Conheça carnavalescos de Juiz de Fora que dão nome aos circuitos da cidade

Zé Kodak, Júlio Guedes, Flavinho da Juventude e Nancy de Carvalho deixaram legado no carnaval e homenagem busca levar memória para próximas gerações


Por Elisabetta Mazocoli

15/02/2026 às 06h00

Quem viveu o carnaval de Juiz de Fora nas últimas décadas vai se lembrar dos esforços de Zé Kodak para sair com a Banda Daki. Ou então dos desfiles com o Rei Momo Júlio Guedes, entre 1993 e 2004, e a emoção de ver a primeira porta-bandeira da cidade, Nancy de Carvalho. E mesmo quem não viveu essa época já deve ter escutado ecoando pelos cantos da cidade a letra “a juventude tem um tarol que anuncia a morte do Rei Sol”, samba-enredo do compositor Flavinho da Juventude. Esses baluartes do carnaval da cidade não estão mais presentes para comemorar as festas na rua, mas foram escolhidos para nomear os circuitos da cidade. Essa homenagem busca unir memória, território e a festividade, que fazem parte da identidade cultural do brasileiro e que eles tanto defenderam em vida. Nesta matéria, a Tribuna conta um pouco da história de cada um. 

O projeto de lei que homenageia esses nomes fundamentais do carnaval da cidade é de autoria da vereadora Kátia Franco (PSB). “Todos eles tiveram atuação nos blocos e nas escolas que ocupam as principais áreas da cidade, o que dialoga diretamente com os espaços dos circuitos”, explica. No caso do Zé Kodak, por exemplo, essa interação se dá tanto pelo espaço que a Banda Daki desfila quanto pelo local em que fica a sua tradicional loja. Essa é uma forma, como ela explica, de fortalecer o reconhecimento do carnaval na cidade como patrimônio cultural e imaterial. E também de valorizar quem faz essa festa acontecer. “Os fazedores do carnaval enfrentam muitas limitações de recursos e desafios na organização. A homenagem é um reconhecimento da dedicação de décadas à cultura popular da cidade”, afirma a vereadora. 

O que ela acredita, ainda, é que mais ações devem levar o legado de nomes como esses para frente.  “O que pode ser feito, e é fundamental, é investir no registro da memória do carnaval e incentivar pesquisas, ações educativas e políticas permanentes de valorização das escolas e blocos”, diz. O mesmo pensa Nara Pinheiro, da Funalfa, que entende que essa é uma forma de despertar a curiosidade de novas gerações sobre quem foram essas figuras e garantir que seu legado seja levado para os mais novos, sempre em renovação. “Temos blocos muito tradicionais e uma juventude interessada participando. Acho que essa interseção entre diferentes gerações e a nova construção dos desenhos do carnaval com esses personagens que vão surgir também é algo muito legal para que a gente consiga ver mais pessoas reverenciando o que é o samba”, diz. 

Zé Kodak 

ze kodak carnavalescos circuito
(Foto: Leonardo Costa)

O circuito Zé Kodak é aquele que liga o Parque Halfeld à Praça da Estação, na região Central de Juiz de Fora. O empresário começou o seu envolvimento com a festa na cidade de maneira quase acidental, como contou seu sobrinho, o também carnavalesco Gustavo Passos, quando ainda jovem estava trabalhando e escutou as movimentações da folia — e pediu folga para participar. Foi então que ele se envolveu com o grupo que criou a Banda Daki, em 1972, e mais tarde se tornou o maior responsável por sua manutenção e seu crescimento ao longo das décadas. Assim se tornou também conhecido como General da Banda e, mais tarde, Marechal da Banda que reúne o maior número de foliões na cidade.

Foram quase 50 anos desfilando pelas ruas de Juiz de Fora e defendendo o carnaval – até a sua morte em 2021, após complicações da Covid-19. “Desde muito pequeno, a gente via ele com um envolvimento muito grande no carnaval. A banda e o carnaval eram essenciais na vida dele. (…) Sempre falava com a gente que trabalhava 364 dias no ano para viver um dia da Banda Daki”, conta o sobrinho. Para quem fica, o recado é que Juiz de Fora não pode ficar para trás de outras cidades mineiras quando o assunto é carnaval. E isso inclui reconhecer essa perspectiva histórica que a cidade já tem. “Não dá pra falar do carnaval de Juiz de Fora sem lembrar da figura do Zé Kodak”, conclui.

