A guitarra, o papel e as canetas de Marcelo Gross

Ex-integrante da banda Cachorro Grande lança “Tempo louco”, seu disco mais recente, no Muzik, nesta sexta-feira


Por Cecília Itaborahy, estagiária sob supervisão de Wendell Guiducci

15/12/2021 às 07h00

Marcelo Gross
Marcelo Gross celebra nesta sexta, no Muzik, a alegria de seguir fazendo rock and roll (foto: Diego Basaneli/Divulgação)

A trajetória de Marcelo Gross seguiu aquele imaginário que algumas crianças têm: ser roqueiro e ter uma banda com um grupo de amigos próximos que compartilham do mesmo sonho. Ainda pequeno, nos anos 70, o guitarrista, ex-Cachorro Grande, ouviu um disco dos Beatles e, desde então, nunca mais parou. “O que eu ouvia enquanto criança é o que eu ouço até hoje”, diz. Ele começou experimentando a bateria, na sua primeira banda, Laranja Mecânica, ainda jovem no Rio Grande do Sul, entre 1988 e 1990. Depois de um tempo, entendeu que, para fazer parte das composições, precisaria “estar à frente de uma banda, não limitar as ações”. A forma encontrada para mudar isso foi virar guitarrista e, depois, também cantor. É essa versão “frontman” de banda de rock que ele apresenta no palco do Muzik, nesta sexta-feira (17), a partir das 22h, no lançamento de seu álbum “Tempo louco”. Venice e DJ Ruan Lustosa completam a noite.

Cachorro Grande foi a grande experimentação. Ela começou em 1999 e o primeiro disco, homônimo, foi lançado em 2001. Eles pegaram ainda um bom momento para as bandas de rock nacionais. Em 2018, no entanto, o grupo anunciou a saída de Marcelo Gross, que já vinha lançando discos autorais paralelamente desde 2013, começando com “Use o assento para flutuar”. Depois, veio “Chumbo e pluma”, em 2017. “Tempo louco” é seu mais novo lançamento, o primeiro desde que não integra a banda – que anunciou show de reencontro para o ano que vem, nas comemorações dos 250 anos da cidade de Porto Alegre, terra natal da Cachorro Grande.

Todas essas mudanças vieram, de acordo com ele, a moldar seus caminhos, muitas vezes sem um objetivo pré-definido, a não ser a liberdade para criar: assunto recorrente durante toda a conversa. O disco mais novo de Gross é o que ele mais abre seu lado pessoal. O músico conta que tira inspiração das suas vivências para compor, mas, vez ou outra, usa o que chama de “capa”, como se estivesse se escondendo. Em “Tempo louco”, em específico, ele faz pouco isso.

Música como bálsamo

A produção e criação começaram a ser feitas em 2019. Gross passava por momentos difíceis, de perdas pessoais importantes, que somatizavam e “caíam em um poço sem fundo”. As suas próprias composições eram um consolo, a companhia para entender e superar o momento. “A única coisa que eu tinha do meu lado era a guitarra, o papel e a caneta. Eu ia falando, para mim mesmo, ‘calma!’. Buscava me recuperar para trabalhar, que é o que me dá alegria.” Mal sabia ele que seus sentimentos seriam gerais no ano seguinte, 2020, começo da pandemia. Por essa razão, apesar de outro contexto, existe identificação na audição.

É nesse disco, também, que Gross toca em assuntos que nunca tinha tocado, ou pelo menos lançado. Ele enumera esses sentimentos, partindo do assunto “Dança das almas”, nome de sua música favorita (lançada anteriormente como single), e continua com a lei do retorno, as próprias lágrimas e o alívio que ele foi sentindo quando viu que tudo passava. Por esse motivo, “Tempo louco” não é só sobre tristeza, é também um aviso de que existe a superação, presente, sobretudo, nos ritmos que ele considera “mais para cima”. Além de ser uma descarga de sentimento, ele disse que foi essa a forma que encontrou para mostrar às pessoas que o acompanham como ele estava naquele momento e com tudo o que vem acontecendo desde então. Ele, em parceria com Charles Master, na música “Superstição”, até assume um personagem que acredita na ação dessa palavra, que assume ideias muitas vezes irreais quando não tem mais o que fazer – pelo menos visivelmente. Ele disse que, no seu caso, não foi assim. A chave foi o autoconhecimento.

Marcelo Gross
(foto: Diego Basaneli/Divulgação)

Um disco físico

O período é de um novo tempo. Olhando e se guiando em busca das liberdades, ele também usa do que sentia quando ainda criança para fazer o disco. Tem coisa que fica guardada. Ele relembra como era escolher um vinil nas lojas, chegar em casa, tirar a capa de plástico, olhar a ficha técnica, analisar as músicas que separam o lado A do lado B, colocar no toca-discos e, simplesmente, devorar. Até hoje ele faz isso: “Em casa, ouço vinil, no carro, CD, mas não abandono as caixinhas potentes quando estou viajando, longe de casa”. Para ele, toda essa relação de carinho e pertencimento com os vinis faz com que o sentimento do ouvir seja outro. “O disco é teu”, ao contrário de quando existe apenas nas plataformas digitais, na nuvem, quase que de ninguém. “Quero que as pessoas sintam a alegria que eu tinha quando recebia o formato físico nas minhas mãos”, declara. A escolha das músicas, por essa razão, é um fator à parte. Mas que, de acordo com ele, não atrapalha em nada quando um single é lançado: “Ele simplesmente prepara a audição e não resume o disco, porque isso, na verdade, seria muito difícil”.

A carreira solo é, sim, uma forma de dar caminho às composições que estavam na gaveta. Muitas músicas lançadas por Gross foram apresentadas aos integrantes da Cachorro Grande para compor os discos da banda. Com os “nãos”, ele fez esses discos, além das que ficaram guardadas sem motivo aparente. Essa escolha de estar só (pelo menos em algum dos modos) faz sentido para ele, que escreve bastante, mas, ao mesmo tempo, assume que sente falta da banda, que ele define como um “conjunto energético”, que, além disso, divide os holofotes.

“Tempo louco” em Juiz de Fora

No palco do Muzik, que reabriu suas portas na semana passada, o holofote vai ser majoritariamente voltado para Marcelo Gross, que, no show, forma um power trio com Eduardo Barretto (baixo e backing vocais) e Lucas Leão (bateria). É mesmo um retorno estar nos palcos menores, uma vez que os maiores estão sendo ocupados por outros gêneros que estouram no streaming e nas redes sociais. Gross percebe que isso é um ciclo, que ele próprio acompanhou. O único problema que ele aponta não é na diminuição dos ouvintes de rock, porque, para ele, “quem gosta, gosta” e encontra jeito de ouvir. “Eu gostei de Beatles na época em que meus amigos ouviam só Xuxa.” O problema é a predominância que ele considera falsa das redes sociais, que só “engaja” quem tem dinheiro. O caminho? Tanto para isso quanto para passar por esse tempo louco: “a música, pura e simplesmente”, além do “sentimento físico de um show. O alimento para o espírito”.