Gerson Guedes faz exposição ‘Quermesse nas alturas’ em Ibitipoca

Artista plástico reúne trabalhos que aliam elementos da religiosidade, música e cultura popular; abertura da exposição terá uma quermesse


Por Elisabetta Mazocoli

19/06/2026 às 06h20

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Exposição acontece na Estação de Artes, em Ibitipoca (Foto: Divulgação)

Para sua nova exposição, o artista plástico Gerson Guedes se inspirou em um cenário que conhece bem: as festas da Zona da Mata, que aliam religiosidade, música e cultura popular. Desde que passou a se dividir entre Juiz de Fora e Ibitipoca, distrito de Lima Duarte, começou a observar com cuidado os elementos do cotidiano que permanecem nesse interior de Minas, e quis registrar, tanto na tela quanto no texto, o que mais chamava sua atenção. “É junho/ E, na serra, floresce o manacá./ Entre o branco e o roxo/ Sto. Antônio deixa o oratório/ E desce do altar”, começa o poema. O resultado desse trabalho será exibido na Estação de Artes (Rua Bosque dos Aracis, 11), sua primeira exposição em Ibitipoca, e estará aberta para o público aos sábados, das 10h às 19h, até 25 de julho. Para a abertura da mostra, a proposta de “Quermesse nas alturas” não é nada convencional, e traz para si a festa que propõe retratar.

A concepção do projeto nasceu de forma conjunta entre artes plásticas e escrita. “Como toda em exposição minha, eu começo com a elaboração de um texto. Cada obra que fui produzindo fui associando a um verso do poema. Quem vier à exposição vai ter a conjugação da poesia com a pintura”, explica. O gancho, dessa vez, foi a quermesse, que tem bastante força no vilarejo e que traz símbolos artísticos que passaram a se destacar ainda mais pra ele, como os sinos, sanfonas, quentão, laços de fita e vestidos de chita. “Lembrei de um filósofo grego antigo, chamado Simônides de Ceos, que acho fundamental e que tento aplicar no meu trabalho: a pintura é uma poesia silenciosa, e a poesia uma pintura que fala”, diz.

Essa vivência se tornou mais intensa a partir da mudança para Ibitipoca, mas também está relacionada com suas memórias da infância. Apesar de ter nascido em Juiz de Fora, cresceu em Santo Antônio do Chiador, a cerca de 80km da cidade. É nesse ponto de conexão entre as próprias memórias e o presente que encontra os próprios traços. “Desde os meus 5 anos, comecei a desenhar todo esse universo que me habitava. Eu considero que a arte é um prolongamento da nossa alma, do nosso interior. Você se coloca no seu trabalho”, reflete. 

Essas vivências se relacionam também com memórias coletivas da população que vivencia esses momentos em conjunto, e passam por um processo de registro por meio da arte. “As festas que existem aqui resguardam bem as características interioranas de mineiridade, com a grande concha de retalho poética que é a Zona da Mata. Temos as procissões, as quermesses, as festas dentro dos sítios e as fazendas que perduram, quase como um choque cultural contra a velocidade que se vive nas metrópoles, que só tem festas assim restritas em escolas e pequenas comunidades”, conclui.

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(Foto: Divulgação)

Inspiração e expiração

Desde que montou ateliê em Ibitipoca, em 2019, Gerson Guedes conta que encontrou “inspiração e expiração” no lugar. Isso porque, no meio do verde das montanhas da Serra da Mantiqueira, ele passou a encontrar novos elementos para traduzir através de seu olhar, mas também um novo público para digerir o seu trabalho. Foi lá também que, com a galeria, feita nos moldes de uma estação ferroviária parecida com as que pinta desde o início da carreira, encontrou de novo “a grande força motriz, movida à vapor, na hora da criação e concepção das obras”.  Para ele, nada mais justo que levar o trabalho de volta para o público do lugar que continua o trazendo novas ideias. E assim termina o poema: “Balancê!!!!, balancê!!!!/ No rodopio, você quase não me vê!/ Uma quermesse nas alturas/ Que ascende o meu querer”. 

Já são mais de 50 anos de carreira enquanto artista plástico, e ao longo dessa carreira Guedes entende que o mundo se transformou bastante — não só o mundo que vê ao seu redor, inclusive, mas aquele ao qual o seu trabalho pode chegar. Por isso, hoje, também conta que, enquanto está criando algo novo, busca refletir sobre o que pode perdurar diante da saturação de informação visual e de linguagem. 

Além disso, busca tentar entender como equilibrar, em uma exposição como essa, a retratação de elementos tradicionais com uma linguagem contemporânea. “Acho que em breve o contemporâneo vai ser o simples. As pessoas andam saturadas da sobrecarga que vivemos. Considero que o traço simples, com a sua mensagem quase que ingênua sobre o mundo que te cerca, vai se tornar contemporâneo”, diz. Também por isso, busca influenciar as novas gerações da maneira que pode, e justamente de onde suas raízes também partem.