Júlio Guedes

circuito carnaval julio guedes arquivo tribuna 1
(Foto: Arquivo TM)

Ser Rei Momo é assumir um dos símbolos máximos do carnaval brasileiro, comandando as festividades com alegria, liberdade e irreverência. E era exatamente isso que fazia Júlio Guedes, que assumiu o posto durante mais de dez anos em Juiz de Fora. Antes disso, no entanto, também teve uma história de envolvimento no carnaval com mais de 50 anos, incluindo sua relação com as escolas de samba Juventude imperial e Turunas do Riachuelo, além da organização da Banda Daki — e sempre ao lado de seu irmão gêmeo, Carlos, que também já foi rei das ruas da cidade. Ele morreu em 2014, aos 63 anos, mas o legado segue, principalmente a partir do Viaduto Roza Cabinda com cortejo até a Praça da Estação, circuito com o seu nome.

Flavinho da Juventude

circuito carnaval
(Foto: Felipe Couri)

Flávio Aloísio Carneiro, também conhecido como Flavinho da Juventude, aliou em vida a sua trajetória artística com a militância social. Para ele, carnaval e política nunca estiveram em esferas separadas da vida. Filho de mãe lavadeira, trabalhou como engraxate e fazendo bico em diversas áreas, e foi analfabeto até os 21 anos. Mas aos 52 anos conseguiu o diploma em Química pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), marcando uma série de conquistas em sua vida, incluindo ter assinado como autor ou co-autor mais de 40 composições. Algumas delas foram ecoadas durante desfiles de carnaval como no enredo da Juventude Imperial. É o que também relembra a amiga e cantora Sandra Portella. “As memórias que tenho dele, principalmente no ponto que hoje tem nome de Arena Flavinho da Juventude, são muito bacanas. São da praça cheia e das pessoas esperando a gente fazer nosso show de samba. (…) O espaço condiz com toda a história do Flavinho naquele local”, conta ela, sobre o ponto que fica na Praça da Estação.

Como ela lembra, desde que “se entende por gente”, ele era uma figura muito ativa no carnaval da cidade. “A figura dele no carnaval é muito emblemática e intensa, tanto na escola de samba, na comunidade, na Juventude Imperial quanto no carnaval de rua. Ele sempre foi muito envolvido”, diz. E, além das composições, também chamava muito a atenção as articulações que fazia entre carnaval e política. “Ele sempre deixou claro que era preciso investir no carnaval e que era importante ter a política junto ao carnaval, até para passar mensagens a população”, destaca.

Nancy de Carvalho

circuito carnaval
(Foto: Leonardo Costa)

A arena Nancy de Carvalho fica na Praça Tarcísio Delgado, e relembra a história da eterna porta-bandeira de  Juiz de Fora. Ela foi uma das fundadoras do Bloco do Beco e sua família fundou a escola de samba Feliz Lembrança, originária do Bairro Largo do Cruzeiro — o que fez com que desde criança estivesse envolvida com o carnaval da cidade. Ela também foi conhecida por trazer o protagonismo da mulher para o samba, e isso inclusive fez com que o bloco, em 2015, quando ela completou 80 anos, desfilasse com o tema “Nancy morena, mulata, crioula, porta-bandeira” em sua homenagem. E assim também nasceu o samba composto por Mamão, Carioca e Toinho Gomes: “Oi, lá vem ela! A menina moça/ Que namorava no portão/ Lá vem ela!/ Trazendo o Bloco do Beco/ no seu coração./ Parece que o tempo não passou/ Que a fonte da juventude não secou/ Ainda o mesmo sorriso de sedução/ Olhando para o futuro com a mesma emoção/ Incontestavelmente é a primeira/ Pra sempre nossa Nancy porta-bandeira.”

Tópicos: carnaval

Os comentários nas postagens e os conteúdos dos colunistas não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é exclusiva dos autores das mensagens. A Tribuna reserva-se o direito de excluir comentários que contenham insultos e ameaças a seus jornalistas, bem como xingamentos, injúrias e agressões a terceiros. Mensagens de conteúdo homofóbico, racista, xenofóbico e que propaguem discursos de ódio e/ou informações falsas também não serão toleradas. A infração reiterada da política de comunicação da Tribuna levará à exclusão permanente do responsável pelos comentários.