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Espetáculo do Ponto de Partida leva ao palco cirandas guaranis e cantigas africanas


Por MARISA LOURES

17/09/2014 às 06h00

O espetáculo leva para o palco quatro histórias

O espetáculo leva para o palco quatro histórias

O que faz a plateia sorrir, chorar, sonhar? “Alguns espetáculos têm esse borogodó, algo que encanta. Você não tem domínio sobre ele, e é isso o que ocorre com ‘Presente de vô’. Uma hora, a pessoa se reconhece no palco e diz: ‘preciso recuperar isso que perdi'”, diz a diretora e dramaturga Regina Bertola sobre o musical que o Ponto de Partida apresenta em Juiz de Fora nesta quarta-feira, às 20h, no Cine-Theatro Central, com trilha sonora executada ao vivo. A produção, que leva 50 artistas, entre 8 e 22 anos, para a cena, comemora os 15 anos de trabalho da trupe barbacenense com o coro Meninos de Araçuaí. Também será lançada a coleção com quatro CDs compostos pelas músicas e histórias da peça. A responsabilidade de tocar e arranjar 20 das 44 composições do setlist do disco é do grupo instrumental Pau Brasil.

“Esse trabalho se baseou numa extensa pesquisa sobre as origens da música brasileira na região dos meninos. Um estudo sobre as nossas raízes, sobre a música africana, e o que ela trouxe de herança para nossos grandes compositores e para a nossa musicalidade. É uma música totalmente nova, criada especialmente para esta produção”, afirma Regina.

O repertório passará por cirandas guaranis, cantigas de ninar africanas, batuques aprendidos com avós do Vale do Jequitinhonha, aleluias e vozes indígenas,Tom Jobim, Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano Veloso e Milton Nascimento. “Algumas composições e arranjos foram feitos por um integrante do coro que se formou na Bituca (Universidade de Música Popular, encabeçada pelo grupo). Pela primeira vez, uma criança brasileira tem a oportunidade de escutar uma canção guarani. Parece que a única língua que conhecemos é a inglesa. O que vai para a cena não é só o encantado, tem toda uma rede de dedicação, de amor. São pessoas ligadas aos mesmos propósitos.”

Depois de estrear em Barbacena – município em que o grupo está sediado e de onde sai para fazer sua obra correr o mundo -, o trabalho vem fisgando espectadores pela singela maneira de resgatar a memória. “É uma ligação entre os tataravós e o que há de vir”, ressalta a diretora, que se emociona ao falar sobre os personagens fantasiosos, engraçados e poéticos que habitam o “Esse lugar”. Quatro histórias se entrelaçam diante do público. Vô Cambeva restaura lembranças da memória. Quem esqueceu alguma por aí basta procurar a inusitada oficina. Tem também uma ilustre família possuidora do dom de viver sonhando acordada, e os catadores que catalogam as reminiscências em um baú para que elas não desapareçam. Já Temporina precisa resgatar as lembranças da infância porque está perdendo as cores.

Noite de faz de conta

Será uma noite de faz de conta. Os grandes cenários, os efeitos especiais e maquinarias darão lugar à simplicidade. Dos baús dos avós, saíram jaquetão, penhoar, rendas, tecidos, crochês e modelagens vistos nos figurinos. “Essa é a linguagem do Ponto de Partida. O musical guarda toda a qualidade, toda a excelência, mas é construído artesanalmente. A plateia percebe que tem um jogo cênico e compactua com ele. A iluminação é superespecial. Uma hora você pensa que está na memória e não está.” Fundado em 1980, o grupo retorna à cidade após cinco anos. Da última vez, aportou por aqui com a peça “O círculo do ouro”. “Está sendo muito especial poder voltar aí, pois é a segunda cidade que tem mais alunos na Bituca”, afirma Regina.

Entre os grandes nomes da cultura brasileira com quem o Ponto de partida trabalhou, estão Milton Nascimento, Fernanda Montenegro, Sérgio Britto, Paulo Grancindo, Jorge Amado, Manoel de Barros e Dory Caymmi. Em 2014, ele inaugura a Estação Ponto de Partida, no conjunto arquitetônico que abrigou a Sericícola, segunda fábrica de seda do Brasil. “Presente de vô” tem 80 minutos de duração.

PRESENTE DE VÔ

Nesta quarta, às 20h

Cine-Theatro Central

(3215-1400)