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Como reinventar uma cidade?


Por MAURO MORAIS

17/11/2013 às 07h00

Num de seus poucos sábados de folga, o vocalista do grupo Eminência Parda, Edson Leão, resolveu ir ao cinema. Para sua surpresa, não havia muitas opções. A contragosto, mas considerando sua afeição às tramas de heróis, o músico assistiu ao filme "Thor 2". No dia seguinte a sua frustração, não se conteve e desabafou, via Facebook: "Estranhando minha cidade natal… Parece que ganha ares de cidade grande apenas na fachada e nos piores sentidos, enquanto se torna cada vez mais medíocre em aspectos que significariam qualidade de vida. Sua vida cultural crescentemente se reduz ao entretenimento de consumo e lucro fácil, à importação de atrações, à estética de exposição agropecuária (‘Ê ô ô, vida de gado’). Não se tem opções artísticas em termos de cinema, música, teatro, etc… A não ser raramente e de forma quase marginal e heroica (e parabéns a esses heróis e heroínas)", bradou no texto que guardava um final apoteótico. "Eu não sou um pessimista. Estou apenas assustado… e cansado… mas… outra semana começa e a luta continua. Tem muito trabalho a ser feito e uma cidade a ser reinventada…".

Além de causar algum desconforto em quem leu – foram mais de 120 curtidas -, Leão desejava resgatar o que de melhor viu e viveu na década de 1980, quando iniciou na carreira artística. "Apesar de a cidade ser muito menor, havia uma dinâmica cultural muito grande, com uma ênfase maior no caráter artístico e cultural das produções do que na questão entretenimento", recorda-se, abrindo a discussão sobre a identidade cultural do presente da cidade. "Precisamos usar o passado para pensar: ‘como uma cidade daquele tamanho produzia tanta coisa autoral, e hoje aceitamos a resposta de que o que vemos é o mercado?’", pontua.

Aos que apontam certo pessimismo no discurso do músico, ele se adianta e explica: "Os que são acusados de apocalípticos têm o papel de não deixar que o pior aconteça. Será que a gente não pode pedir mais de nosso tempo?". A pergunta retórica, para o ator e diretor teatral Marcos Marinho, exige reflexão sobre a sociedade atual, que, segundo ele, de uma forma geral, não se atenta para questões mais subjetivas. "Cada época é uma. O que acredito que esteja acontecendo, não só na cidade, é um desinteresse pelos acontecimentos públicos, de arte, pelos eventos coletivos", analisa. Segundo a professora da Faculdade Estácio de Sá e doutoranda em história pela UFJF, Virna Braga, os eventos de hoje não apresentam qualidade ou propósito capazes de incentivar as pessoas a ocupar espaços culturais abandonados. "Cresci frequentando o Parque Halfeld, hoje ele está completamente descaracterizado enquanto espaço de lazer", comenta. "Não há presente. Vivemos do passado. O hoje nos deixa sem futuro, sem uma perspectiva de mudança, daí a ‘robotização’", completa.

Natural de Juiz de Fora e radicado em São Paulo desde 1991, o músico Vagner Nazareth afirma que a cidade tinha um charme que, aos poucos, foi perdendo. "Antigamente tínhamos um exercício mais poético na lida com a cidade. As ruas e o casario de época davam um toque e uma inspiração que hoje não se vê mais. Quando digo que perdeu o charme, me refiro a esse terror do desenvolvimentismo sem escrúpulos que advoga a favor do feio, do massivo e do grotesco. Hoje a cidade está, como muitas outras, entregue ao inchaço populacional, à sujeira, à destruição do patrimônio histórico e também a essa decadência estética da cultura de massa alimentada pela grande mídia", revolta-se.

Nascido em São João Nepomuceno e residindo em Juiz de Fora desde 1983, o professor particular Ramsés Albertoni percebe um descompasso, mas também identifica os triunfos do movimento atual. "Penso que falta uma nova visão tanto aos que produzem cultura, quanto aos que a consomem", avalia ele, que pesquisa a cidade como o lugar antropológico da cultura. "É necessário entender a complexidade do mundo atual e tecer novas configurações existenciais e culturais que possibilitem um fluxo de informação que se transforme em conhecimento, capaz de nos agitar e renovar. Se vivemos uma desvalorização de nossos patrimônios culturais, essa situação é semelhante à desvalorização de nossas relações sociais e de nosso cotidiano, refém de hábitos arraigados e percepções ultrapassadas", analisa.

 

A grama do vizinho

Quando o médico e músico Marcio Itaboray falou, também na rede social, sobre a baixa estima dos cidadãos locais para com a cidade, muitos foram os comentários apontando o que seria a "síndrome do Juiz de Fora". No texto publicado, Itaboray reproduziu parte de um e-mail enviado a ele por um amigo, que preferia não se identificar. "A cidade parece que tem vergonha de ser bairrista. Aqui não se enaltecem os reais valores da nossa gente e da nossa cidade, diferentemente do que ocorre em outros municípios mineiros como Uberlândia, Montes Claros,Varginha e outros tantos", dizia o tal amigo. "Levei um susto com a repercussão", diz o músico, apontando para comentários que dizem até sobre uma necessidade em exorcizar o estigma que o próprio nome da cidade traz consigo. De acordo com alguns discursos, a expressão que diz "a grama do vizinho é sempre mais verde" faz todo sentido em Juiz de Fora.

