Disposto a renovar
Nos tempos áureos do carnaval dos corsos e das batalhas de confete, Ney Gerald Gouvêa encontrou o seu universo particular. Não é apelido, o nome, registrado na certidão de nascimento, ajuda. Foi num desfile pela Turunas do Riachuelo, primeira escola de Minas e terceira do Brasil, que o então jovem Ney se aproximou do carnaval juiz-forano, de onde não pretende sair jamais. Natural de Marilack (MG), ele, no auge dos 50 anos, atingiu sua meta este mês, deixando o posto de presidente do conselho deliberativo do carnaval para ser eleito como o novo presidente da Liga das Escolas de Samba de Juiz de Fora (Liesjuf), cargo que, pelo regimento, ocupará no triênio 2011-2014.
Entre as rodas de samba de raiz e pagode, Ney Gerald é um homem de família. Só que agora, além de dois filhos, ele tem pela frente a desafiadora tarefa de cuidar das 15 agremiações vigentes na cidade. Paixão e fôlego para isto parecem não faltar. "Os primeiros passos estão sendo as reuniões com os presidentes das escolas, buscando coerência para deliberarmos com dignidade as propostas vindas das comunidades", sublinha Ney, em entrevista, por e-mail, à Tribuna.
Portelense e admirador da Estação Primeira de Mangueira no Rio, o presidente, não fugindo à regra, já dá pistas de sua pretensão de não se indispor com ninguém. Sem revelar por qual escola seu coração bate mais forte em Juiz de Fora, ele também se esquiva ao elencar carnavalescos locais que merecem sua admiração, deixando escapar, mais uma vez, só exemplos da Cidade Maravilhosa (Joãozinho Trinta e Max Lopes), sugerindo o quanto vai considerar a folia carioca em sua tomada de decisões por aqui. A primeira cartada, inclusive, foi lançada esta semana, durante reunião da nova diretoria da Liesjuf com o prefeito Custódio Mattos, ocasião adequada para as primeiras reivindicações de mudanças em o carnaval local já para o próximo ano.
Tribuna – Ao requerer a mudança da data dos desfiles em Juiz de Fora para uma semana antes dos desfiles no Rio, o que a cidade pode ganhar?
Ney Gerald – É fácil explicar essa antecipação, apesar de estarmos aguardando a resposta da administração para realmente concretizar a proposta. Caso seja negociada a mudança, poderemos então interagir com as comunidades juiz-foranas e cidades vizinhas para, assim, atingir um público maior na passarela do samba, já que estaríamos saindo do tradicional desfile das agremiações carnavalescas cariocas, em que há muitos adeptos de Juiz de Fora. A ideia é também dar oportunidade àquelas pessoas que viajam no período oficial do carnaval de participar conosco da maior cultura popular brasileira.
– Como pretende angariar fundos para a Liga?
– Apresentamos ao superintendente da Funalfa, Toninho Dutra, e também ao prefeito um projeto chamado "Lona cultural", em que a Liga das Escolas de Samba, por meio da Lei Rouanet, do poder público municipal e de empresas privadas, possa angariar fundos para promovermos eventos beneficentes com parceria de entidades filantrópicas, trazendo para dentro deste projeto o apoio de toda a sociedade.
– Com quem vai contar em sua gestão?
– Com o apoio das escolas de samba. Não vou administrar vaidade pessoal de ninguém, queremos nesta gestão somar com todos os interessados pelo carnaval e contar principalmente com o apoio da Prefeitura, por meio da Funalfa.
– R$ 2 milhões investidos na festa são suficientes?
– Desta verba, são repassados à Liga somente R$ 600 mil (o restante é investido em infraestrutura), valor dividido para as 15 agremiações carnavalescas. E para valorizar ainda mais este repasse, as escolas, com o intuito de mostrar um grande espetáculo na avenida, investem, em média, de 50% a 60% a mais no seu carnaval. Com isso a Liga das Escolas de Samba espera que o poder público veja o esforço das agremiações, pensando melhor no carnaval de 2012. Quem sabe 20% de acréscimo no valor repassado?
– Você acha o nosso carnaval amador?
– Em momento algum nosso carnaval é amador, uma vez que essa festa popular emprega, nesse período, em média, mais de duas mil pessoas direta e indiretamente, fora os voluntários e apaixonados por suas agremiações que dão o sangue para colocar as escolas na avenida.
– Você pretende aumentar o número de jurados?
– Já foi definido que teremos três jurados por quesito, tirando assim a responsabilidade de um só jurado cometer um erro, que pode gerar a descida e/ou a subida de uma agremiação injustamente.
– Alguma proposta para formar carnavalescos?
– Falta ainda em Juiz de Fora o interesse maior para que possamos juntos criar um seminário que possibilite a formação de profissionais na área, o que estamos empenhados a viabilizar.
– Muitas alas de baianas, por exemplo, saem com diretores de escolas, pelo simples fato de a ala, obrigatória, não atender ao número mínimo exigido. O que falta para articular com a velha guarda e atrair estas pessoas de volta à festa?
– Falta às agremiações carnavalescas e a suas diretorias interagir mais com as famosas baianas, e isto conta ponto. Parabenizo a Turunas do Riachuelo e o Partido Alto por apresentar muito bem vestida sua velha guarda.
– O que Juiz de Fora precisa para alavancar seus desfiles e voltar a ser um dos melhores carnavais no Brasil?
– A construção do sambódromo para que possamos ter um local definitivo para os nossos desfiles, assim podendo interagir não só com as nossas comunidades mais com as cidades vizinhas, o que oportunizaria esta retomada.









