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Calendário de inspirações


Por JÚLIO BLACK

17/08/2014 às 06h00

Poderia um mero calendário, objeto ofertado aos montes a cada fim de ano e no qual mal prestamos atenção, servir de inspiração para uma obra de arte? Com o olhar adequado e a vontade necessária, a resposta pode ser um convicto "sim". Para o artista plástico mineiro Mário Azevedo, o calendário que ganhou do Museu de Arte Murilo Mendes (Mamm), anos atrás, com trechos de poesias do livro "Janelas verdes", de Murilo Mendes (no qual ele apresenta e comenta diversas cidades da terra de Camões), e ilustrações para a publicação da artista plástica portuguesa Vieira da Silva, aos poucos, tomaram outras formas em um caderno de anotações e resultaram numa série de aquarelas que estão na exposição "Janelas", no mesmo Mamm que lhe ofereceu o agrado que deve ter passado despercebido em inúmeras mesas de escritório. A cidade será a primeira a ver a exposição, conferida até 28 de setembro.

"Já gostava da poesia do Murilo, sabia da ligação dele com artistas europeus como a Maria Helena Vieira da Silva, e ganhei esse calendário. Comecei a fazer alguns desenhos no caderno sem compromisso e vi que estava indo além do que imaginava. Passei a me concentrar nisso, mostrei o conjunto de ilustrações no ano passado para amigos e conhecidos, e daí surgiu a ideia da exposição", explica ele, ressaltando que o poeta Júlio Castañon Guimarães, responsável pelo projeto da reedição da obra completa de Murilo, fez o texto que vai estar na mostra. No total, são 85 aquarelas (cerca de metade do que foi criado) retiradas diretamente do caderno, no formato 10x15cm, desenvolvidas ao longo de três anos e que propõem a associação entre cores, formas e palavras em um elemento único.

Para o artista plástico, as obras que serão apresentadas não diferem de seus trabalhos anteriores, que já envolvem o signo e a palavra. Enquanto algumas aquarelas são compostas por alguns dos seus trechos preferidos do livro junto a ilustrações, outras abrem mão das palavras para se concentrar nas imagens, e ainda há aquelas mais ligadas à artista portuguesa falecida em 1992. "A obra dela tem muitos elementos de grafismo, como se lembrassem ideogramas, por exemplo. Os dois já influenciavam meu trabalho há muito tempo, pelo menos 20 anos. O Murilo Mendes escrevia poesias para vários artistas modernistas europeus, como Miró e Picasso. O estilo dele de escrever era muito visual", elogia, ressaltando que os poemas escolhidos para a série foram escritos nessa linha.

Azevedo – que também é desenhista e professor do curso de belas artes da UFMG – diz que já trabalha em pelo menos três novas séries. "Costumo deixar três ou quatro (séries) em aberto, e vejo qual vai se desenvolver primeiro. Também venho trabalhando com fotografias artísticas atualmente, que já mereceram exposições."

 

"JANELAS"

De terça a sexta-feira, das 9h às 18h, sábados e domingos, das 13h às 18h. Até 28 de setembro

Mamm (Rua Benjamin Constant 790)