"Acredito que o fato de estarmos muito próximos de cidades grandes, como Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte, faz com que nos sintamos pequenos", comenta Itaboray, concordando com a pouca valorização de espaços e artistas locais reconhecidos nacionalmente. Citado pelo médico e músico, o Cine-Theatro Central é um desses cartões-postais que não ganham as láureas devidas. Nesse sentido, o Museu Mariano Procópio, fechado desde 2008, também não desfruta de um tratamento à altura da relevância histórica e artística de seu acervo. O tempo é outro, mas a velha revanche entre a memória e a evolução, termos que não se excluem, permanece a mesma.

 

 

Os insistentes da resistência

De alguma forma, os que não viveram esse passado dito glorioso enxergam o presente de um ângulo diferente. As vozes dissonantes fazem parte do tempo que se vive, do agora, como o professor e poeta Tiago Rattes, 30 anos, um dos organizadores do Eco – Performances Poéticas. "Sou muito entusiasmado com a cena cultural do momento. Sou relativamente novo, mas acompanho este movimento desde cedo e o vejo atualmente com otimismo: há muita gente boa produzindo e sendo reconhecida mesmo fora da cidade. Tem uma nova geração engajada na articulação da cultura local. A cena no momento é muito rica", diz. Fazendo coro, Ramsés Albertoni enumera uma agenda que, em nada, parece monótona ou, sequer, vazia.

"Temos vários eventos em que poucas pessoas comparecem, como as mostras de arte nas poucas galerias, o ‘Festival de artes do corpo’, o ‘Cineduca’, o ‘Festival primeiro plano’, a ‘Mostra diversidade’ do Bordel sem Paredes, o cinema francês de autoria feminina no Ciclo de Cinema da FALE, o ‘Festival de cinema independente’ e o ‘Cinema em foco’, do IAD, o minicurso de música e semiótica com o professor catalão Ruben Lopez Cano, o ‘Eco’, o ‘Teatro Lido’ do Mezcla, as apresentações na Filarmônica e no Pró-Música, a mostra de cultura urbana do Espaço Diversão & Arte, as entrevistas do projeto ‘Memórias possíveis’ (do Museu da Pessoa), o Espaço Sesc de Cultura, o projeto ‘Microlições de arte’, no Mamm, a programação dos museus, o Forum da Cultura", indica Albertoni.

"As pessoas, hoje, só prestam atenção e só acreditam no que já foi repetido inúmeras vezes. Não é que o movimento dos artistas locais esteja enfraquecido, com menos qualidade, o público é que está ruim. As pessoas não têm mais tempo de ter identidade", avalia Marcos Marinho, que, mesmo após o fechamento do Espaço Mezcla, dá continuidade aos projetos desenvolvidos no lugar. Seria ele, então, um desses heróis apontados por Edson Leão? "Não penso em querer resistir, nem faço força para isso. Meu sentimento é de quem só sabe viver assim. Sou insistente, resistente nem tanto", comenta. "Eu diria que as dificuldades que existem na cidade para a produção autoral são naturais para o nosso porte. Por outro lado, Juiz de Fora tem características próprias que favorecem a efervescência cultural. Na poesia, por exemplo, há uma tradição autoral local. Juiz de Fora não ficou, em momento algum de sua história, sem um movimento de encontros de poetas", reflete, resgatando as revistas "Abre alas" e "D’Lira", ambas editas na década de 1980, quando poetas tomavam praças e outros espaços públicos com seus varais de poesia.

 

 

Incentivo que conforma

"O que falta aos nossos artistas, em especial aos escritores, é uma ambição maior de sair da cidade e mostrar seu trabalho para um número maior de pessoas. Muitos nem sequer conhecem a cena nacional. Esse diálogo é imprescindível", avalia Laura Assis, coordenadora do Aquela Editora, selo que tem se mostrado um dos "heróis" da nova cena poética de Juiz de Fora. Apontada pela classe artística como um dos maiores impasses de hoje, a continuidade das produções de arte é, para Laura, um dos principais pontos carentes de avanço. Enquanto na década de 1970 e 1980 eram necessários grandes esforços para se levar a público uma obra de arte, seja pela ausência de incentivos públicos, seja pelas frequentes censuras, atualmente o estímulo do governo tem servido a certo conformismo. "Em geral, as pessoas têm uma ideia de que o relevante é lançar um produto. Incentivo deve ser para ow início. É importante ir para outros lugares, ter outros impulsos, fazer circular", afirma Laura.

"Nas artes visuais, os artistas da minha geração sempre trabalharam em produções muito autorais. Venho dessa batalha, desse campo que é bastante difícil. Hoje, as pessoas ainda preferem colocar pôsteres nas paredes em vez de obras autorais. O Petrillo é um excelente exemplo de quem batalhou não apenas para se colocar no mercado, mas estimulando, por meio de sua galeria, outros artistas a fazerem o mesmo. Há espaço, e a luta é para ampliá-lo. Há uma classe forte de artistas da cidade que não se vende", avalia Valéria Faria, apontando para uma interessante conquista da cidade: "A criação do Instituto de Artes e Design (UFJF) em Juiz de Fora acrescentou muito na formação de público, na criação de espaços de discussão, produção e circulação das artes e na formação de novos produtores". Entre vencedores e vencidos, observar a cidade e compreendê-la dentro de seus limites e do que ela pode oferecer parece ser um primeiro passo para a reinvenção. Como diz Edson Leão, é preciso acordar disposto.