Fagner em Juiz de Fora: artista relembra histórias na cidade, fala sobre novo álbum de bossa nova e apresentação no Central

Em entrevista à Tribuna, artista relembra passagens marcantes pela cidade e comenta o momento atual de sua carreira


Por Mariana Souza*, colaborou Bernardo Marchiori

19/03/2026 às 06h00

Fagner volta ao Cine-Theatro Central nesta quinta-feira (19), às 21h, em Juiz de Fora, para show com ingressos esgotados.
Fagner volta ao Cine-Theatro Central nesta quinta-feira, às 21h, em Juiz de Fora, para show com ingressos esgotados (Foto: Divulgação)

Dono de uma discografia que reúne mais de 40 discos e centenas de sucessos, Fagner construiu uma das trajetórias mais consistentes da música brasileira. Nascido no Ceará, o cantor e compositor ganhou projeção nacional nos anos 1970 e, desde então, consolidou-se como uma das vozes mais reconhecidas do país, com canções como “Borbulhas de amor”, “Deslizes” e “Canteiros”.

Com ingressos esgotados, ele se apresenta nesta quinta-feira (19), às 21h, no Cine-Theatro Central, em Juiz de Fora. Na cidade, o cantor traz o espetáculo da turnê “Muito amor”, que reúne sucessos que marcaram sua trajetória e seguem presentes na memória do público.

Em entrevista à Tribuna, o artista falou sobre o momento da carreira, o lançamento recente de um álbum em que revisita a bossa nova e homenageia amigos da música, além da relação que mantém com Juiz de Fora e dos projetos que prepara para os próximos anos.

Tribuna: Você tem uma relação antiga com Juiz de Fora, que passa por diferentes momentos da sua carreira. O que a cidade representa na sua trajetória e quais lembranças dessas passagens mais ficaram com você?

Fagner: Juiz de Fora também é uma relação muito antiga, muito afetuosa. Aqui tinham uns festivais, uns encontros, no Cine-Theatro Central, de artistas que vinham do Rio, que vinham de Minas. Juiz de Fora sempre foi um ponto de encontro. Fui pegando uma intimidade muito grande com a cidade, sempre voltando para shows, e a primeira vez que vim ao Cine-Theatro Central me marcou. Depois, numa outra ocasião, fiz duas sessões no ginásio de Esportes, no campo de futebol mesmo. Aquilo me impressionou, porque eu não sabia que o show seria ali, no campo. Quando cheguei, tinha uma fila enorme e seriam duas sessões. E shows, muitos shows. Não lembro exatamente quantas vezes, mas são muitos.

Você construiu uma trajetória muito ligada à canção romântica. Na sua visão, por que esse tipo de música continua tão presente na cultura brasileira e na relação do público com a música?

A música romântica é um canhão. Nada se compara à música romântica no Brasil, porque o Brasil é um país romântico, é um país católico. Nada resiste a uma balada tocando no rádio, especialmente no interior. Como o rádio não sai dessa linha, acho que a música romântica continua muito forte. Você pega a história do Roberto, o próprio Gonzaguinha, que foi um gênio, e vê que muitas das mais famosas são justamente as músicas românticas.

Você tem uma trajetória marcada por canções muito conhecidas, mas costuma tratar o espetáculo como algo que vai além do repertório. O que considera essencial para que um show continue vivo e envolvente?

Olha, o que não muda, e até cresce, é a vontade de mostrar um grande show, de ter grandes músicos. E estou falando isso numa terra conhecida por grandes músicos. Então, o que eu levo não é só a música, não é só o repertório: é uma energia, são músicos que se transformam no palco. Os shows são muito envolventes, não têm nada de repetitivo. No dia em que eu estiver repetindo, vou fazer outra coisa. A gente tem um enorme prazer no que faz. Não é só pelos músicos, nem só pelo repertório – e eu tenho um repertório mortal, de tanto sucesso, de tantas músicas -, mas pela execução disso no palco e pelos músicos que eu tenho, que se renovam e vêm com tudo. Acho que é isso que faz o espetáculo. Não é só o artista ou o repertório: a gente trabalha em cima do espetáculo, e o povo participa também.

Sua obra é atravessada por encontros muito fortes, de Belchior e Fausto Nilo, a nomes de outras gerações, e isso ajuda a contar não só a sua história, mas também a história da música brasileira. Como você percebe o papel dessas parcerias na construção da sua identidade artística e na permanência da sua música ao longo do tempo?

Eu tive os parceiros ideais, sempre escolhi muito bem. Desde o começo foi assim. Se puder nominar, meu primeiro parceiro no Ceará foi o Belchior. A gente fez muita coisa e poderia ter feito mais. Ainda assim, tenho alguns clássicos do meu repertório com ele. Depois veio o Fausto Nilo, compositor muito conhecido pelas parcerias com Geraldo Azevedo e Moraes Moreira, outro cearense. Ao longo dos anos, vieram tantos outros parceiros: Zeca Baleiro, Zé Ramalho, Renato Teixeira, um dos grandes músicos, com quem fiz dois discos. Foi uma infinidade de parcerias, de músicos que gravei, de cantores. Já chega a uma centena de intérpretes, desde Paulo Alves, Altemar Dutra, Cauby Peixoto, Agnaldo Rayol, Agnaldo Timóteo, até essa geração mais nova, como Gusttavo Lima e Zezé Di Camargo. Então, é uma vida muito rica, com muitas horas de estúdio, muitas parcerias, e acho que isso é uma coisa que me rejuvenesce. O estúdio, a música, são coisas incríveis, não só para quem escuta, mas para quem faz.

