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Um sabor diferente na música


Por Tribuna

18/01/2012 às 07h00

João Augusto, proprietário da Polysom, conversou com a Tribuna no final de 2011, pouco mais de um ano após ressaltar – ao Caderno Dois – quais seriam os planos da empresa para o ano que passou e os caminhos que o vinil iria tomar. Ex-diretor artístico da Polygram, o empresário adota um tom mais sustentável, saindo em defesa do politicamente correto ao promover medidas como o Black2Green, em prol do meio ambiente. A ideia? A mesma de sempre: seguir fornecendo discos para outros países da América Latina.

A parceria com a gravadora Deck, a busca incessante pela qualidade e a postura sem concessões contra a pirataria são outros assuntos que o empresário faz questão de destacar na entrevista. Tudo isso para legitimar sua fixação por um sabor diferente na música.

Tribuna – O que há de tão interessante no vinil que faz, até hoje, tantas pessoas ainda gostarem?

João Augusto – O vinil é fundamentalmente uma experiência tátil, visual e auditiva. Manusear as quase 200g do disco nas mãos, colocá-lo no toca-discos, observar magníficas artes estampadas em 31 x 31cm (contra os 12cm do CD), ler o encarte e a contracapa, trocar de lado e ainda ouvir um som que tem vantagens cientificamente comprovadas sobre qualquer som digital, tudo isso faz com que o vinil seja encarado como um fetiche, um objeto de desejo.

– A partir de qual momento você percebeu que o vinil, que já teve sua morte decretada tantas vezes, tinha o seu valor no mercado?

– O vinil nunca deixou de ser importante. Continuei comprando LPs e mantive meu toca-discos. Quando topamos entrar nessa verdadeira cruzada que foi a reativação da Polysom, não tínhamos muita ideia do quanto o vinil ainda era cultuado. Agora, a sensação é que o formato acordou de repente. Todo mundo fala em vinil e, ao que tudo indica, todo mundo quer vinil.

– Todo esse movimento em torno da volta do vinil se deve a uma onda retrô, à nostalgia, ou pela melhor qualidade de som que é atribuída aos LPs?

– Uma combinação. Essa onda retrô, por si só, não seria suficiente para fazer toda uma indústria crescer mais de 100% ao ano, como acontece com o vinil nos EUA.

– Por que acha que os artistas aderem a essa tendência, já que o custo de produção é considerado alto?

– A música deles ganha níveis tão mais elevados quando reproduzidas em vinil que até um gasto a mais passa a valer a pena.

– Então você acha que o vinil tem espaço no mercado de hoje, tomado pela tecnologia?

– Partindo da teoria de contrastes, creio que ele tem espaço justamente porque o mundo que está no outro extremo, é muito cibernético. Um pouco de romance, tradição e saudosismo sempre faz bem. O vinil não voltou para substituir nada, mas sim para se converter em mais uma opção de se reproduzir música.

– Qual o potencial do Brasil para o formato? E o da América Latina?

– Estamos certos que existe uma demanda, assim como estamos certos de que, economicamente, uma fábrica de discos passa longe de uma atividade lucrativa. Acho que conseguiremos atender o Brasil e mais Argentina e Chile, países onde o vinil é idolatrado. Então, se conseguirmos empatar e manter o negócio em atividade, teremos vencido.

– E vocês pensam em aquecer o mercado com a comercialização de novos toca-discos?

– Se isso estiver ao nosso alcance, sim. No momento em que qualquer fabricante se tocar que o vinil está voltando, ele terá condições de colocar aparelhos em produção em menos de seis meses. Assim, acredita-se que a demanda será tão grande que irá motivar fábricas a iniciarem a produção de toca-discos. É muito fácil para eles. Por outro lado, já há vários aparelhos de boa qualidade, com saídas USB, sendo vendidos em lojas e sites.

– Muito se fala que o peso do vinil (120 ou 180g) interfere na qualidade do som. Isso é verdade ou mito?

– É um comprovado mito, quando se fala em termos de som. Mas o manuseio de um disco de 180g é muito mais legal do que quando você pega um de 140g, por exemplo.

– Inicialmente, você havia afirmado que a Polysom seria apenas fábrica, que não faria produtos acabados (com capa, adesivos, plásticos de embalagem, etc) nem distribuiria diretamente às lojas. O que o fez mudar essa decisão?

– O foco inicial da Polysom era produzir o vinil, o que vai dentro da embalagem que as gravadoras e os artistas – e todos os clientes – sabem genialmente criar e produzir. A ideia era manter o foco, que já é difícil e exigente. Entretanto, depois de várias análises quanto a tributação e transportes, decidimos ampliar essa prestação de serviços e já estamos oferecendo o acabamento completo dos LPs e compactos. Embora os discos de vinil sejam um formato antigo que estamos trazendo de volta, muitas coisas têm sido adaptadas aos novos tempos, desde as próprias instalações da fábrica até a forma de fazer esses discos chegarem ao público. Como vivemos em um país enganchado em uma complicadíssima e onerosa malha de impostos, decidimos pela distribuição de produtos finalizados.

– Qual será a maior demanda da Polysom: artistas independentes ou de grandes gravadoras?

– Acreditamos que os independentes estarão muito atuantes e que as majors fabriquem maiores quantidades de cada título.

– Quais títulos você gostaria de reeditar pela Polysom?

– Grande parte deles já está sendo reeditada, graças às parcerias que temos conseguido com gravadoras como Warner, Universal e Sony Music, que (inclusive) nos licenciam grandes títulos para a série Clássicos em vinil. Ainda espero ter a felicidade de lançar Milton Nascimento, Tom Jobim, João Gilberto, Raul Seixas, todos dos Mutantes, Tim Maia, Beatles e muitos outros. Nos internacionais, a lista que desejamos é imensa. Mas confesso que vou me emocionar muito no dia em que a Polysom produzir os discos do Rei, Roberto Carlos.