‘Mais do que nunca é preciso falar de amor’: Ivan Lins faz show em Juiz de Fora neste sábado

Músico apresenta sua turnê em comemoração aos 80 anos de vida e 55 de carreira no Cine-Theatro Central, a partir das 21h


Por Cecília Itaborahy

17/04/2026 às 15h43

As canções de Ivan Lins são trilha sonora de várias vidas. O músico sabe a medida exata da canção de amor e da canção de protesto. O tom perfeito. Arranjos que, mesmo em outras vozes, têm o que ele chama de “célula mater” presente em seu extenso repertório. São 80 anos de vida e 55 de carreira celebrados na turnê que percorre o Brasil de norte a sul evidenciando o que ele acha ser mais importante hoje em dia: o amor. Juiz de Fora recebe o espetáculo neste sábado (18), às 21h, no Cine-Theatro Central. Os ingressos ainda podem ser adquiridos.

ivan lins
(Foto: Divulgação)

Em entrevista à Tribuna, Ivan Lins reviu sua trajetória ao mesmo tempo que falou sobre seus projetos. A luta, agora, como ele cita, é diferente daquela que fez seu nome crescer: pagamento justo pelas plataformas digitais aos compositores e controle mais rígido da Inteligência Artificial. A única certeza que tem é que sua música é eterna e continua sempre a sua música, por causa daquela “célula mater” que segue carregando.

Voltar à Juiz de Fora, para ele, é motivo de emoção: rapidamente volta aos anos 1970 quando vinha à cidade participar dos Festivais da Canção que foram fundamentais na sua carreira  – momento inclusive que conheceu os compositores mineiros. “Houve momentos inesquecíveis na minha vida. Juiz de Fora é uma cidade muito importante e muito significativa na minha carreira musical.”

Tribuna: Você chega a Juiz de Fora celebrando seus 80 anos de vida e 55 de carreira. É uma trajetória e tanta. Como é pra você rever toda sua carreira?

Ivan Lins: Muitas das músicas do começo continuam sendo cantadas até hoje. Na verdade, é como dizia o Paulinho da Viola: “O passado não existe”. Quando você traz o passado para o presente, tudo está no presente. Não tenho aquele sentimento de saudosismo. Mas estou em contato com o meu passado no presente o tempo inteiro. Então, torna-se presente. Porque eu estou sempre em contato com a minha música, e é muito agradável isso. Eu gosto muito da minha obra e tenho maior carinho pelo meu trabalho.

Suas músicas são trilhas sonoras de diversas novelas. Elas são, inclusive, a cara delas. Hoje em dia, a gente percebe que a Inteligência Artificial tem tomado muito esse lugar da trilha nas produções. O que você acha desse cenário?

Bom, a diferença é que uma é eletrônica, ela é feita por máquina. E a outra é humana. Evidentemente que se não se tomar muito cuidado com a Inteligência Artificial, o que vai acontecer é que a música humana desaparece, né? Existem alguns filósofos, alguns pensadores, futurólogos, dizendo que daqui a 20, 30 anos a juventude não vai saber o que é um saxofone, o que é um trompete, um trombone e violão de sete cordas. E eu acho que isso é um perigo muito grande para o mercado e para o meio musical mesmo, desde os produtores até os músicos, artistas, cantores, compositores. Eu acho que é preciso que os países, não só o Brasil, mas todos os países, comecem a tomar medidas sérias, criar leis e regras mundiais para não permitir que a Inteligência Artificial acabe ocupando o espaço humano, o trabalho, e o emprego. Seria uma tragédia.
E as novelas, que foram um grande veículo para minha música chegar ao grande público, evidentemente que também desemprega o compositor, desemprega o produtor, o arranjador, todos os músicos que trabalham nas televisões, nas novelas que produzem a trilha sonora. Então, fica aqui um alerta: Inteligência Artificial tem que ser controlada.

Sua sofisticação harmônica é única. Dá para “bater o olho” e perceber que se trata de uma música sua. A que você acha que se deve essa diferenciação?

Olha, eu tenho a minha personalidade musical que vem desde que eu me conheço por gente, desde lá dos 2 anos de idade quando eu morava nos Estados Unidos e as primeiras canções que eu escutei foram canções americanas. E depois aos 5 anos, quando eu voltei para o Brasil e comecei a incorporar também as canções brasileiras e tudo, e fui formando o meu gosto musical. E esse gosto musical se tornou a base, a célula mater da minha arte, da minha música, das minhas composições. E essa célula mater continua ativa até hoje. O que faz com que a minha música tenha sempre a minha cara. Eu não mudei muito. O que mudam, na verdade, são os arranjos, a concepção de arranjo, de sonoridade, a instrumentação. É essas coisas mudam, mas a composição em si, no seu no seu âmago, na sua alma, continua sempre a minha música.

Suas músicas seguem sendo muito regravadas. Como é ter essas canções atingindo novas gerações a partir de novas experimentações?

Eu acredito que pelo fato de que eu sou compromissado com a beleza e acho que a beleza ela passa, ela supera a questão do tempo. Beleza é beleza, o que é bonito é bonito e vai sempre de acordo com o gosto de cada um. Então, assim, são pessoas que de uma certa maneira tem um um gosto parecido com o meu. E isso vai para qualquer idade, para qualquer tempo. Apesar de que a existe hoje um bombardeio de canções, de música mais eletrônica, uma música menos burilada, menos sofisticada. Mas eu acho que a formação pessoal do ouvinte é uma coisa que vem da educação dele, do ambiente que ele vive, de como ele se formou como pessoa. E muita gente consegue desenvolver um gosto que fica parecido com o meu. Então, isso vai continuar sempre, vai sempre ter gente que vai gostar da minha música.

