamente ao meu chamado”, conta ela, destacando o nobre motivo que a impulsionou a investir nas letras da cidade.
“Percebo que Juiz de Fora parece ter vocação para a arte e a literatura. Quando a gente consegue uma publicação que traduz isso para as outras pessoas, isso passa a ser um patrimônio para a cidade e um incentivo para quem está começando. Muitos não publicam porque não têm oportunidade. Parece haver uma demanda reprimida”, lamenta Maria Helena. A conversa abaixo vai ao ar neste sábado, às 10h30, no quadro “Sala de leitura”, da Rádio CBN Juiz de Fora, com reprise na segunda-feira, às 14h30. Onde adquirir “Juiz de Fora ao luar?” “Só no lançamento, foi uma tiragem compartilhada com todos os autores e já foi distribuída. Sei que alguns poucos vão vender alguns exemplares. Os outros, não, vão guardar, dar de presente.
Tribuna – Quem é o leitor de “Juiz de Fora ao luar”?
Maria Helena Sleutjes – A criança só vai encontrar ali algumas páginas nessa área do conto infantojuvenil, temos quatro contos infantis. Mas o adulto vai se deliciar, porque esses contos são tão bonitos que também acabam servindo para ele. Gostei demais de alguns poemas. Eu não sabia, por exemplo, que um escritor que lançou conosco um romance era poeta, e ele nos apresentou um poema de cinco páginas. Outro que conheço, que tem vários livros publicados, o Fernando Abritta, nos apresentou um poema que fala das origens, do folclore brasileiro. Tivemos um outro também, do Mauro Cruz, da Academia Juiz-forana de Letras, que é de literatura de cordel. É muito bonito, fala do mar e do sertão. Me surpreendi com as crônicas porque algumas são de Juiz de Fora, já que nosso título remete à cidade. Os contos fazem partem daquela remessa que o escritor tem sempre numa gaveta, aqueles contos que ele vai compondo e que, às vezes, nunca consegue publicar.
– Você disse que Juiz de Fora tem vocação para a literatura, mas a cidade consome seus autores?
– Eu diria que não, percebo que querem muito tratar do assunto, da literatura, da arte, que querem encontro sobre isso, mas ainda acho que se consome pouco. É mais ou menos aquela coisa de santo de casa não faz milagre. Temos que fazer um esforço para quebrar isso, porque temos talentos maravilhosos. Juiz de Fora podia se espelhar em Murilo Mendes, em Pedro Nava, temos o Bracher, o Dnar Rocha… Olha só, são talentos incríveis. Se tivéssemos mais sarais, mais encontros, mais publicações, chegaríamos um pouco mais perto desses autores.
– O que falta para que o leitor se sinta instigado a ler nossa literatura?
– Tudo tem que partir de um primeiro incentivo. Nós da Academia Juiz-Forana de Letras vamos lançar um concurso de contos. Olha só que belo incentivo. Acho que precisamos mais desse tipo de ação e de mais espaço na mídia para publicação nesse sentido.
– Como bibliotecária, você acredita que as bibliotecas da cidade atendem o leitor juiz-forano?
– No Brasil, de um modo geral, as bibliotecas não atendem os leitores, mas, se for comparar Juiz de Fora a muitas cidades do mesmo porte, aqui tem acervo formidável e tem boas bibliotecas. A Biblioteca Municipal tem uma frequência belíssima. Temos outras biblioteca escolares muito boas, a da UFJF é uma senhora biblioteca em termos de acervo. Mas é assim, a biblioteca é algo que você tem que montar e saber que vai ter que manter para sempre, enquanto estiver funcionando. Isso exige recursos, vontade política de investir exatamente nessa área, o que é difícil. A área de cultura nem sempre é a primeira a ser contemplada. Acho também que vai ser sempre uma questão de consciência, de informar as pessoas, de educação. Posso estudar muito bem aqui em Juiz de Fora, que não me falta nada, não tenho que correr para o Rio de Janeiro ou para São Paulo. Até agora não precisei. Claro que tem um livro que é lançado e, de repente, não chegou ainda, mas a gente pede, espera um pouquinho, e eles conseguem trazê-lo.
– Como surgiu a Gryphon?
– A Gryphon surgiu, primeiramente, da minha dificuldade em passar a ideia dos meus livros para os editores com os quais eu trabalhava. Vi que eu mesma tinha que editar meus livros. Em segundo lugar, foi ver que os livros que tenho publicados no Rio e em São Paulo, quando preciso deles, tenho que comprar. Direito autoral é uma coisa tão ínfima, e você não tem controle sobre ele. Fiquei pensando: Daqui a dez anos, quando eu precisar de novo do livro tal, vou ter que correr atrás desse editor para ver se ele me vende os meus próprios livros. Achei isso meio injusto e gostei muito do trabalho de uma editora do Rio que, como a Gryphon, atende a demanda do autor. Fiz com eles um livro de cartas, e é uma tranquilidade para mim porque tenho os exemplares. A pessoa pede o livro, e eu posso fornecer. Na verdade, não quero nem ficar famosa nem rica produzindo os livros, quero fazer algo que me dê satisfação. A Gryphon não vende nem distribui os livros.
– Como é abrir uma editora em um mundo em que as pessoas estão cada vez mais migrando para a internet?
– Sou apaixonada pelo mundo virtual e também pelo livro impresso, aliás, pelo livro em qualquer forma, pedra, papiro… Penso que o livro em papel é um presente, um mimo, algo especial para dar a alguém muito querido. A Gryphon trabalha nessa vertente. A gente quer produzir pouco com qualidade para que o livro possa ser essa preciosidade, porque a gente sabe que o papel vai ser cada vez mais escasso. Ainda existem muitas pessoas que apreciam esse suporte do conhecimento, e pessoas jovens. O que me fascina é isso. Acho que não pode acabar tão rápido assim.
JUIZ DE FORA AO LUAR
Lançamento de livro com apresentação do Quarteto Coralina, da Orquestra Sinfônica da UFRJ
19 de setembro, às 19h
Constantino Hotel
(Rua Santo Antônio 765 – Centro)









