A leveza do pensamento livre

Escritor lança a obra hoje (Divulgação)

A palavra não é muda. E quando muda de tom, ganha ainda mais voz. As palavras, quando mudam de ordem, ardem. Quando se desintegram, podem ser ainda mais íntegras. “Duas/ vidas/ dúvidas”, diz o poema, curto, de Nathan Itaborahy em sua estreia na literatura, com “Devaneios necessários” (Funalfa Edições, 77 páginas), cujo lançamento acontece nesta quarta (16), às 20h, na Livraria Liberdade. Leve, como a demonstrar a juventude do autor de 28 anos, e despretensioso, como a revelar a relação sem obrigações do mestrando em geografia pela UFMG com a escrita, a obra expressa um encantamento pelo texto.
“Esse livro é como se fosse registro do meu processo de descoberta da palavra. Sempre escrevi, sempre precisei dela, mas comecei a olhar para ela de outro jeito. Muitos textos escreveria de maneira diferente hoje, mas mantive para mostrar esse momento da redação. Há certa imaturidade, mas que mostra essa possibilidade de fazer poesia no dia a dia”, pontua Nathan.
A necessidade, segundo o autor, serviu de pena. Quando se mudou de Juiz de Fora, para cursar o mestrado, se fez preciso guiar o texto para uma expressão sincera. “Comecei a sofrer com a frieza da linguagem acadêmica e, de uma forma natural, comecei a fazer poeminhas. É uma necessidade da arte na minha vida, que só percebi quando a tirei do meu cotidiano”, conta o baterista da banda Blend 87. “Me propus ter foco na academia, mas habito o conflito, eternamente”, completa.
“Em ti/ entulho/ eu-meu”, escreve Nathan, o mesmo autor de “Fatos pousam em mim”, ou “Num leve passo, passa/ levo o que posso”. Ainda: “Vagabundo,/ trabalho-me”. Por todo canto do livro, cantos rápidos. “No texto acadêmico tenho que fazer referências, cumprir espaços. Já na poesia descobri um espaço livre, aberto”, pontua o autor. Modesto? “Gastei minha pretensão com outras coisas. Quero é escrever sem a preocupação com os protocolos”, responde.
Para Nathan, mais do que uma exposição, a publicação se faz como contrato com as fartas possibilidades das palavras. A qualquer momento, um momento para redigir o que o pensamento oferece. “Penso na poesia no meio do furacão. O lampejo é como se fosse uma pausa no caos. Um grito numa cidade veloz. É necessário parar para pensar no que não pensamos rotineiramente”, diz. “Esse é um esforço de entender a poesia como algo que brota da vida o tempo inteiro. Muita coisa gravo no celular. Estou sempre muito acelerado, e escrever me faz dar uma pausa”, acrescenta.
Palavra cantada
O que soa simples ressoa vigoroso justamente na síntese. A opção pela redução, pelas formas das palavras, resulta em artifício sensível de alguém que não tem na escrita literária uma escolha profissional, mas conhece bem a terra onde pisa. Entre suas referenciais leituras, Nathan Itaborahy cita Hermann Hesse, Mia Couto e Gonçalo M. Tavares. Fala, ainda, de outro escritor do qual se faz inegável seguidor: Paulo Leminski. “É um cara com quem tive certo encantamento e de onde tirei essa magreza dos lampejos, das rapidinhas”, comenta, para também dizer de um contido Manoel de Barros, do qual subtrai a singeleza dos pequenos atos.
“Sou-só-som”, grita um poema rápido, demonstrando a estreita relação do autor com o universo da música. “Tenho a intuição de que música e poesia são a mesma coisa. Nós falamos cantando, entoando. Por outro lado, a música sem poesia, sem a força da palavra, cai no esquecimento. A palavra existe quanto imagem, mas também como som”, comenta ele, que de um lado da família tem um avô músico e, do outro lado, primos e tios, como Roger Resende e Marcio Itaborahy. “Tenho uma raiz musical”, conclui Nathan.
Como a oferecer um palco, o músico-poeta insere, logo no início do livro, um bloco para que leitores também se aventurem pelos lampejos cotidianos. Segundo Nathan, as oportunidades da escrita não podem ser negligenciadas. “Esses dias, fui ajudar meu irmão numa mudança e pintaram três versos: ‘Mudança cansa’, ‘A faca tá fraca’ e ‘Acabou? Não! Só falta o so-fá’. No banal, há muito potencial para um texto foda”, brinca. Os devaneios, conforme diz, são necessários, a ele e a todos. “Quero viabilizar um diálogo, pode até ser pretensioso, mas é um desejo sincero. A poesia é leve.”
“DEVANEIOS NECESSÁRIOS”
Lançamento do livro de Nathan Itaborahy
Nesta quarta-feira (16), às 20h
Livraria Liberdade
(Rua Benjamin Constant 801)









