‘Perna cabeluda’ em Juiz de Fora? Lendas urbanas e histórias mal explicadas rondam cidade onde começou ditadura militar
No dia do Oscar de 2026, em que ‘O agente secreto’ traz protagonismo para o Brasil, histórias cheias de ‘pirraça’ são relembradas

No filme “O agente secreto”, indicado a quatro categorias do Oscar de 2026, a perna cabeluda aparece como uma perna humana grande, coberta de pelos e que aparece atacando pessoas pelas ruas do Recife. Para além de um personagem da trama que conquistou Hollywood, essa figura notável existiu nos jornais dos anos 1970, em plena ditadura militar, estampando os cadernos policiais e causando medo na população. As notícias tratavam a perna cabeluda como responsável por crimes reais que faziam vítimas entre os grupos marginalizados – mas algumas versões começaram a apontar que, na verdade, essa “persona” teria sido criada por jornalistas pernambucanos para denunciar agressões policiais driblando a censura da época. Fato é que, durante essa época cheia de “pirraça”, para citar as palavras do roteiro de Kleber Mendonça Filho, muitas lendas urbanas surgiram e histórias ficaram mal explicadas. Inclusive em Juiz de Fora, cidade de onde partiram as tropas militares que deram início ao período da ditadura.
No imaginário popular, histórias como a do Homem da Capa Preta e a da Noiva do Privilège podem nem ter nada a ver diretamente com a repressão política. Mas a concentração de poder da época deixou muitos crimes sem resolução, aumentando as dúvidas sobre o que de fato aconteceu em cada uma dessas histórias. E, para quem ainda acredita em coincidência, é mesmo no mínimo estranho que tantas lendas urbanas tenham surgido justamente em um mesmo período do país.
Para além daquelas histórias que se tornaram assumidamente lendas urbanas, há ainda outras que, por terem Juiz de Fora como palco, ainda deixam dúvidas sobre como aconteceram — e que, por terem se originado em um período em que tanta coisa inacreditável aconteceu, bem parecem mito das ruas também.
O violento Homem da Capa Preta
Por volta dos anos 1970, começou a rondar a história em Juiz de Fora de um homem de capa preta que estaria aterrorizando a cidade. Entre Batman e Zorro, o tal indivíduo atacava pessoas e passou a causar medo entre quem precisava atravessar as ruas da cidade no período da noite. Apesar de não se ter nenhuma evidência que ligue diretamente essa figura à repressão, também não se sabe quem foi ele ou mesmo se de fato existiu, mas quem viveu a época se lembra bem do burburinho que causou.
A comoção foi tamanha que o Capa Preta chegou a ser caçado por populares e até levou um padre a ser castigado em seu lugar. A história, de qualquer maneira, é boa — e dependendo de como estiver a agenda de Wagner Moura, já seria um ótimo novo papel.
A Noiva do Privilège
Bem na linha das lendas urbanas, a da Noiva da Privilège já deixou muita gente com medo: remonta a um tempo até bem anterior ao da inauguração da prestigiada casa de festa. Dizem que um casal de noivos descia o Morro do Imperador de carro, a caminho da Lua de Mel, quando a porta se abriu, sozinha, e a mulher morreu. Com isso, ela teria passado a assombrar o local e depois até teria convencido o noivo a construir uma casa de festas.
População amava receita de bolo
Quem lia as receitas de bolo sempre estampando as capas de jornal, principalmente depois do fatídico ano de 68, podia achar mesmo que a população estava com um gosto anormal por confeitaria. Mas não era nada disso. Em jornais como o Diário Mercantil e a Tribuna de Minas, em Juiz de Fora, mas também em vários outros do país, era bastante comum que, depois do AI-5, a censura interviesse na última hora e proibisse a publicação de certas reportagens já muito perto do horário de fechamento das edições.
No lugar das matérias subitamente censuradas, então, os jornalistas e diagramadores eram obrigados a inserir qualquer coisa só para nao deixar o espaço em branco – e aí costumavam optar por receitas de bolo. O povo, é claro, podia até estranhar. Mas naquela época não tinha nem como reclamar.
Caça ‘cabeludos’ e ‘barbados’
Encontrar quem “caçasse” uma população com base em seus atributos físicos bem que também poderia parecer lenda urbana, mas não é. Essa é uma história registrada no livro “As rugas que irrompem na lisa superfície da história: as formas clandestinas de informação na década de 60/70 em Juiz de Fora”, de Ramsés Albertoni. O pesquisador descobriu que Manhuaçu recebeu, em 1969, os 16 primeiros presos políticos que seriam enviados para a recém-inaugurada Penitenciária de Linhares, em Juiz de Fora.
Os indicados foram capturados por policiais do 11º Batalhão de Infantaria da Polícia Militar de Minas Gerais, que foram enviados ao Parque Nacional da Serra do Caparaó para averiguar a presença de “cabeludos” e “barbados” que se vestiam diferente dos moradores e andavam armados pelo parque, de acordo com a população local.
No Dia da Mentira
Quem viveu o ano de 64 pode jurar que as tropas militares que saíram de Juiz de Fora tiveram sua “vitória” no dia 1º de abril. Os historiadores inclusive já chegaram a uma conclusão sobre isso: o movimento teve início no dia 31 de março, mas realmente só foi concluído no primeiro dia do mês seguinte. No entanto, as autoridades militares chegaram à conclusão de que “não pegaria bem” o movimento que se apresentava como sendo pela “revolução brasileira” ser associado no imaginário popular justamente no Dia da Mentira, e por isso convencionou-se que o marco fosse fixado oficialmente como tendo ocorrido no dia 31 de março. Bem que a coisa toda poderia mesmo ter sido só uma mentira.









