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Edson Motta: conheça o legado do pintor e restaurador de Juiz de Fora

Murais e pinturas religiosas revelam a trajetória do artista juiz-forano pela região


Por Cecília Itaborahy

19/07/2026 às 06h00

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Obra de Edson Motta no altar da Igreja de Nossa Senhora da Penha (Foto: Reprodução/ Paróquia Nossa Senhora da Penha)

“O que Edson Motta fez a vida inteira foi trabalhar em benefício de valores culturais do país, seja como pintor de muita sensibilidade e raro apuro técnico, alheio a falso modismo, seja como ardoroso defensor da permanência de obras alheias.” Essas palavras, escritas por Carlos Drummond de Andrade, foram emolduradas e ocupam uma das paredes do Hotel Senac Grogotó, em Barbacena, no Campo das Vertentes de Minas Gerais.

O texto amoroso sobre o pintor juiz-forano segue: “Um estilo de recuperação de obras de arte foi implantado no Brasil por esse homem discreto, probo, que só deixa saudade. (…) Quantos serão capazes de realizar esse destino da maior simplicidade e pureza?”, questionou Drummond ao finalizar.

Ainda no hotel-escola, em uma parede um pouco mais adiante, um outro quadro chama a atenção. Primeiro, pelo seu tamanho: é enorme e ocupa quase uma parede inteira. Segundo, porque, visivelmente, trata-se de um rascunho, em preto e branco. O autor: Edson Motta.

Esse quadro imponente é um rascunho da obra que ocupa a parede do altar da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Penha, localizada também em Barbacena, próxima ao Grogotó. Na obra, Edson retrata a Sagrada Família, mas de uma forma diferente da que se vê nas igrejas: ela é representada por viajantes, de chinelos e vestes que em nada lembram as representações predominantes.

De acordo com a assessoria do Grogotó, esse esboço foi doado ao hotel pelo próprio Edson em 1970. Ele teria se hospedado lá para trabalhar na obra da igreja. Anos mais tarde, a igreja passou por uma reforma, mas o painel foi mantido – como deve ser.

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Obras de Edson Motta em Dores do Turvo (Foto: Reprodução)

Edson Motta na região

Barbacena não é a única cidade da região que abriga uma obra de Edson Motta. Para o historiador da arte André Colombo, sua verdadeira obra-prima fica no conjunto mural da Igreja de Nossa Senhora das Dores, em Dores do Turvo. Lá, ele executou dezenas de painéis que expressam a modernidade em que acreditava e que, assim como a obra de Barbacena, causam espanto por apresentar imagens de uma forma até então pouco vista.

“Em Dores do Turvo, destaca-se ‘Atualidade’, uma obra de extraordinária ousadia para um templo religioso. Nela, Motta representa os horrores da guerra de forma explícita, introduzindo um tema contemporâneo em um espaço tradicionalmente reservado à iconografia sacra. Trata-se de um exemplo raro de diálogo entre arte moderna e pintura religiosa no Brasil. Em outras obras, ele tratou temas sociais até então descabidos para o ambiente sagrado”, afirma André. O historiador da arte cita ainda outra cidade na região que guarda uma obra de Edson: em São José das Três Ilhas, ele realizou uma pintura para o altar-mor da Igreja de São José.

E tudo isso tem a ver com a própria trajetória do pintor juiz-forano, sobrinho de César Turatti, um dos principais nomes das artes visuais da cidade. André conta que não se sabe muito sobre a infância de Edson, mas acredita-se que sua ligação com Turatti foi importante para que o interesse pela arte fosse despertado.

Em Juiz de Fora, ainda menino, começou a dar os primeiros passos na pintura, mas foi no Rio de Janeiro que, de fato, sua linguagem autoral ganhou espaço. A então capital do país concentrava a vida intelectual e artística do Brasil, como lembra André, o que foi fundamental para que ele tivesse contato mais direto com as transformações da arte moderna.

“Assim como César Turatti, ele aderiu precocemente às linguagens modernas, antes da maior parte dos artistas de Juiz de Fora, justamente porque estava inserido em um contexto cultural muito mais dinâmico e aberto às inovações artísticas.”

Também fundamental nessa trajetória de Edson foi sua viagem à Europa. Ela foi possibilitada por um prêmio conquistado no Salão Nacional de Belas Artes, muito cobiçado na primeira metade do século 20 porque representava, como aponta o especialista, “a oportunidade de aperfeiçoamento junto aos principais centros artísticos do mundo”.

No caso de Edson Motta, essa experiência foi interrompida pela eclosão da Segunda Guerra Mundial. Mas, já interessado pela técnica do afresco, ele decidiu, então, ampliar sua formação no México – ponto central para a compreensão de suas obras nas igrejas da região, já que foi lá que teve contato com o muralismo.

GROGOTO AQUIVO PESSOAL
Rascunho de Edson Motta ocupa uma parede no Hotel Senac Grogotó (Foto: Arquivo pessoal)

Arquitetura religiosa

Após a viagem, Edson retornou a Juiz de Fora e se deparou com um cenário completamente diferente do que viu mundo afora. “Encontrou um ambiente artístico ainda muito ligado ao ensino acadêmico e pouco receptivo às propostas modernas”, conta André. Foi nesse momento, inclusive, que tentou renovar o programa da Sociedade de Belas Artes Antônio Parreiras, mas enfrentou resistência e não conseguiu dar seguimento ao projeto.

Nesse contexto, ele encontrou nas igrejas da região uma forma de colocar em prática o que viu em suas viagens: todas essas obras foram realizadas no mesmo período e materializam sua trajetória artística. “O interesse de Edson Motta pelo afresco naturalmente o aproximou da arquitetura religiosa, lugar em que essa técnica possui uma longa tradição (…) É possível que o relativo isolamento da comunidade tenha contribuído para que uma proposta tão inovadora fosse recebida com menos resistência. Vale lembrar que, nesse mesmo período, obras hoje consagradas, como os painéis de Portinari na Pampulha, provocaram forte estranhamento em parte da sociedade da época”, justifica André.

Edson restaurador

No texto de Drummond, outra ocupação importante de Edson Motta é destacada: ele foi restaurador. De acordo com André, essa atuação foi um desdobramento natural da sua formação e do seu interesse pelo patrimônio histórico. “Os modernistas viam o ‘barroco mineiro’ como um dos fundamentos da identidade cultural brasileira, e esse foi justamente o período de consolidação do Serviço do Patrimônio Histórico Nacional, atual IPHAN”, instituição, inclusive, na qual Edson Motta e Carlos Drummond trabalharam juntos.

E André completa: “Graças aos estudos que realizou nos Estados Unidos e na Europa, introduziu métodos científicos que modernizaram a restauração no país. Essa dedicação acabou reduzindo o tempo disponível para sua produção artística, mas consolidou um legado fundamental para a preservação do patrimônio brasileiro”.

O legado

Edson Motta, juiz-forano, tem diversas obras espalhadas pela região, mas, em Juiz de Fora, ainda é pouco falado e, principalmente, pouco visto. O Museu Mariano Procópio guarda uma de suas obras. Alguns colecionadores também possuem obras do artista, entre eles, André. Ainda assim, seu legado, como acredita o historiador da arte, vai muito além das obras.

“Sua maior contribuição foi a formação de restauradores e a difusão de métodos científicos de conservação do patrimônio”, ele diz, citando que Mário Vieira e Sylvio Aragão foram seus alunos e deram continuidade ao seu trabalho. Ao final da década de 1970, ele organizou no Museu Nacional de Belas Artes uma exposição dedicada à produção juiz-forana.