Exposição ‘Mecanografia’, de Fabrício Carvalho, inaugura Sala da Casa

‘Como fazer do livro uma obra de arte?’ é o que questiona a mostra que vai até o dia 26 no novo espaço da Rua Oswaldo Aranha


Por Cecília Itaborahy, estagiária sob supervisão de Wendell Guiducci

17/11/2021 às 07h00

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Fabrício Carvalho articula efeitos simbólicos do olhar, do tato e da presença em “Mecanografia” (Fotos: Gabriel Venzi/Divulgação)

Afinal, o que é um livro? É uma reunião de papéis com uma série de coisas escritas que, juntas, fazem sentido. As páginas vão sendo viradas aos poucos até que ele se fecha e volta à estante. Mas existe um outro lugar do livro, uma nova possibilidade de fazer e, inclusive, ler. Nesse campo entre o livro e a obra de arte encontra-se o livro de artista: basicamente, pode ser definido como artes que são feitas e pensadas para habitar esse espaço delimitado. Fabrício Carvalho, que se define como educaçãoarteprofessorartista (bloco em que suas atividades se misturam), diz que o livro tem essa denominação “quando não é só o suporte para comunicar algo diretamente a alguém”. A pergunta que ele sugere que seja feita, para delimitar essa denominação é: “como alguém faz do livro uma obra de arte?”
No início do mês passado, foi inaugurada, na Rua Oswaldo Aranha 163, São Mateus, a Sala da Casa: um espaço totalmente dedicado à exposição e à pesquisa do livro de artista. Ao entrar no espaço pequeno, uma série de cavaletes, que remetem a um atelier, serve de suporte para vários livros – alguns abertos, outros fechados. Uma lanterna é dada por Mariana Bretas, curadora da sala. Ao abri-los, estruturas singelas de madeiras finas e coladas entre si saltam pelas páginas. A luz da lanterna sobre as estruturas projetam, tanto na parede quanto nas folhas, novas configurações que fazem com que, como aponta Mariana, “a gente leia e se insira na obra. Não são só para ver, a gente faz parte”. Essas são as obras de Fabrício, seus livros de artistas que marcam a inauguração e permanecem na sala até o dia 26.

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O olhar, o tato e o fazer parte

Com o nome de “Mecanografias”, a exposição propõe uma nova perspectiva do fazer artístico. Fabrício conta que, com os livros, consegue realizar instalações em escalas menores e, ainda assim, ocupar as galerias. Ele se utiliza da mecânica do objeto para projetar espaços arquitetônicos que, da mesma forma que os em proporção real, possuem bordas. Sua ideia com isso é desafiar os limites e a lógica da engenharia. “O que me diverte é saber até que ponto eu consigo driblar o espaço e provocar a surpresa ao abrir o livro.” Os tamanhos e a disposição permitem fazer com que o espectador interaja com a obra, sinta a textura “e o efeito simbólico do olhar, do tato sensorial”, percebe Mariana. Fabrício diz que, nessa exposição, podemos encontrar três tipos de livro: os que abrem tradicionalmente; os que têm um formato sanfonado; e outros, multifacetados, que são dobraduras. Todos têm o movimento como foco principal, para fazer sentido. Cada um tem uma narrativa que pode se completar, apesar de sempre serem lineares. “A mecânica está incorporada. Esses livros têm outra dimensão dentro de uma exposição.”

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Novos modos de ver

O corpo também se faz presente nas arquiteturas no papel. As luzes das lanternas podem ser projetadas em qualquer lugar. Com essa outra materialidade, os caminhos para as interpretações são vários. Fabrício conta que as sombras foram inseridas para trazer, também, um pouco de dramaticidade, jogando com o peso e a leveza. Ao mesmo tempo, elas fazem relação com a ideia de intimidade do ler um livro, de uma luz particular para adentrar naquele mundo. Na parede de frente para a porta, com as luzes apagadas, várias palavras soltas rodeiam uma grande estrutura que é reflexo de uma das obras, que fica no centro da Sala da Casa. Mariana decidiu fazer o texto curatorial dessa forma, com palavras que significam muita coisa, para que elas também cumpram esse lugar de liberdade.
Na pandemia, em que o mundo mais próximo é o que se tinha à mão ao ler um livro, a curadora foi desenvolvendo essa ideia e adentrando no livro de artista, com a orientação de Fabrício. Com esse universo livre, a proposta é mostrar que “é possível criar sua própria narrativa. Desenvolver a partir de um lugar e ter relações estéticas com novos modos de ver, criando encantamento também”. Na inauguração da Sala da Casa, eles organizaram uma oficina voltada para crianças. Fazendo arte, Mariana entende que elas encontram uma nova forma de contar histórias.

‘Talvez eu seja um arquiteto frustrado’

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O artista Fabrício Carvalho

Para Fabrício, sua criação também é como uma brincadeira, ou um quebra-cabeça. Ele encontra nessa produção uma forma de materializar o tempo, com concentração e “abstração de um tempo pragmático”. Mas é também uma forma de elaborar sobre os espaços públicos. “Talvez eu seja um arquiteto frustrado”, brinca. Os pequenos pedaços de madeira dizem sobre certa precariedade, de acordo com ele, sobre o valor estético das ocupações. Dizem também sobre um espaço íntimo entre corpo e arquitetura dos móveis feitos desse material “que duram até virar resto de várias coisas”. Mas ele também não sabe bem o motivo – se é que tem de existir – dessa produção. E por não saber, ele conta que vai e faz. Esse nome, “Mecanografia”, ele acredita que tem tudo a ver com seu trabalho por unir sonoridade e a mecânica e também por uma terceira via para a qual não existe significado. É quando lida com o imponderável que ele produz arte.