‘Meu legado são palavras’


Os poucos vestígios que o menino tinha do pai chegaram até ele não faz pouco tempo através da avó. Eram palavras. “Não. Nada restou. Poucas fotografias, nenhum vídeo para que conhecesse a voz e os gestos, nenhum áudio, nenhuma roupa.” Ainda estava no ventre da mãe quando aquele homem de extrema sensibilidade pôs um ponto final na própria existência. Quatro meses depois, ele nasceu. Agora, Mauro já é homem feito, consegue lidar com suas angústias, mas fica com a voz embargada ao falar do que “é falta”, “é vazio”. “A forma como meu pai morreu foi tão traumática que toda a conversa era sempre muito silenciada. Todos os detalhes sempre me foram suprimidos. A dor sempre tomou conta da família. Não conheci meu pai inteiro, conheci fragmentos”, revela o repórter do Caderno Dois Mauro Morais.
“Entre o aborto e o parto”, lançado na próxima quinta-feira”, às 20h, no Museu de Arte Murilo Mendes, e distribuído gratuitamente pela Funalfa, traz uma coletânea de textos do escritor juiz-forano Mauro Fonseca, pai de Mauro Morais, organizador da antologia. Além dos versos publicados nos livretos “Não há sinal de porto algum” (1984) e “Não sou náufrago na ilha de ninguém” (1982), a obra traz escritos inéditos do autor que estava entre os que integraram “Abre alas” e “D’Lira”, dois importantes movimentos que fizeram história em Juiz de Fora. Na mesma noite, a partir das 19h, Edmilson de Almeida Pereira, Fernando Fiorese e Júlio Polidoro encabeçam a mesa “Encontro: Geração da poesia de Juiz de Fora em 1970 e 1980”. Também passa a ocupar a Galeria Poliedro, até 14 de junho, a exposição “Entre a foto e o fato”. A mostra apresenta documentos, recortes, manuscritos, cartas e registros de Mauro Fonseca. “Compartilho o retrato que construí do meu pai, certo de que cada palavra anuncia um artista, e, nesse artista, moraria a melhor face daquele que não encontrei. Ainda.”
Tribuna – Por que reunir todos os textos do seu pai em uma antologia?
Mauro Morais – Antes de tudo, era muito importante fazê-lo vivo para as pessoas e para mim. Para minha filha também, que não tinha muita noção de quem ele era. Queria acertar as contas com meu passado.
– Por que “Entre o aborto e o parto”?
– Esse foi um dos primeiros poemas que li, chama-se “Afirmativa”: “Estou entre a foto e o fato/entre o aborto e o parto”. Ele lançou em 1984, e, para mim, essa é exatamente a nossa relação. Meu pai foi embora em 1988 e, quatro anos antes, já havia definido o que seria de nós. Para mim, o título revela exatamente o ponto em que cada um se encontra. Meu pai escolheu o aborto, e eu escolhi todos os partos que já fiz e ainda espero fazer.
– Na introdução, você diz que seu pai se matou aos 25 anos, e hoje você tem 27. Era preciso esperar que ultrapassasse essa idade para organizar este livro?
– Foi preciso esperar para ler. Costumo falar que o suicídio é sempre um grande fantasma. Quando fiz 26 anos, me sentia muito confortável por ter superado a idade do meu pai e superado, também, o fato de conseguir ter uma filha e viver ao lado dela.
– De uma certa forma, o único legado que ele deixou foram esses escritos?
– Não tenho nenhum outro legado que não sejam palavras. É uma paternidade que nasceu através do texto.
– Como todo o material chegou às suas mãos? Você manuseou tudo assim que recebeu?
– Mesmo com tão pouca idade, deixou mais de 300 poemas. Alguns escritos em guardanapo, outros em folha de pão. Minha avó reuniu, preservou durante toda a vida e, há quatro anos, me deu. Não me senti confortável para ler. No ano passado, decidi rever, tirar do baú e publicar. Pleiteei a Lei Murilo Mendes e, conseguindo a aprovação, li tudo. Acredito que seria um grande sonho dele fazer isso.
– Quais eram as inquietações do seu pai?
– Eram muitas. Um jovem nas décadas de 1970 e1980 não podia não falar da ditadura. Ele era filho de um líder anticomunista e, por ironia do destino, sempre se afinou com os comunistas. Também havia uma relação muito estranha com a Igreja, de amor e ódio, de extrema fé e, ao mesmo tempo, revolta com as alianças que a Igreja fazia. Leio, ainda, uma sensibilidade imensa com o dia a dia, com o trato com as pessoas. Meu pai escrevia sobre a vida. Conhecer seus textos é desvendá-lo, é entrar em contato com aquele momento do Brasil, com aquele momento de Juiz de Fora.
– Ao receber o material, você procurava respostas para o que aconteceu?
– Procurava meu pai acima de tudo. Todo escritor se desnuda um pouco no texto, mesmo que seja um trabalho extremamente fantasioso. O autor nunca se esconde. O que eu procurava era a essência dele. Quando termino de ler tudo o que ele deixou, percebo que existia uma grande mensagem por trás de tudo. Quando foi embora, falava para mim: “Olha a vida é minha, faço dela o que achar melhor”. O que ele achou melhor, não sei se acho melhor hoje, mas compreendo que a vida é minha e tenho tentado fazer um trabalho intenso e particular de conquistas, tentando vencer cada dia. Ele me ensinou, mesmo não tendo nos encontrado.
– Você diz que seu pai não se tornou um grande escritor enquanto esteve vivo. É sua intenção fazer isso agora?
– Meu pai não foi um grande escritor, porque se foi cedo. Não teve a chance de brilhar como os amigos. Quando entrevistei o (Luiz) Ruffato, ele me disse uma coisa muito marcante: “Sou da geração que deu certo”. Essa geração que deu certo, a mesma do Ruffato, é a do meu pai. E ele não se deu essa oportunidade. O livro não tem essa pretensão de lançar ou resgatar um autor. A pretensão maior é mostrar como se constroem relações. Nosso laço de pai e filho foi construído entre as letras.
decididamente com a pá nas mãos enterro meus mortos
Lembro-me bem de Maria
de rita luzia
e tantas outras vidas
amigas que morreram de susto
morreram de medo
de pavor
morreram em silêncio
em segredo
lembro-me dos amigos
meus pais irmãos
morreram sozinhos
de dia ou à noite
enquanto eu em algum lugar
abria o álbum do tempo
e percorria com os dedos
as amareladas fotos
decididamente com a pá nas mãos
enterro meus mortos
Mauro Fonseca