Depois de uma trajetória tão marcada por diferentes momentos da canção brasileira, você lança agora um álbum ligado à bossa nova. De onde veio esse projeto e que motivações artísticas estiveram por trás dele?

Cara, esse disco de bossa nova, de certa forma, é uma homenagem. Quando cheguei ao Rio, minhas madrinhas foram Nara Leão e Elis Regina. Morei com a Elis. Então, são pessoas muito importantes no começo da minha chegada ao Rio. 

Meu primeiro diretor artístico na Philips foi Roberto Menescal, que até hoje é um dos grandes nomes da bossa nova. Há muitos anos, nós fizemos um disco de projeto chamado Demais. Era um trabalho simples, com orçamento baixo, mas que vendeu quase um milhão de cópias. Naquela época, a gente vendia muito disco, mas, ainda assim, isso chamou atenção.

Mais recentemente, há cerca de um ano, nós nos encontramos de novo, e eu falei: “Beto, vamos fazer outro disco”. Aí banquei esse trabalho, reunimos músicos clássicos do estilo, grandes músicos, e fizemos o disco. Houve um desentendimento durante o processo, e eu acabei deixando esse trabalho na prateleira.

Depois, disponibilizei o disco para a Biscoito Fino, até porque é uma gravadora nacional, do Rio de Janeiro, que tem essa ligação com a música carioca. E agora o disco está ganhando uma proporção muito grande, muito pela importância da própria bossa nova. De certa forma, a gente tirou esse trabalho da prateleira, e ele está me surpreendendo.

Em um trabalho que dialoga com um gênero tão importante da música brasileira, como você pensou o repertório e que histórias ou referências quis trazer para dentro do disco?

Cara, são muitas músicas. A gente foi buscar várias delas também em homenagem ao Vinicius, que foi meu parceiro. Tinha até uma música inédita com o Vinicius que tem esse valor afetivo. O detalhe é que a maioria desses autores eu conheci: Tom, Vinicius, Baden, Carlos Lyra, Ronaldo Bôscoli, que foi meu padrinho. Morei com a Elis, então tive convivência com muita gente desse universo.

Acho que “Chega de saudade” é uma música emblemática da bossa nova no mundo inteiro, com o João Gilberto, que também foi meu amigo. A gente conviveu muito tempo, mesmo sem se ver tanto, naquela coisa de um prédio para o outro, vendo pela janela, conhecendo as histórias do João. E tem também João Donato, entre tantos outros.

Certamente muita coisa ficou de fora, mas, se você pegar os dois discos – o “Demais” e esse último -, vai ver que a gente reuniu um repertório muito vasto. Mas eu acho que “Chega de saudade” é essa canção emblemática da bossa nova, assim como “Águas de março” também é.

Cada gênero musical pede um tipo de interpretação. No caso da bossa nova, como você trabalhou a sua voz e a sua leitura das canções para esse disco?

Cara, é difícil, porque é uma música muito comportada, e eu tenho uma interpretação mais acalorada, mais vibrante. Então procurei, de alguma forma, não gastar muito na emoção, buscar uma maneira de cantar mais leve, mais contida, para deixar a canção mais quieta. Naturalmente, a minha voz e o meu timbre já trazem uma coisa diferente, mas eu tentei justamente economizar nisso para respeitar essa atmosfera da música.

Mesmo com o novo álbum lançado recentemente, você segue muito ativo no estúdio. Que outros projetos ou ideias estão tomando forma neste momento da sua carreira?

Hoje sou muito músico de estúdio, tenho muitas horas ali. Então tenho um disco para lançar agora no São João, um trabalho que comecei e que os rapazes já estão preparando há uns seis meses. Tem também o disco que lancei em comemoração aos 50 anos de carreira, pela Universal, produzido pelo Zeca Baleiro e por outros artistas. É um disco belíssimo, mas eu acabei abortando esse trabalho, fui irresponsável. Ele já estava pronto para fazer programas e divulgação. Então hoje estou com esse disco de bossa nova, com o disco de São João e agora já estou na terceira música de um disco de músicas religiosas. A verdade é que a gente vive dentro do estúdio.

Ao lançar um álbum com essa proposta, você imagina que esse trabalho possa ganhar algum desdobramento nos palcos ou em projetos ao vivo?

Não devo sair em turnê com esse disco de bossa nova. Penso nele mais para um teatro, uma gravação, talvez com orquestra. No máximo, uma música ou outra pode entrar no show. Agora, se o disco tomar a proporção que parece estar tomando, isso pode mudar. De repente, ele pode virar um espetáculo com participações, porque está acontecendo de um jeito que nem eu mesmo esperava.

Depois de tantas apresentações na cidade ao longo das décadas, como você sente esse novo encontro com o público de Juiz de Fora e que tipo de noite espera construir no palco?

Que seja mais uma noite linda, porque aqui sempre foram shows bonitos, com um público muito carinhoso e uma identidade muito forte. E a gente está dedicando a noite também às vítimas de Ubá, a alguns amigos. A gente fica nessa ligação, sabe da tragédia, sabe que nada será como antes, mas que melhores dias venham. Que eu possa ter ajudado de alguma forma, retribuído o carinho que todo o povo mineiro sempre teve comigo. Que isso sirva para alguém, porque a gente está fazendo de coração, apenas em retribuição ao que os mineiros sempre fizeram por mim.

Fagner apresenta “Muito amor”

  • Nesta quinta-feira (19), às 21h
  • No Cine-Theatro Central (Praça João Pessoa, S/N – Centro)
  • Classificação: 18 anos
  • Ingressos esgotados
  • Realização Page Produções

*Estagiária sob supervisão da editora Cecília Itaborahy