Há hoje em dia a discussão sobre os direitos das pessoas que criam as canções. Queria que falasse sobre esse momento e sua luta nessa frente.

Bom, isso é um problema sério, porque na verdade os novos veículos de comunicação que estão dentro da internet, que são chamados de plataformas, elas criaram esse modelo e quando criaram esse modelo, precisando de catálogo, procuraram em primeiro lugar as grandes gravadoras, que são elas que têm os grandes catálogos e fizeram um acordo dentro de quatro paredes, porta fechada, trancada, e não consultaram ninguém. O que acontece é o seguinte: as gravadoras ficaram com 50%, as plataformas com 30%, as editoras com 10% e sobrou 10% para os compositores e aqueles que produzem música.
E o que acontece é que dividir os últimos 10% pela quantidade de compositores, músicos, artistas, cantores, realmente tornou-se inviável conseguir se viver de música, a não ser quando você consegue quase 1 bilhão de pessoas consumindo a sua música para ganhar um dinheiro bom para poder sobreviver.
Isso precisa mudar, porque nós que produzimos o material que é comercializado pelas gravadoras e pelas plataformas fomos para o final da fila. E isso é inaceitável. Eu acho que também, além do problema da inteligência artificial, o problema também das plataformas precisa ser resolvido. Vários compositores internacionais como Paul McCartney, junto com vários colegas famosos da música inglesa, também estão em atividade para tentar mudar essa situação. Realmente é um problema sério para a sobrevivência dos compositores. E se você soma a Inteligência Artificial a esse problema, a tendência dos compositores desaparecerem é muito grande. São problemas que o mundo digital e a internet criaram para quem realmente faz música para o grande público.

Sua geração tem uma “turma da pesada”, e inclusive muitos são seus parceiros. O que você acha que foi fundamental para que essa “turma” se reunisse naquele momento?

Aquela época a turma tinha um mercado musical que era muito favorável a músicas mais sofisticadas, às músicas com a criação mais profunda, mais estudada. E isso foi o fator que fez com que nós nos tornássemos muito conhecidos no Brasil inteiro. Inclusive porque a mídia aberta divulgava para todo o país imediatamente a nossa produção, os festivais ajudavam muito. Aliás, foram extremamente importantes naquela época para colocar o nosso trabalho para o grande público brasileiro. E era feito tudo ao mesmo tempo, de norte a sul, e as pessoas tomavam conhecimento dessa música. E o tempo foi mudando, foi mudando, e eu acho que hoje em dia nós vivemos do nosso próprio nome e porque nós fizemos naquela época que o país conhecesse a beleza da nossa arte, a profundidade de nossa arte e essa arte continua viva até hoje. Quando a gente canta nos shows, o público todo canta junto. E isso é maravilhoso.

Você doou parte de seu acervo ao IEB/USP e ao MIS. Queria que você falasse sobre essa ação e a importância de popularizar o acesso a esses manuscritos.

Quando você produz uma música e você leva ao grande público, ela de uma certa maneira passa a não te pertencer mais só. Ela passa a pertencer às pessoas que consomem essa música, que gostam e consomem. Então, assim, eu divido muito a minha obra com o público. E eu acho importante deixar para as futuras gerações a minha história musical para que todo mundo conheça e possa estudá-la, porque a gente precisa fazer com que nossa música continue atuando não só na execução pública, mas também na parte técnica, na parte de estudos e pesquisas. Por isso eu resolvi começar a doar em vida todo o meu acervo para que conheçam a minha vida e meu processo de vida, e como esse processo de vida interviu na minha obra.

Aos 80 anos de vida e 55 de carreira, quais são seus planos para o futuro?

Meus planos do futuro são bastante simples. Continuar me apresentando, levando a minha música ao grande público brasileiro e ao mundo. A minha proposta lá fora é sempre mostrar o meu país para que eles possam se sentir atraídos e virem aqui visitar, conhecer a música brasileira in loco. E (outro plano é) fazer projetos. Como tenho agora. Eu estou acabando um projeto sobre meus sambas, com a sonoridade tradicional, com grandes músicos participando e alguns sambistas também. E outros projetos que eu pretendo fazer com orquestras, projetos com convidados, um projeto feminino, um projeto de jazz. Eu tenho muito projeto e pouco tempo para realizá-los. Mas é assim, eu vou devagarinho tentando fazer um ou outro e continuar na estrada, levando sempre a minha música para as pessoas, porque o contato com o público é uma coisa que me comove muito e me dá muita coragem para continuar produzindo e sendo um bom cidadão, uma pessoa do bem dentro desse país.

Por fim, queria que falasse sobre essa turnê comemorativa e o que podemos esperar desse show.

Bom, essa turnê tem mais espetáculos pelo Brasil, também estamos preparando um espetáculo em Portugal, porque eu tenho um grande público lá e um grande interesse pela minha música. E esse show eu faço um apanhado por temática. Eu falo muito de amor, muito de afeto, porque o mundo tá muito conturbado. É bacana falar hoje de amor, mais do que nunca é preciso se falar de amor, de bons sentimentos, passar uma mensagem de esperança, uma mensagem boa para as pessoas, para que elas saiam do teatro com a moral lá em cima, dar um lazer bastante agradável para as pessoas. Meu show tem muita energia, eu tenho uma banda maravilhosa, os arranjos são maravilhosos, tem arranjos novos e tudo. Canto duas canções inéditas. É um espetáculo que eu adoro fazer, eu estou amando fazer e eu espero que o público de Juiz de Fora possa curtir também como eu curto. Estou muito feliz e estou aguardando mais do que nunca estar aí para poder cantar para esse povo maravilhoso.