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Da gaveta à ribalta


Por LEONARDO TOLEDO

15/07/2011 às 07h00

Partituras foram recuperadas para o festival

Partituras foram recuperadas para o festival

Há 22 anos, quando foi realizado o primeiro Festival Internacional de Música Colonial Brasileira e Música Antiga, esse segmento ocupava lugar bem diferente no status nacional. Desprezados por grande parte do meio acadêmico e ausentes dos repertórios nas salas de concerto, os autores dessas composições seguiam no esquecimento, enquanto as partituras de suas obras se perdiam em depósitos. Duas décadas depois, as classificações da musicologia mudaram e também a condição desse legado histórico, que passou por notáveis ganhos em conhecimento e difusão. É com essa responsabilidade que a Orquestra Barroca encerra hoje as gravações de seu 12º CD, registrado durante a semana no Teatro Pró-Música. Mantendo a tradição, os músicos se apresentam no Cine-Theatro Central nesta segunda.

Muitas vezes renegada, a música colonial brasileira passou se fazer presente nas salas nobres do país. "Felizmente, o panorama mudou. Hoje, vemos esse repertório nas salas de concerto, o que era uma coisa rara. Esse tipo de música partiu de um patamar de obra desconhecida para o lugar que merece como patrimônio cultural", resume o diretor da Orquestra Barroca, Luís Otávio Santos. De acordo com o músico, a progressiva valorização do gênero no meio musical deve-se, em parte, à contextualização histórica de suas respectivas obras. "Devemos ter em mente que esses homens eram autodidatas, que compunham em um terreno muito árido", explica.

Pioneiro no segmento, o Pró-Música contribui para a valorização do gênero. Em função do festival, foram restauradas partituras de pelo menos 15 autores. Outros tantos tiveram suas obras registradas pela primeira vez pela Orquestra Barroca, incluindo os mineiros Francisco Gomes da Rocha, Antônio Caetano Melo de Jesus, Jerônimo de Souza Lobo e Paiva Quintanilha. "Naquela época, havia um risco de essas partituras se perderem. Hoje, isso não existe mais", enfatiza um dos diretores gerais do festival, Hermínio de Sousa Santos. O evento, aliás, deu visibilidade a um trabalho de garimpagem antes restrito a iniciativas isoladas de pesquisadores, além de espaço de encontro e troca de informações entre esses profissionais.

 

Novos profissionais

Ao eleger a música colonial como tema de um evento de tamanha proporção, o Pró-Música também disseminou as sementes do gênero entre os próprios instrumentistas. Muitos profissionais que passaram pelo festival como aprendizes se especializaram na música antiga e formaram novos núcleos de estudo. "Há 20 anos, era impossível imaginar uma formação como essa, com 35 músicos. Na época, isso só era encontrado na Europa. Aliás, não havia nem essa quantidade de profissionais disponíveis no país", comenta Luís Otávio. O crescimento dessa formação também é sinalizado pela proporção de estrangeiros na orquestra, que diminui a cada ano.

Com o passar dos anos, esse segmento musical também ganhou espaço na área acadêmica, sendo tema de outros eventos e simpósios pelo país. "Isso despertou tanto interesse, que começaram a surgir novos grupos", destaca Júlio César de Sousa Santos, que também integra a direção do festival. "A música antiga cresceu muito em termos de estudo. Hoje, há realmente mais interesse em realizar esse tipo de música", completa a diretora do Pró-Música Maria Isabel de Sousa Santos.

 

Resgate de repertório

Fechando um ciclo de resgate da música brasileira, a Orquestra Barroca grava neste ano a última peça inédita restante do repertório do compositor José Emerico Lobo de Mesquita: a obra "Beata mater", restaurada do arquivo da Arquidiocese de Mariana pelo musicólogo Paulo Castagna. O CD, que será lançado em dezembro, ainda traz "suítes" das óperas "Hypollite et Aricie" e "Pygmalion", de Jean-Phillipe Rameau. Para interpretar as composições do francês, a formação da orquestra ganhou atenção especial nos instrumentos de sopro, elemento característico das danças compostas para a corte de Versalhes. A música do italiano Francesco Geminiani completa o repertório da gravação. Conforme Luís Otávio, o compositor é responsável por um importante legado teórico. Através de seus tratados, foi possível resgatar a técnica do violino barroco.

O trabalho de recuperação das partituras antigas resultou em um feliz revés. "O repertório inédito está ficando mais escasso", constata Luís Otávio. Com menos peças inéditas, o caminho mais provável para as próximas edições serão as releituras. Nesse conjunto, entram versões aprimoradas de gravações realizadas pela própria Orquestra Barroca, na fase em que não era constituída exclusivamente por músicos profissionais ou quando a execução das partituras não acontecia apenas com instrumentos de época. "Partindo-se desse pressuposto, ainda podemos fazer muita coisa. A reinterpretação é inesgotável", diz Luís Otávio.