Ouça agora

Repercussões do violão mineiro


Por RENATA DELAGE

17/11/2013 às 07h00

A parceria entre o violonista Juarez Moreira e os músicos da cidade vem de longa data. Mineiro de Guanhães, radicado em Belo Horizonte, Moreira faz questão de ressaltar a simpatia por Juiz de Fora e o amor por Minas e sua música, a qual representa em festivais e shows ao redor do mundo. O violonista se apresenta nesta segunda, no projeto Sessions, do Brasador Steakhouse, em show que conta com a participação especial do baixista Dudu Lima.

Tenho muitos velhos amigos por aí, e é sempre muito bom reencontrá-los. A facilidade de comunicação atual torna as parcerias cada vez mais frequentes, avalia Moreira, destacando a bela carreira e a versatilidade do baixista juiz-forano. No repertório da noite, estarão algumas das músicas do também compositor e arranjador, como Você chegou sorrindo e Baião barroco, além de obras certamente conhecidas de toda a plateia, de Tom Jobim, Beatles, entre outros, com novos arranjos.

A apresentação servirá ainda à divulgação do recente trabalho do violonista, o DVD Juarez Moreira ao vivo no Palácio das Artes, na cidade. Foi um trabalho muito benfeito, apresentado para um plateia que lotou os 1.600 lugares do teatro de Belo Horizonte, conta ele. Participam do DVD Wagner Tiso (piano), Nivaldo Ornelas (saxofone), Toninho Horta (violão), André Dequech (piano), Esdra Neném Ferreira (bateria), Kiko Mitre (contrabaixo), Mauro Rodrigues (flauta), Cléber Alves (saxofone) e o Quarteto Táron.

Um dos violonistas mineiros mais respeitados do mundo, Moreira começou cedo a dedilhar as seis cordas, por conta própria. Autoditada, aos 14 anos, como conta, já na capital mineira, interpretava canções de Jobim e Powell. O curioso foi que abandonei a faculdade de engenharia pouco antes de me formar, para me dedicar ao violão. Sou praticamente engenheiro, mas sem diploma, brinca. Acho que a vida do brasileiro sempre foi um pouco assim mesmo. Sem pensar muito no futuro, você vai vivendo o presente. E hoje vejo que tracei o caminho certo.

Ao longo da carreira, apresentou-se ao lado de grandes nomes da música nacional, como Milton Nascimento, Maria Bethânia, Wagner Tiso, Toninho Horta e Lô Borges. Estive cercado de boas referências. A partir da convivência com o Toninho e o Wagner, fui conhecendo todo o meio musical, diz o violonista, que relembra a reviravolta sofrida pela música mineira e nacional com a aparição do Clube da Esquina. Já fazia música e fiquei muito encantado. O Clube fez com que várias pessoas abraçassem a música, pois fazia um trabalho muito aberto. As influências de jazz, bossa nova, rock, música erudita, tudo isso apareceu no meu jeito de compor.

O Brasil no mundo

Apenas no último ano, Juarez Moreira se apresentou no Lincoln Center, em Nova York, ao lado de Ivan Lins, Ciro Batista, Chico Pinheiro e da Orpheus Chambers Orchestra – pelo projeto Bach Brasil, conduzido pelo maestro Robert Sadin -, excursionou pela Suíça, com os músicos Peter Scharly e Hans Feightwinter, e ainda esteve em Lisboa, com Nivaldo Ornelas, para as festividades do ano Brasil-Portugal.

Sempre existe um charme em relação ao músico brasileiro no exterior, ao samba, mas é importante pontuar que continuam conhecendo muito pouco da música do nosso país, opina. Para Moreira, os estereótipos tupiniquins acabam por camuflar aspectos fundamentais da nossa cultura. O músico brasileiro é muito respeitado, mas sua obra só é conhecida nos lugares especializados. A hegemonia anglo-saxônica é muito forte e bloqueia outras culturas. Digo isso sem juízo de valor, não é de todo bom, nem de todo ruim, acredita.

Nossa música é muito mais sofistica do que a Europa pode imaginar, segundo o violonista. Quando se vai à Itália, por exemplo, encontra-se uma música popular com poucos acordes. Quando tinham contato com nossos compositores, não associavam aquele trabalho rico e sofisticado ao Brasil, conta.

Discordando dos que acreditam haver um boom de música brasileira no exterior nos últimos anos – colocando a ressalva de artistas como Michel Teló -, Moreira destaca um grande momento fundamental ao conhecimento das composições fora do país. A bossa nova, com Tom Jobim e João Gilberto, foi o grande divisor. Existe um ufanismo que nem sempre corresponde ao real. Mas a bossa nova rivalizou com o rock no mundo e representa muito bem o país lá fora.

No próprio país, por outro lado, há, na opinião de Juarez Moreira, um grande crescimento da música instrumental. As leis de incentivo ajudaram bastante, há espaço para a música de qualidade, embora muitas vezes a popular que se ouve no rádio não seja a que representa essa qualidade. Os jovens tocam chorinho, aprendem a valorizar bem mais a nossa cultura do que os jovens nos anos 1970, que só se queriam saber de rock, compara.

Entre os dias 26 e 29 deste mês, Juarez Moreira figura como um dos organizadores do Festival Internacional de Violão de Belo Horizonte, realizado há sete anos. Em dezembro, participa do projeto Música do mundo, do Sesc, em São Paulo, que presta homenagem a Milton Nascimento, com direção musical e arranjos de Wagner Tiso. Integram ainda o evento na capital paulista os cantores Mônica Salmaso, Renato Braz e Mercedes Fraga, bem como os músicos Robertinho Silva (bateria), Luiz Alves (baixo elétrico), Dirceu Leite (saxofone e flauta) e Caíto Marcondes (percussão).

JUAREZ MOREIRA

Segunda, às 20h

Brasador Steakhouse

(Rua Machado Sobrinho 146 – Alto dos Passos).