Roberto Farias deixa importante marca no cinema brasileiro

Diretor de “Assalto ao trem pagador” tinha 86 anos e tratava um câncer de próstata diagnosticado há 5 anos

Por Luiz Zanin Oricchio para Agência Estado

15/05/2018 às 08h54 - Atualizada 12/06/2018 às 13h11

Quem pensa em Roberto Farias lembra logo do diretor daquele que é considerado o maior filme brasileiro de gênero policial – “Assalto ao trem pagador”. Roberto morreu na segunda-feira, 14, aos 86 anos, e foi muito mais que isso, embora o filme, baseado em fatos reais, seja de fato um marco do nosso cinema. O cineasta estava internado no hospital Copa Star, em Copacabana, fazendo um tratamento contra um câncer de próstata diagnosticado há cinco anos. O velório de Roberto Farias será nesta terça-feira, 15, no Memorial do Carmo, e o enterro, em Nova Friburgo.

Roberto Farias (à direita) em ação ao lado do irmão Reginaldo Faria (Foto: Reprodução/Instagram)

Nascido em Nova Friburgo em 27 de março de 1932, Roberto Figueira de Farias deixa um legado cinematográfico dos mais consistentes, abrangendo várias fases do cinema nacional. Dirigiu três chanchadas, quatro dramas, um filme com os Trapalhões, uma comédia de costumes (“Toda donzela tem um pai que é uma fera”) e um documentário, “O fabuloso Fittipaldi”.

Roberto foi também importante gestor do nosso cinema. Presidiu a Embrafilme e o Concine nos anos de chumbo do regime militar. E, por paradoxo, lançou um filme provocativo, Pra Frente, Brasil, em que seu irmão, o ator Reginaldo Faria, interpreta um homem preso por engano e submetido a torturas. Na época, 1982, o tema ainda era tabu e, mesmo tratado com todo cuidado, foi vetado pela censura e provocou a queda do então presidente da Embrafilme, o diplomata Celso Amorim.

Roberto nunca perdeu o gosto pela gestão de instituições: foi um dos criadores e presidente da Academia Brasileira de Cinema, pensada nos moldes da Academia de Hollywood, com a finalidade de promover e premiar a indústria do cinema.

Como costumava dizer, aprendeu cinema na prática, no sistema old school, pré-Cinema Novo, que fazia os aspirantes a cineastas subir degrau a degrau na hierarquia do sistema produtivo até ganhar prestígio para dirigir seu primeiro longa. Roberto foi assistente de direção de uns dez filmes na Companhia Atlântica, até assinar, em 1957, o seu primeiro longa, “Rico ri à toa”. No ano seguinte fez “No mundo da lua” e, em 1961, “Um candango na Belacap”.

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Iniciou-se no gênero policial em 1960, com “Cidade ameaçada”, e, em 1962, lançou “Assalto ao trem pagador”, de fato sua obra-prima. Episódio real do noticiário policial, ganha as telas com interpretações magníficas de Elieser Gomes como o bandido Tião Medonho, Grande Otelo em papel dramático e patético como o alcoólatra do bando, e Reginaldo Faria, interpretando um playboy da Zona Sul e autor intelectual do golpe. Além das grandes atrizes Ruth de Souza e Luisa Maranhão, amante e esposa como rivais no amor de Tião Medonho. Filme de ação e reflexão, incorpora os elementos sociais ao drama criminoso à maneira dos grandes filmes noir do cinema americano e francês. Só que este é brasileiro e carioca da gema.

O elemento social compareceria também como propulsor de “Selva trágica”, de 1963, que denuncia desigualdades brutais no campo. O ambiente é o do cultivo da erva-mate, no qual os homens indefesos são explorados até o limite por uma companhia inescrupulosa.

Roberto exercitou sua veia para o cinema popular na trilogia de Roberto Carlos (“Em ritmo de aventura”, 1968), (O diamante cor de rosa”, 1970), (“A 300 km por hora”, 1971). Era homem da indústria, visava ao sucesso de bilheteria e levou essa disposição até aos filmes de fundo social que tratam de temas importantes, mas nem por isso podem se dar ao luxo de desprezar o público.

Nesse sentido filmou um texto nascido clássico de Ariano Suassuna, “Os Trapalhões no Auto da Compadecida”. E também deu voz ao cansaço nacional com a ditadura nesse filme corajoso e narrado de maneira clara, “Pra frente, Brasil”, cujo desempenho foi prejudicado pela censura.

Como quase todo cineasta brasileiro, Roberto sofreu com o desmanche da Embrafilme nos anos Collor e procurou formas de financiamento alternativos naqueles anos duros. Tinha um sonho que deixou irrealizado e sobre o qual conversou longamente com a reportagem na ocasião. Queria filmar a incrível história da passagem de Theodore Roosevelt pelo Brasil, mas a produção seria cara e não saiu. A história será agora filmada por Bruno Barreto em forma de série para uma TV por assinatura.

Com seu talento de criador e inventividade de gestor, deixa uma marca importante no cinema brasileiro. E, sim, “Assalto ao trem pagador” é um filme para sempre. Um clássico.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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