Ouça agora

O peso do vinil


Por BRUNO CALIXTO

18/01/2012 às 07h00

Não há nenhum fator místico em colocar um LP para tocar. Se o CD vingou porque proporcionava vantagens nítidas em relação ao vinil, como a portabilidade, o menor espaço nas prateleiras, a capacidade para muito mais tempo e músicas, a facilidade para se ouvir a faixa que se queria em um simples toque de tecla, onde é que o "bolachão" ressuscitaria neste enredo? A digitalização está fazendo com que a música seja cada vez mais descartável, cada vez menos perene. Mas não é só isso. Assim como o CD surgiu como um produto perfeito para o mundo moderno que se desenhava a partir dos 1990, o bom e velho disco conserva uma profundidade de som que se perde nos formatos digitais. Mas até que ponto vale a pena arcar com o alto custo para manter a vitrola ligada?

A partir da retomada da produção de LPs pela Polysom – única fábrica da América Latina – em 2009, uma série de músicos conferiu seus trabalhos prensados em acetato. Um dos primeiros instrumentistas brasileiros a aderir à sessão "nostálgica" foi o juiz-forano Dudu Lima, ao lançar "Dudu Lima ao vivo no Cine-Theatro Central" em vinil no final de 2011. Encorajado pela reabertura da Polysom, o músico aproveitou o show em que recebeu o guitarrista Stanley Jordan para materializar um sonho antigo. "Sempre fui amante do vinil, mas quando comecei a gravar trabalhos meus, em 1998, essa fase, infelizmente, já tinha passado", conta Lima, em turnê de divulgação do álbum, cujas 300 cópias vêm sendo comercializadas por todo o país através do site www.dudulima.com.

De uma despretensiosa parceria de garagem que começou na internet, o grupo juiz-forano Fungos Funk, radicado em São Paulo, lançou em 2009 um EP em vinil, prensado em Londres, através do selo Vinyl Land. A obra ainda hoje dá retorno à banda, apesar do alto custo. "Só para entrar no país, a taxa é igual ao valor pago para prensar, mas vale a pena pela qualidade do produto", defende o vocalista Zebu, falando de dinheiro e explicando a parte técnica: "Principalmente pelo fato de o Fungos, inspirado na escola dos grandes que lançam LPs, manter um som mais encorpado, com o grave mais valorizado. Isto conta muito quando opta-se pelo vinil", assegura. À época, as 500 cópias custaram R$ 3.500, e o frete mais R$ 3.500. Por sorte, o atraso de 15 dias na entrega fez com que a fábrica britânica arcasse com o custo para as bolachas chegarem de navio ao Brasil.

O formato de "Dudu Lima ao vivo no Cine-Theatro Central", sugerida pela produtora Ligya Alcantarino, também tem chamado a atenção dos fãs do instrumentista. O custo "salgado" (não informado pelo músico) de produção, de acordo com Dudu Lima, compensa ainda por representar uma dificuldade extra para pirataria.

 

"Imperdível, pegou pegou, quem coleciona e toca conhece a dificuldade que é encontrar uma raridade dessas por aí. E mais um detalhe, o nosso não é pirata", diz Pedro Paiva, do Vinil é Arte. "Di Melo só não tem seu nome gravado ao lado de grandes como Tim Maia, Cassiano ou Jorge Ben, provavelmente, por ter lançado só um álbum. Agora, está de volta ao mercado graças a iniciativas voltadas ao vinil", arremata o DJ do coletivo, cujo site www.vinilearte.com vem comercializando o álbum a R$ 120.

Representante da GZ Media no Brasil, Clenio Lemos defende que a importação das obras, a despeito das altas taxas de transporte, tem vantagens sobre a produção nacional. "Os custos são bem menores, afinal (a fábrica europeia) tem 60 anos de história e faz mais de 150 mil cópias mensais", ele diz. Lemos credita o sucesso do relançamento de Di Melo, negociado com a Odeon pelo DJ Niggas (Vinil é Arte), ao acordo fechado entre o DJ e o compositor.

 

Um LP que teve o acetato bem cortado, as partes metálicas bem produzidas e a prensagem feita dentro dos padrões tem som invejável se comparado às novas mídias. A constatação é de João Augusto, proprietário da Polysom. "Não há improviso. A pressão da caldeira, o calor emanado, a resfriação, a niquelagem, o corte do acetato, as dimensões dos discos e rótulos, tudo isso tem que seguir à risca uma cartilha. Por isso demoramos tanto tempo para reabrir (a empresa). Vinil tem características muito próprias para ser produzido, desde a masterização, que já é diferente, até os processos por que passa: corte do acetato, galvanoplastia, prensagem etc", garante.

Dudu Lima ressalta o valor de comercialização do produto, podendo chegar a valer seis vezes mais que um CD, mas ressalta o custo mais alto. "Sem patrocínios, é inviável", apregoa. Para motivar a compra, diferentes ideias estão estabelecidas no exterior, como a inserção nos LPs de um código exclusivo para que o consumidor que comprou o vinil acesse o site e faça download do disco completo no formato digital ou tenha acesso a material extra.

No Brasil, segundo João Augusto, a carga tributária elevada, juntamente com a alta do custo de materiais, ainda emperra a popularização do processo. "Pode colocar que 66% do preço final de um LP é de impostos, culpa de uma cadeia tributária absurda que começa na aquisição das matérias-primas. Os impostos incidentes pelo caminho são Pis-Cofins, ICMS (substituição tributária inclusive) e IPI", comenta o empresário.

Pensando em atender ainda mais os amantes do "bolachão", a Polysom, em associação com a Band-Up (empresa de marketing), acaba de inaugurar um site de vendas (www.lojapolysom.com.br) que também pode ser acessada pelo próprio portal (www.polysom.com.br). Por lá, é possível encontrar todos os LPs fabricados desde que a empresa foi reaberta em 2009, tanto relançamentos – como o homônimo da banda Secos & Molhados, "Tábua de esmeraldas" (Jorge Ben), "Estudando o samba" (Tom Zé), "Cabeça dinossauro" (Titãs) e "Nós vamos invadir sua praia"(Ultraje a Rigor) – quanto lançamentos inéditos, como "Seiva" (Rancore), "Fome de tudo" (Nação Zumbi), "Onde brilhem os olhos seus" (Fernanda Takai) e "A trupe delirante no Circo Voador" (Pitty).