Outros tempos, mesmo endereço
Por muitos anos, os fins de tarde dos juiz-foranos foram preenchidos com passeios pela Rua da Califórnia. A elegante via era interceptada pela Rua Direita, local onde Murilo Mendes nasceu. O poeta, entretanto, passou parte da infância perto dali, na Rua da Imperatriz. Já o memorialista Pedro Nava faz divertidas referências à Rua do Sapo no livro Baú de ossos, antiga zona de meretrício da cidade. Por estranho que pareça, estamos falando de locais conhecidos de Juiz de Fora. Antes de serem rebatizadas como Rua Halfeld, Avenida Rio Branco, Rua Marechal Deodoro e Rua Fonseca Hermes, respectivamente, os logradouros da região central da cidade possuíam denominações bem diferentes, consonantes com os contextos político e cultural de outros tempos.
A propósito, a Avenida Independência pode ser a próxima a mudar de nome. Um projeto em análise pela Câmara Municipal discute a possibilidade de rebatizar a via como Avenida Itamar Franco, escrevendo no mapa da cidade uma homenagem ao ex-presidente morto no dia 2 de julho. Outro exemplo recente é o da Avenida Guadalajara, que passou a se chamar Avenida Mello Reis, em memória do ex-prefeito de Juiz de Fora, falecido em janeiro.
A lista de ruas que mudaram de nome em Juiz de Fora não é pequena. A Proclamação da República, em 1889, motivou uma das mais profundas mudanças na região central da cidade. Assim que a República foi proclamada, em 1889, as vias que homenageavam a monarquia tornaram-se motivo de incômodo. Na mentalidade da época, qualquer lembrança do Império poderia ser considerada símbolo de atraso. Em substituição, surgiam as figuras do Brasil republicano como status de modernidade. A Rua do Imperador amanheceu como Rua XV de Novembro, a Rua da Imperatriz passou a ser Marechal Deodoro, a da Liberdade, Marechal Floriano Peixoto. Isso espantou pela rapidez com que a Câmara Municipal agiu, uma instituição que teve como último presidente, no Império, o Barão de Retiro, filho do Barão de Juiz de Fora, o primeiro a presidir o Legislativo Municipal, comenta o pesquisador e diretor da Fundação Museu Mariano Procópio (Mapro), Douglas Fasolato.
Outros momentos políticos da história do Brasil deixaram suas marcas no mapa da cidade, como a Era Vargas e a ditadura militar. Durante a Segunda Guerra Mundial, a perseguição aos países inimigos dos Aliados motivou a alteração dos nomes da Rua Itália (que passou a se chamar Rua Oswaldo Aranha), e da Rua Berlim (atual Avenida Governador Valadares). O pesquisador e coordenador da Biblioteca Municipal Murilo Mendes, Vanderlei Tomaz, acrescenta outros exemplos à lista. Em 1922, quando comemoramos o centenário da Independência do Brasil, a então Rua do Botanágua virou Avenida Sete de Setembro. Com a chegada de Getúlio Vargas ao poder, o que era Rua XV de Novembro virou Avenida Getúlio Vargas. Depois do golpe de 1964, a mesma prática se deu: o que seria a Avenida Presidente João Goulart, o presidente deposto, virou Avenida Brasil, exemplifica.
Nos anos nascedouros de Juiz de Fora, a Avenida Rio Branco foi conhecida como Estrada Geral. À medida em que a cidade foi se desenvolvendo, a via cresceu em importância e passou a ser chamada de Rua Direita. Referências arquitetônicas também influenciam as trocas, caso do antigo Morro da Gratidão, que passou a ser conhecido como Morro da Glória, depois da construção da igreja em homenagem a Nossa Senhora da Glória. Já a antiga Rua da Gratidão, que cruza a região, teve o nome alterado para Avenida dos Andradas.
A tradição dita o nome
A tradição popular também rendeu nomes pitorescos a determinados logradouros de Juiz de Fora. Assim, elementos presentes em determinadas vias serviram como elemento de identificação, embora não haja comprovação de que esses apelidos chegaram a ser oficializados pela administração pública. Nesse sentido, a responsável pelo setor de memória da Biblioteca Municipal Murilo Mendes, Heliane Casarin, acrescenta os exemplos da Rua dos Jalões (atual Alencar Tristão), que se destacava pelas plantações desse tipo de árvore, e da Rua das Palmeiras (Rua Mariano Procópio), por conta das fileiras de palmeiras que até hoje ornamentam o parque do Museu Mariano Procópio e a 4ª Brigada de Infantaria Motorizada.
Da mesma forma, a grande quantidade de residências de imigrantes alemães fez com que a Rua Bernardo Mascarenhas fosse, por muito tempo, conhecida como Rua da Colônia. Já a Rua Osório de Almeida, no Bairro Poço Rico, era chamada de Rua do Cemitério por conta do Cemitério Municipal. A mesma via também já foi associada ao nome do empresário Pantaleone Arcuri, responsável por várias construções erguidas na região. No Bairro Santa Teresinha, a Avenida Rui Barbosa ficou conhecida como Rua da Tapera, em referência à fazenda que deu origem ao bairro.
Em contrapartida de todas essas mudanças, Heliane Casarin destaca a permanência do nome de ruas batizadas em homenagem a santos e divindades católicas, a exemplo da Rua Santa Rita, Rua Santo Antônio e Rua Espírito Santo, que sempre foram conhecidas como tal.
Batizadas em homenagem a personagens importantes da história de Juiz de Fora, algumas ruas tiveram seus nomes simplificados pela prática cotidiana, o que acabou sendo motivo de equívocos. Esse foi o caso da Rua Antonio Dias Tostes, que acabou conhecida como Antônio Dias apenas, criando margem para uma confusão entre um dos pioneiros da cidade e o bandeirante. No Bairro Vitorino Braga, a via que homenageia o médico Garibaldi Pires da Silva Campinhos – responsável pela construção do castelinho onde funciona o Colégio Santos Anjos -, foi por muito tempo conhecida apenas como Avenida Garibaldi, levando as pessoas a acharem que se tratava de uma menção ao herói italiano. Na tentativa de evitar a confusão, em ambos os casos, a recuperação da denominação original foi exigida por lei.









