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Outras Ideias com Luiz da Conceição Bispo


Por MAURO MORAIS

18/10/2015 às 07h00

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Nonô é idealizador da rádio comunitária que fez história no país (Fernando Priamo)

Dessa vez, esqueci-me do caderno de pautas. Nem pensei nas anotações. Entusiasmava-me conhecer o homem que antes dos 15 já tocava em bailes, idealizou uma rádio comunitária que fez história na cidade e no país, gravou diversos nomes da cena cultural da periferia de Juiz de Fora e continua a viver no silêncio da casa de número 70 na Rua Dante Bellei, no Bairro Santa Cândida, Zona Leste da cidade. Algumas revoluções são, sim, gestadas e desenvolvidas sem ruídos. Nonô, apelido que a avó deu a Luiz da Conceição Bispo na infância, trabalha para que não haja silêncios, ainda que sua timidez não lhe crie grandes holofotes. Tímido, preserva num pequeno cômodo nos fundos da casa a força das muitas vozes que registra. Em seu estúdio, a ideia é forte.

“Tem gente que, mesmo não cantando tanto, tem o sonho de gravar. O importante é isso, a realização”, conta ele, que viu passar por ali uma geração de resistentes, como a funkeira MC Xuxú. “Dede o início, ela estava aqui. Quando fez a primeira gravação, as pessoas ainda não acreditavam muito no som que fazia. Gravamos muito o pessoal da periferia. Vimos nascer o movimento do hip-hop em Juiz de Fora. Vimos surgir o PMC, que rodou o Brasil e o exterior e, hoje, mora em São Paulo”, recorda-se, dizendo que em seu espaço, a música é apenas uma das ferramentas de conscientização. “É um chamariz para a gente ajudar e ser ajudado.”

O homem que mora no morro “desde quando não havia calçamento, não tinha água, era preciso buscar na mina para encher a caixa d’água”, viu o asfalto, a luz, a água chegarem. Só não viu, ainda, aos 45, a igualdade tão sonhada. O morro, segundo ele, ainda não tem vez, como escreveram Tom e Vinícius. “As coisas sempre mudam, mas a luta é muito difícil. Acredito na mudança de fato, talvez para as próximas gerações. Faço a minha parte, não espero. Tento ser livre sem deixar que me massacrem”, brada em tom baixo, que mal ouço na gravação. “Muitas vezes, o que mais funciona não é a palavra, mas a atitude de fazer.”

Baile cheio

Técnico em elétrica e eletrônico por formação, DJ Nonô foi fisgado pelas pickups e muito cedo começou a comandar bailes em Juiz de Fora. “Comecei a rodar a periferia, fazendo festas em Benfica, São Benedito, Santo Antônio e muito mais. Também tocava na Zona da Mata e num pedacinho do Rio de Janeiro. Nessa época, por volta de 1985, começou a transição da discoteca para o Miami Bass, que rapidamente ganhou o Rio de Janeiro e o Brasil. Por ser em inglês e muitos não entenderem, o pessoal das equipes de som começou a tocar o instrumental com a galera cantando por cima. Com a evolução dos equipamentos, foi possível fazer as próprias batidas, e daí surgiu o funk”, lembra ele, um dos idealizadores da série “O funk em Juiz de Fora”, de 1992. “Foram cinco discos e muitos shows, com uma caravana que levava dois ônibus da cidade para diversos lugares do país. Anos depois, passamos das gravações para os festivais de galera, que vieram do Rio de Janeiro também. Foram deles que surgiram as rivalidades entre os bairros, o que hoje é um problema e, praticamente, acabou com esses tipos de bailes.”

Papo reto

A turma era boa, talentosa e merecia aparecer mais, ter mais reconhecimento na cidade, pensava Nonô. Comprou um transmissor e chamou a irmã Adenilde Petrina, uma das mais fortes vozes da militância negra e periférica da cidade. “Ela sempre foi uma referência para mim. Nos meus primeiros bailes, ela estava lá, participando e dando ideias”, emociona-se ele, que divide a casa, projetos e verdades com ela. Em 1997, entrava no ar a Rádio Mega FM. “Aproveitamos o momento e decidimos criar a rádio comunitária, que era uma luz no túnel. Queríamos dar oportunidade para aquela galera que estava cantando ter mais espaço, além de poder abrir espaço para todos, numa programação verdadeiramente democrática e justa”, conta. Das pickups para a mesa de comando, Nonô fez eco das vozes a seu redor. E percebeu que todo grito vale a perenidade.

Vestígios em imagens

A rádio lhe aproximou do samba, que lhe apresentou às escolas de samba, que lhe deram a ideia de gravar os sambas-enredo. “Na primeira gravação que tentamos fazer, fomos para a quadra do Turunas do Riachuelo. Como eu nunca tinha gravado, não sabia como era, e não tinha como dar certo. Pensei, então, em não gravar uma bateria, o que é muito complexo, mas em fazer como já fazíamos com o funk, com um sampleado”, diz. Deu certo e, assim, surgiu o Estúdio Ideia Forte. “Deixei de fazer os bailes e passei a fazer apenas gravações. Hoje gravamos sambas para várias cidades, como Nova Lima, Barbacena, Três Rios. Tem anos que fazemos esse trabalho para quase 40 cidades da região”, comemora. Dos bailes restaram imagens gravadas pela velha câmera que comprou na época. “Fizemos horas e horas de filmagens, com o registro dessas regiões todas. Visitávamos os lugares todos, hoje não dá mais para entrar. Quero, agora, fazer um documentário sobre o que acontecia, como era a juventude, encontrando as pessoas que aparecem nas imagens, contando o que mudou na vida delas. A ideia é que as pessoas contem outra versão que não a oficial”, explica. DJ Nonô – anoto sem ter papel e caneta – não quer deixar que o passado, o presente e o futuro se calem.