Livro ‘Os tesouros da vovó Geny’ narra história que originou creche comunitária na Zona Norte de Juiz de Fora

Escrito por Célia Barbosa, diretora da creche, livro narra vida e legado de Maria Geny Barbosa e será lançado nesta semana pela editora Autoria


Por Beatriz Bath*

16/04/2026 às 06h00

vovó geny livro
Célia Barbosa, autora do livro (Foto: Divulgação)

“Muita gente conheceu minha mãe”, diz Célia Barbosa, autora do livro infantil de colorir ‘Os tesouros da vovó Geny’, que narra a história da vida da família e o legado da Creche Comunitária Antônio e Maria Geny Barbosa, localizada no Bairro Santa Cruz, na Zona Norte de Juiz de Fora. Originado da vontade de contar a história da vovó Geny, o livro será lançado nesta sexta-feira (17), na Autoria Casa de Cultura, às 19h.

O livro foi feito a partir de ilustrações e uma narrativa que segue a vida e história de Geny, bem como suas obras. A ideia é que a criança possa colorir as ilustrações enquanto aprende, contando com o adicional opcional de bonecos que representam Antônio e Maria Geny Barbosa.

O casal decidiu sair de uma colônia rural de Campestre e se mudar para Juiz de Fora na década de 1970. Com seus dez filhos, a família veio em uma Kombi azul após precisar recomeçar mais de uma vez: moravam em uma pequena casa de pau-a pique, que desabou com as chuvas.

Célia, filha do casal, conta que Geny era uma médium com muita fé. “Foi numa chuva muito grande, minha mãe colocou todos nós na cozinha e rezou, pedindo pra Deus, dizendo ‘a casa toda pode cair, menos a cozinha’. E foi o que aconteceu, a casa toda caiu, mas a cozinha ficou intacta.”

Ela explica que seus pais vieram para Juiz de Fora com a missão de ajudar os outros. Por conta disso, criaram duas obras, a Associação Espirita Padre Antônio Vieira, com mais de 40 anos, e a Creche Comunitária Antônio e Maria Geny Barbosa, fundada nos anos 2000 – que Antônio não chegou a ver em vida -, ambas atendendo a comunidade do Bairro Santa Cruz, por meio de patrocínios e verba pública.

vovó geny livro
Célia com fotografia que inspírou a capa do livro (Foto: Felipe Couri)

Hoje, Célia é diretora da creche, que atende  106 crianças – de 1 a 3 anos -, e gerencia um centro de convivência para crianças de 7 a 14 anos, que atende 20 pessoas. Motivada pela vontade de compartilhar a obra de Geny, ela decidiu escrever a história de sua mãe e sua obra em formato infantil, eternizando seu legado.

Tesouros guardados no coração

Célia sempre viu muita gente procurando conforto por meio de seus pais e suas atividades na doutrina Espírita. Ela relata que seus irmãos dividiram a mãe com outras pessoas, sendo encorajados a cuidar também uns dos outros. Com dez crianças na casa, ela brinca “parecíamos uma creche mesmo”.

Hoje, a diretora da creche transforma a história de sua família em projeto pedagógico: a Kombi azul em que vieram para Juiz de Fora leva as crianças da creche para passear e até inspirou uma música autoral, cujo QR Code está no livro. Os quitutes preparados por Maria Geny são parte da rotina da instituição, onde as crianças plantam o que desejam preparar em uma horta própria.

vovó geny livro
Célia e sua mãe em uma de suas obras (Foto: Felipe Couri/Divulgação)

A ideia é que o livro possa ser usado no planejamento de professores para tratar de diversos temas de forma lúdica. Célia também faz um trabalho de historiadora por conta própria: através da mala viajante, que conta com o livro e bonequinhos que representam Antônio e Maria, as crianças levam a história para casa e retornam com um relato sobre a vovó Geny ou outro “tesouro”.

vovó geny livro
Contação de história do livro, que conta com bonecos de Antônio e Maria (Foto: Felipe Couri)

“Todo mundo tem tesouros guardados no coração, e as crianças são o tesouro da Geny”, explica Célia. Ela reúne os relatos que recebe em portfólios, divididos por ano, que são apresentados na Festa da Família, realizada na creche. Através desse exercício, ela mantém a memória de uma comunidade viva.

A própria Célia compartilha os tesouros que guarda no coração ao relembrar com carinho como encarou a responsabilidade de gerenciar a instituição. Antes da morte da mãe, em 2019, elas tiveram uma conversa sincera, em que Maria Geny pediu que a filha cuidasse da creche apenas se não fosse um peso muito grande.

A filha encarou a missão, sabendo do tamanho da responsabilidade: a creche realiza campanhas de arrecadação, trabalho de acolhimento, assistência social e outros serviços. “Muita gente achou que a creche fosse fechar, mas eu nunca achei isso. Nem um dia.”

“Quando você é referência pra alguém, você se sente valorizada”, explica Célia sobre carregar o nome dos pais na creche e seu legado. Ela conta que é gratificante saber que os alunos que passaram pela creche hoje estão fazendo “algum sucesso” e fazem o movimento de retorno à creche, atuando como voluntários.

Colorindo uma vida

Para a editora responsável pelo livro ‘Os tesouros da Vovó Geny’, Carol Canêdo, o desafio era construir uma obra interativa, mas significativa, que não fosse meramente uma sequência de imagens a colorir. “Marcamos essa diferença no cuidado com a sequência da narrativa (escrita e contada pelas ilustrações), no QR que possibilita o acesso ao vídeo em que se canta musiquinha da Kombi e no mosaico de fotos de memória afetiva da Célia”, destaca.

“O que Dona Geny fez, e que hoje é seguido pela filha Célia, foi dedicar sua vida ao próximo, transformando uma comunidade. Projetos como este nos aproximam do que acreditamos ser o papel da literatura e da educação: transformar vidas, de forma individual e coletiva”, continua.

Célia e seus parceiros realizam, todo mês, eventos de distribuição de cestas básicas para a comunidade e ofertam serviços de assistência social. O objetivo do livro é ter sua renda 100% convertida para a creche, sem fins lucrativos.

Lançamento

O evento de lançamento na sexta é gratuito e terá um momento especial, em que será cantada a música que embala as crianças da creche e que está no livro. “A data foi escolhida em celebração ao Dia Nacional do Livro Infantil, e também por ser o mês em que Geny desencarnou. Simbolicamente, dizemos que a vida se estende pela memória. E o livro é o registro da memória”, diz Carol.

Célia conta que está ansiosa. “Nunca fiz um livro, nunca fui uma autora e nunca pensei em ser. Nunca imaginei que ia sair de um papel.”

Célia, que afirma não se sentir sozinha mesmo com a perda da mãe, pai e dois irmãos – que estão presentes de outras formas para a doutrina Espírita – , diz que espera ansiosa os próximos passos. “O que vai ser, será.”

vovó geny livro
Célia e suas irmãs (Foto: Divulgação)

*Estagiária sob a supervisão da editora Gracielle Nocelli