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Obra revisitada e em expansão


Por Júlio Black

15/10/2015 às 07h00- Atualizada 15/10/2015 às 09h47

Livro de D'Anestis reúne momentos importantes de seus 40 anos de atividade (Marcelo Ribeiro)

Livro de D’Anestis reúne momentos importantes de seus 40 anos de atividade (Marcelo Ribeiro)

D’Anestis pode ser visto como aquele que é de todos os lugares e ao mesmo tempo lugar nenhum. Nascido em Juiz de Fora, o artista plástico se lançou na Europa ainda na década de 1970 para conquistar seu lugar no Velho Mundo e venceu, estabelecendo sólida carreira que ultrapassou as fronteira do continente no Hemisfério Norte. Agora, ele celebra as quatro décadas dedicadas à pintura com o lançamento, nesta quinta-feira, do livro “Trajectory”, no Doc Bistrô 24, em que apresenta um resumo de suas obras ao lado de diversos textos e fotos. O evento terá, ainda, o lançamento de exposição com alguns de seus trabalhos mais recentes, intitulada “Naturezas etílicas”, que poderá ser conferida no local durante os próximos 30 dias.

O livro, que também terá lançamento na Grécia e na Suíça (esta última também com exposição), reúne não apenas alguns dos trabalhos de D’Anestis nestes últimos 40 anos, mas também poesias escritas por ele, fotos de família e de exposições, reportagens publicadas em diversos países, registros do pintor em seu ateliê em Ibitipoca e textos a respeito do artista escritos por Ferreira Gullar, Franz Weber, entre outros. “São 40 anos de pintura, então senti a necessidade de mostrar um resumo do que fiz. Havia material para 250 páginas, pelo menos”, diz D’Anestis, filho de gregos que vieram para o país devido aos conflitos com os vizinhos da Turquia. O artista plástico nasceu em Juiz de Fora e passou parte da infância em Bicas, antes de retornar à terra natal e ficar por aqui até 1976, quando abandonou os estudos no curso de artes plásticas na UFJF e partiu para a Europa, embarcando em um navio e cruzando o oceano com alguns dos seus trabalhos.

“O que mais me fez querer ir para a Europa foi a morte do meu pai e de minha avó paterna. Sou muito ligado à família e fui à Grécia buscar minhas raízes, queria resgatar a vida que tinha ficado lá”, relembra. Segundo ele, sua carreira decolou no Velho Continente após ter seu trabalho reconhecido em uma exposição na Grécia, que rendeu um convite para ir morar na Suíça e contatos com diversas figuras do mundo da arte, além de admiradores e colecionadores. Mas isso não impediu que ele viajasse por diversos países durante sua estada de mais de 30 anos pela Europa, conhecendo nações como Suécia, Itália, Marrocos, Estados Unidos, Arábia Saudita, Irã, Iraque, Emirados Árabes Unidos e Índia, entre outros. “Viajo muito, o que mais gosto de fazer é viajar.”

O contato com tantos lugares diferentes rendeu uma série de trabalhos inspirados nas paisagens que encontrou, mas algumas delas sempre foram mais recorrentes na obra de D’Anestis. “O contato com o céu da Suíça, no inverno, me influenciou muito, assim como era com a Grécia no verão. É um local de extrema beleza. Mas sempre registrei as impressões que os lugares que conheci deixaram em mim”, anima-se o pintor, que voltou a morar no Brasil há cinco anos, mas costuma retornar com frequência à Europa. No país, ele fixou residência em Ibitipoca, onde mantém o seu ateliê e registra com os pincéis a visão que encontra todas as manhãs que está por lá, além de paisagens que conheceu em suas jornadas pelo Nordeste. Atualmente, ele se diz inspirado, ainda, pela arte da cultura helênica.

Ser artista para ser livre

Muitos artistas, ao serem questionados sobre o que os levou a escolher a vida de mãos dadas com a arte, discorrem sobre o assunto com motivos muitas vezes subjetivos ao extremo. D’Anestis, porém, é simples e direto ao justificar sua decisão. “Quis ser pintor porque queria ser livre. Sou da geração pós-Woodstock, que tinha essa filosofia do amor entre as pessoas e de dividir as coisas”, justifica. Como inspiração inicial, ele destaca o espanhol Salvador Dalí como a maior delas, mas sem se esquecer de seu colega de surrealismo Magrite, pintores da Renascença e até mesmo o grupo de rock progressivo Yes. O resultado são as “paisagens cósmicas” pintadas por ele.

“Elas têm esse nome por serem analisadas, sentidas, de acordo com o ponto de vista de cada um. É o mesmo para quem olha Juiz de Fora à distância ou do ponto que eu e você estamos observando este copo”, explica. “Eu me situo entre a Gênese e o Apocalipse, exploro grande parte da história do mundo em alguns dos meus quadros. No ‘Naturezas etílicas’, por exemplo, usei escritas cuneiformes, dos sumérios, no fundo de alguns quadros. E adoro o céu, passo a noite admirando as estrelas, em especial as plêiades”, acrescenta. “Os atlantes acreditavam que o universo girava em torno delas.”

Questionado sobre o quanto mudou como artista nestas últimas quatro décadas, D’Anestis não consegue dissociar o artista plástico do homem que tem observado o nosso mundo mudar – e para pior. “A minha dúvida quanto ao ser humano aumentou. Nasci depois da Segunda Guerra Mundial e estou vendo a possibilidade de um novo conflito, a crise na Síria, a brutalidade do homem. Minha visão do mundo mudou, achava que era uma coisa, e descobri que era outra. É como disse o John Lennon: ‘o sonho acabou.'”