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Corpo e pensamento


Por RAPHAELA RAMOS

19/01/2012 às 07h00

Há tempos o ator abandonou sua função de mero repetidor. Transformou-se em coautor de discursos artísticos, consciente de sua forma outra de habitar picadeiro, palco ou telona. Diante da complexidade do mundo contemporâneo, o homem da cena reflete sobre seu fazer, incluindo no balaio mensagens íntimas. Para celebrar 15 anos de trajetória e um público total de 471.950 pessoas, a Mostra de Cinema de Tiradentes 2012 – que começa nesta sexta e segue até dia 28 – decidiu evidenciar esse novo artista, integrado a todas as etapas da produção cinematográfica.

"O ator é um dos principais responsáveis pela reaproximação entre o cinema brasileiro e o espectador", justifica Raquel Hallak, coordenadora do evento. Completando 30 anos de carreira, o mineiro Selton Mello foi escolhido para representar aqueles que dão corpo e pensamento aos personagens, sendo o homenageado da vez. "O filme ‘Lavoura arcaica’, protagonizado por ele, foi um dois primeiros a utilizar essa ideia de ‘ator em expansão’, tema da mostra", complementa Hallak, aguardando receber 30 mil visitantes.

O longa de Luiz Fernando Carvalho estará ao lado de outros sucessos de Mello em uma retrospectiva que traz o recente "O palhaço", sua segunda incursão como diretor. Logo na noite de abertura, acontece a pré-estreia mundial da sequência "Billi Pig", de José Eduardo Belmonte, na qual Selton vive um corretor de seguros falido ao lado de Grazi Massafera. No sábado, o média-metragem "Palhaço.doc" revela os bastidores das filmagens feitas em locações como Santa Rita de Ibitipoca, Bom Jesus do Vermelho, Conceição do Ibitipoca e Lima Duarte.

O 15º Seminário do Cinema Brasileiro, realizado paralelamente, também leva para o centro das atenções os atores e seu papel colaborativo. Ao todo, 19 "Encontros com a crítica, o diretor e o público" e sete debates temáticos estão programados e abordarão ainda o curta na era digital e o panorama atual da crítica cinematográfica, entre outros assuntos.

 

De ‘Central do Brasil’ a ‘Tropa de Elite 2’

De acordo com Raquel Hallak, a Mostra de Tiradentes, criada em 1997, assistiu às transformações enfrentadas pela sétima arte. Ela cita a tecnologia digital, a ascensão do documentário, o fim do videocassete e o surgimento de uma nova geração produtora como as principais mudanças. "O evento esteve atento a isso tudo, mesmo acontecendo em uma cidade de sete mil habitantes, sem sala de exibição."

Quando surgiu, o festival acompanhava a retomada do cinema nacional e as primeiras investidas da Lei do Audiovisual, instituída em 1993. Raquel comenta que o futuro então era incerto. "A Embrafilme havia sido extinta. Estávamos sem política nessa área." Quinze anos se passaram. Nesse período, segundo a assessoria do evento, foram inauguradas mais de mil salas no circuito exibidor, e o público de cinema dobrou no país. Hoje, Tiradentes comemora com uma programação que inclui 116 filmes: 31 longas, um média e 84 curtas. Curadores internacionais também estão de malas prontas para conhecer a nova produção brasileira. Alguns dos nomes aguardados são Anne Delseth, membro do Comitê de Seleção da Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes; Paolo Moretti, do Festival de Veneza; e Federico Cote Veiroj, do Festival de Cinema de San Sebastian, na Espanha.

Como define Raquel, os cineastas da geração atual são independentes e ousados em termos estéticos. Além disso, interessam-se por coletivos, indo do roteiro à montagem. "Também não se prendem a narrativas lineares, optando bastante por retratos do cotidiano." Entre os diretores dos 84 curtas escolhidos (em um universo de 597 inscritos), estão representantes desse cenário, vindos de 12 diferentes estados. Na Mostra Foco, com dez filmes, o júri da crítica escolherá o melhor desta edição comemorativa. De acordo com os curadores Cleber Eduardo e Francis Vogner dos Reis, tais produções "em vez de se imporem somente como exercício de estilo e pesquisa formal, apostam em pressupostos cênicos e dramáticos que não se esgarçam no conceito ou no esmero técnico". A programação de curtas, bastante diversificada, conta ainda com as mostras Panorama (da qual participa "Século", do juiz-forano Marcos Pimentel), Curta na Praça (que exibe "Silêncio 63", de Fábio Nascimento, formado pela UFJF), Mineira, Jovem e Mostrinha.

 

Iniciantes e tarimbados

Oportunidade para conhecer realizadores iniciantes, a Mostra Aurora tornou-se uma marca. Em sua quinta edição, apresenta sete novos longas que concorrerão ao prêmio de melhor filme concedido pelo júri da crítica e pelo júri jovem. Já as mostras Olhares e Vertentes trazem sequências aguardadas pela fama de seus diretores ou pela repercussão em festivais. Entre os seis representantes da segunda, está "Girimunho", de Helvécio Marins Jr. e Clarissa Campolina, que estreou no Festival de Veneza. Na Vertentes, destaca-se o longa "Augustas", de Francisco César Filho, escalado para encerrar a maratona. A Mostra Praça, com sessões ao ar livre, e a Mostrinha, dedicada ao público infantil, completam a grade de exibições.

Apesar das chuvas que castigaram Tiradentes, não houve qualquer alteração no evento. Segundo Raquel Hallak, a montagem da infraestrutura, iniciada dia 3 de janeiro, passou por uma pausa, mas foi intensificada nos últimos dias. "Trabalhamos dobrado para não haver atrasos." Segundo a assessoria, o acesso à cidade próximo às margens do Rio das Mortes foi liberado para veículos e pessoas. O festival conta com três espaços: o Cine-Praça, no Largo das Fôrras (para mais de mil espectadores); o Complexo de Tendas, que sedia a instalação do Cine-Tenda (com 700 lugares); e o Cine-Teatro (com 150 lugares), que funciona no Centro Cultural Yves Alves. A entrada nos diversos eventos é gratuita, por ordem de chegada.